sexta-feira, 25 de abril de 2014

Recordar Salgado Zenha

Francisco Salgado Zenha foi um político e advogado, que se destacou como democrata e opositor do regime fascista. Nasceu em Braga em 1923, tendo vindo a falecer prematuramente em 1993, com apenas 70 anos. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo sido o primeiro estudante eleito para presidente da Associação Académica durante o regime salazarista. Foi membro-fundador do partido Socialista, tendo desempenhado diversos cargos políticos no pós 25 de Abril. Foi Ministro da Justiça e Ministro das Finanças, tendo sido candidato à Presidência da República em 1986, contra o candidato apoiado pelo seu partido, Mário Soares.

Hoje, 25 de Abril de 2014, a Câmara Municipal de Braga promove uma justa homenagem.

sábado, 8 de março de 2014

Lausperene Quaresmal: a tradição bracarense



Igrejas de Braga ficam particularmente belas durante a Quaresma

O Lausperene Quaresmal constitui uma das tradições mais importantes da preparação pascal na cidade de Braga. Foi o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, quando fez o relatório para a primeira visita “Ad Limina”, quem pediu ao Papa Clemente XI a instituição do lausperene quaresmal nas igrejas da cidade de Braga, começando na quarta-feira de cinzas e terminando no Domingo de Ramos. Esta celebração deveria ter as mesmas indulgências que haviam sido concedidas anteriormente às igrejas de Lisboa, no ano de 1682, por intermédio do Papa Inocêncio XI. 
Passados mais de três séculos, esta tradição continua viva e enraizada na vivência quaresmal dos bracarenses. São, no total, 23 os templos que acolhem o lausperene quaresmal, que decorre ao longo de dois dias em cada igreja, tempo durante o qual a Sagrada Eucaristia está exposta em adoração permanente desde o princípio da manhã até ao fim da tarde.
As igrejas surgem transfiguradas. Trata-se do momento mais elevado do ano, altura única em que os fiéis bracarenses se deslocam em massa a estes lugares sagrados. Os templos, que acolhem durante dois dias a adoração eucarística, são decorados primorosamente com flores, velas e monumentais cortinas, contrastando com a austeridade que os cânones litúrgicos aconselham por estes tempos quaresmais. As tribunas, habitualmente localizadas ao centro do altar-mor em forma de escada, continuam a ser o lugar por excelência da adoração eucarística, sobre a qual se exibe, muitas vezes, a custódia ostentando as sagradas partículas do Corpo de Cristo.
Apesar de os recentes preceitos do Concílio Vaticano II recomendarem que os tronos não estejam demasiado distantes dos fiéis, continua a cumprir-se a tradição bracarense de os pompear, mesmo nos casos em que a custódia é colocada já sobre a mesa do altar.
A porta principal da igreja é vedada com uma enorme cortina púrpura, de forma a assinalar o “Louvor Perene” (lausperene) que é vivenciado no seu interior. Junto à entrada, acolhem-se também as habituais “rebuçadeiras”, que expõem os tradicionais “rebuçados do Senhor” embrulhados em papéis multicolores, tentando os crentes com promessas mélicas que possam quebrar o seu jejum quaresmal.
Em tempos não muito recuados, as igrejas competiam entre si pelo título de mais bela do lausperene quaresmal. Daí o esmero nas decorações dos templos, que as zeladoras adstritas a cada lugar sagrado faziam questão de confirmar. Ainda se ouve dizer que o Senhor «esteve bem mais bonito na minha igreja», em conversas entre vizinhas. Uma rivalidade ”sagrada” que o tempo acabou por desgastar. Hoje, a maioria dos fiéis que frequenta as igrejas durante o sagrado lausperene busca a oração e o recolhimento, o sentimento de que a proximidade com o Corpo de Cristo se torna realidade mais efetiva neste tempo favorável que é a Quaresma.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O traje da cidade de Braga

Braga, como aliás todo o Minho, tem uma riqueza etnográfica que merece ser valorizada e preservada. Poucos bracarenses saberão que existe um traje típico de Braga e quais são as características desse mesmo traje. Este postal do início do século XX refere-se precisamente a esse elemento distintivo da capital do Minho.
Não sei se este será o traje de capotilha (parece ser), classificado por Gonçalo Sampaio como o autêntico traje da bracarense citadina, mas trata-se de um traje que seguramente é o mais emblemático do vale do Cávado.
Será que hoje em dia se fazem postais com o traje de Braga?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um arcebispo invulgar


A estátua de D. Frei Bartolomeu dos Mártires em Viana do Castelo

Nos últimos dias, Braga foi palco de um congresso internacional sobre o Concílio de Trento, onde foi dado particular relevo a um dos mais eminentes prelados bracarenses. Embora se tenha destacado mais do ponto de vista da ação pastoral, e não tanto como Senhor da cidade de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires é uma referência inevitável na história da nossa cidade.
Natural da freguesia dos Mártires, em Lisboa, onde nasceu em 1514, o prelado tomou o hábito de dominicano desde os 15 anos. Nessa qualidade foi professor de teologia em Évora e, mais tarde, Prior do convento de Benfica. Não podemos isolar a sua existência do contexto histórico que viveu. Homem do seu tempo, D. Frei Bartolomeu dos Mártires certamente se deixou tocar pelos muitos conflitos de índole religiosa existentes na Europa devido à Reforma Protestante protagonizada por Martinho Lutero. Tido como um homem de boa índole, simplicidade e humildade – segundo é citado - detinha o perfil perfeito para ocupar a cadeira de Arcebispo Primaz. E assim foi em 1559, sendo D. Catarina regente, D. Frei Bartolomeu tornou-se Arcebispo de Braga.
Em Braga preocupou-se particularmente com a instrução religiosa e dedicou-se a visitar o território da Arquidiocese, tomando pulso aos problemas dos seus ‘rebanhos’. Deve-se a este prelado a memorável participação no Concílio de Trento onde D. Frei Bartolomeu interveio com brilhantismo. Este Concílio foi um dos momentos mais importantes na história do cristianismo, dado que deu início a uma grande reforma na Igreja, que D. Frei Bartolomeu dos Mártires fez questão pôr em prática, mandando abrir o primeiro seminário da Península Ibérica. Em 1582 pediu a renúncia do cargo de Arcebispo, segundo se diz, por se sentir afetado pela morte de D. Sebastião e consequente perda da independência do reino. Retirou-se para o Convento de S. Domingos em Viana do Castelo onde veio a falecer, com fama de santo, em 1590. Foi beatificado pela Igreja Católica em 2001, reconhecendo-se desta forma as suas qualidades humanas e morais.
Um dos testemunhos mais marcantes da sua passagem por Braga não poderia ser mais singelo. Trata-se de um cruzeiro de simples feitura, desde sempre implantado no recinto de S. João da Ponte. Este monumento evoca um período particularmente difícil para a cidade de Braga. Em 1570 a “peste”, que vitimou milhares de portugueses, atingiu Braga. Sendo esta uma doença contagiosa, era necessário isolar os doentes para tentar a sua reabilitação, evitando contaminar a restante população. Aquando deste acontecimento, D. Frei Bartolomeu dos Mártires recebeu missivas do próprio rei para abandonar Braga e evitar ser contaminado, todavia rejeitou. Como relata D. Rodrigo da Cunha poucos anos após, em 1635, D. Frei Bartolomeu dos Mártires “proveu no remédio dos feridos, mandando-os curar na casa da saúde que ordenou se fizesse na devesa dos Arcebispos. (…) Deixou-se ficar na cidade, e por sua boa diligência, ou o que é mais certo, por seus grandes merecimentos, o mal cessou em breve e durou muito menos tempo do que em outras povoações de menos consideração (…) Há desta peste memória na pedra do cruzeiro da ponte de Guimarães”. Para além do hospital que mandou construir na sua devesa, onde atualmente está o Parque da Ponte, ele próprio tratava os doentes “administrando-lhes os sacramentos, visitando-os e curando-os…”. Graças à insistente acção de D. Frei Bartolomeu dos Mártires a peste não se prolongou por muito tempo nem fez, em Braga, um número elevado de óbitos.
Em homenagem e gratidão da cidade ao seu prelado, a Câmara mandou erguer um cruzeiro, poucos anos depois, no preciso local onde foi erigido o hospital dos pestíferos. Até hoje o cruzeiro está junto à Capela de São João da Ponte, embora o local que ocupa no presente não seja o primitivo. Assenta sobre um pequeno pedestal, em que se podem ler as seguintes inscrições: “Sendo Arcebpo de Braga Do. F. Bertolamev dos Martires ovve peste nesta cidade no ano de 1570 e os empedidos fora trazidos a esta deveza”.
Outra das marcas mais significativas da passagem de D. Frei Bartolomeu por Braga é o Colégio de São Paulo, que foi um importante centro de difusão cultural de Braga e do Minho.
A fundação do colégio, onde atualmente está instalado o seminário Maior de Braga, é atribuída a D. Diogo de Sousa no ano de 1531, todavia o edifício e o seu funcionamento só foi efectivado três décadas após. A iniciativa de chamar os Jesuítas para Braga passará para a história como ação de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, que foi o Arcebispo que oficialmente concretizou a entrega do Colégio de São Paulo à Companhia de Jesus no distante ano de 1560. O seu brasão está, por isso, gravado no templo desta edificação religiosa.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mais um monumento no rol bracarense

Hoje, os bracarenses receberam mais uma excelente notícia. A Direcção Geral do Património iniciou o processo de classificação da Capela de Santa Maria Madalena da Falperra como monumento de interesse público. Esta edificação religiosa, saída das mãos do grande André Soares na década de 50 do século XVIII, é um dos monumentos barrocos mais relevantes do concelho de Braga.
Apesar das polémicas sobre se a linha de fronteira entre Braga e Guimarães passa atrás da sacristia ou em frente da fachada, a verdade é que foi erigida voltada à cidade dos arcebispos e a expensas dos fiéis bracarenses. Mais bracarense é difícil, mesmo que nos anos 60 alguém se tenha lembrado de desenhar a linha da carta militar um pouco mais à frente do que duas décadas antes...
A fachada marca pela originalidade dos traços, as duas 'falsas' torres, o janelão central e o seu enquadramento no retábulo de pedra desenhado pelo arquitecto do Minho. A planta é inusitada e não se sabe muito bem a quem atribuir a sua autoria.
O traçado rococó continua no interior, onde se podem admirar três retábulos, também de André Soares, que completam com sublimidade o percurso iniciado no exterior. Saliente-se a imagem de Cristo na cruz, que preenche o retábulo-mor, encomenda do início do século XX, ao grandioso escultor bracarense João Evangelista Vieira, e que inspirou o escritor lisboeta Antero de Figueiredo numa das suas grandes obras "O último olhar de Jesus".  Para crentes ou não-crentes, vale a pena admirar!

domingo, 3 de novembro de 2013

O desastre arsenalista

Estou chocado! O Sporting de Braga teve dois jogos em casa contra equipas de qualidade inequivocamente inferior. Mesmo assim saiu derrotado nos dois jogos, manifestando evidentes fragilidades na forma de construir o jogo e na concentração dos seus intérpretes. No rescaldo da quarta derrota consecutiva para a Liga, e depois de algumas vitórias alcançadas de forma sofrível, o treinador vem dizer que ele e os jogadores estão de consciência tranquila, pois «tudo fizeram para ganhar». Ora, quem assistiu a todos os jogos do Braga sabe bem que isto não é verdade, para além de significar uma falta de humildade gritante. Por tudo isto, urge concluir que se Jesualdo Ferreira se mantiver como treinador do Braga pouco ou nada vai mudar, portanto a época do Braga terminou aqui. Está nas mãos de quem manda, alterar o destino...

Perante isto, grassa a desilusão entre os adeptos do Braga. Os grandes momentos já parecem distantes. Onde anda Domingos Paciência?

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Santos da Cunha: um bracarense de gema

António Maria Santos da Cunha continua a ser de grata memória para os bracarenses
Há homens que passaram pela vida sem pensar apenas no seu umbigo, mas com uma veia forte de altruísmo e amor à terra. Desses é bom que conste a sua memória, gravada a letras de ouro na fisionomia da sua comunidade. É o caso de António Maria Santos da Cunha.
Bairrista exacerbado, é conhecido pelo seu fervor apaixonado a todas as causas da cidade de Braga. Comerciante de profissão, cedo se envolveu em inúmeras instituições da cidade, nomeadamente no Grémio do Comércio. Foi presidente da Câmara Municipal de Braga entre 1949 e 1961, período no qual foi lançado o plano de urbanização do sul da cidade e a Rodovia. Consta que os ministros fugiam quando Santos da Cunha se aproximava, pois já sabiam que iriam ter que escutar uma mão cheia de reivindicações.
Amigo das instituições do concelho, numa célebre homenagem confessou "cada homem tem a sua paixão; a minha é a da terra!". Integrou ainda diversas comissões de festas de São João, tendo presidido à mesma nos anos de 1944 e 1945. Foi também provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga e Governador Civil, cargo que ocupava quando faleceu em 1972, com apenas 60 anos de idade.
Apesar do preconceito de alguns sectores mais radicais da política brácara, os bracarenses mais longevos continuam a louvar a memória de Santos da Cunha. Aliás, pessoalmente, continuo a preferir um presidente da Câmara que governou para e pelo povo em regime ditatorial a um presidente da Câmara com atitude e métodos de ditador em período democrático.
Jamais devemos ser ingratos com a memória daqueles que deram a vida pela nossa terra!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quo vadis Jesualdo?

Na sua segunda passagem por Braga, Jesualdo decidiu ser inventor...
Não se entende a tolerância de certos adeptos do Sporting de Braga perante o insuficiente desempenho da equipa de futebol durante a presente época futebolística. (Que sugerem? Que batamos palmas a exibições fracas e fiquemos impassivos perante as más decisões técnias???) Estamos a fazer o pior arranque do século, a que se acrescenta uma queda no play-off da Liga Europa contra uma equipa muito mais modesta que o Braga.
Circula entretanto uma petição a pedir a saída do treinador, que penso que se justifica plenamente. Jesualdo Ferreira tem demonstrado não estar à altura do actual contexto desportivo do Braga. Não é uma questão de competência, mas uma questão de oportunidade.
É fácil atirar as culpas aos jogadores ou aos dirigentes, mas quem é que coloca os jogadores em campo e define a táctica? Quem é que teima em colocar no onze jogadores sem rendimento de uma forma insistente e incoerente? Quem é que foi soberano na construção do plantel e nas opções das dispensas? Quem é que decide colocar jogadores fora das suas posições naturais ou tentar compatibilizar jogadores com as mesmas funções dentro de campo? Porque é que, mesmo nas vitórias obtidas, o rendimento foi confrangedor?

A quem encontrar outro responsável que não o treinador, agradeço que deixe comentário!
Depois do pesadelo Peseiro, só faltava o Jesualdo decidir borrar a pintura... Até pode ser que atine e possa obter sucesso, desde que deixe de inventar posições novas e deixe de ter afilhados dentro do plantel. Há uma evidente responsabilidade do treinador nesta crise de resultados.

Parcómetros e interesse público

Foi hoje revogado o aumento da área de parqueamento pago implementado em março deste ano. As 27 ruas adicionadas ao Edital por Mesquita Machado vão deixar de pagar o estacionamento, por decisão do executivo liderado por Ricardo Rio.
Aqui está uma decisão sensata, de quem pensa verdadeiramente nos interesses dos comerciantes e dos moradores!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem estará à altura de D. Diogo de Sousa?

D. Diogo de Sousa é o maior vulto da história de Braga
D. Diogo de Sousa é incontornavelmente o maior vulto da história de Braga. Arcebispo entre 1505-15032, lançou as bases do urbanismo da cidade até quase ao século XX e voltou a torná-la grande, numa altura em que poderia ter sido condenada ao esquecimento. Os descobrimentos abafaram as cidades que não estavam junto ao mar - Coimbra salvou-se por causa da Universidade... - e D. Diogo de Sousa, conhecedor da Roma renascentista, dotou Braga de novas ruas e espaços urbanos, mandou construir novos templos, fontes e infra-estruturas para o comércio. Convidou artistas para virem trabalhar em Braga e assistiu à fundação de novos conventos e promoveu a existência de formação superior, através da fundação do Colégio de São Paulo.
Não deixa de ser surpreendente que na recente tomada de posse do novo Presidente da Câmara de Braga, o presidente da Assembleia Municipal cessante tenha comparado este Arcebispo a Mesquita Machado(!)... Aliás, a reacção da assembleia popular presente, que brindou esta arrojada observação com apupos e impropérios pouco recomendáveis, foi a melhor resposta para o autor de tamanha maquilhagem histórica. É certo que as leituras históricas estão sempre sujeitas à especulação e à mitificação, todavia há limites para a liberdade criativa.
Quem tenta fazer esta analogia, entra imediatamente em contradição. D. Diogo de Sousa expropriou terrenos para usufruto público; não propriamente para incrementar negócios imobiliários e a propriedade privada. D. Diogo de Sousa promoveu a abertura de grandes praças e espaços verdes, alargou ruas e rasgou as muralhas; não foi o responsável pelo aproveitamento excessivo de terrenos urbanizáveis, construindo ruas estreitas e escuras, muito menos adensou uma muralha de vias rápidas que separou os habitantes da cidade. D. Diogo de Sousa espalhou arte pelos espaços urbanos e inaugurou fontes que brotavam água; não promoveu a demolição de imóveis que representavam vectores artísticos e, muito menos, retirou a água das fontes que embelezam as praças da cidade.
Há para aí umas estranhas correntes sofistas que tentam fazer crer que D. Diogo de Sousa também foi um destruidor de património, dado que para abrir ruas e praças teria que demolir o edificado anterior. Como se pode querer comparar alguém que deu as linhas mestras para uma cidade bem planeada e de ruas largas e amplos espaços urbanos com o legado de outrém que desordenadamente a planeou com ruas estreitas e poucos ou nenhuns espaços de usufruto público?
Este discurso altamente falacioso esquece que as habitações comuns medievais eram bastante efémeras devido ao tipo de construção então utilizada, pelo que apenas foi reorganizada a sua distribuição no espaço. Quanto à destruição de património, não consta que tal tivesse sucedido. Aliás, foi D. Diogo de Sousa quem ergueu os primeiros monumentos dignos desse nome depois do edifício da Sé Primaz, o único digno de menção até então. Cruzeiros, fontes e capelas proliferaram pela cidade, para além do acrescentamento artístico da capela-mor e cabeceira da Sé Primaz e alargamento do Paço. Para quem quiser insistir nessa irracionalidade, deverá ainda recordar o facto deste Arcebispo ter sido o primeiro a proteger o legado romano ainda subsistente em Braga. Junto à capela de Santana, que se localizava na actual avenida Central, D. Diogo mandou juntar a maior colecção de marcos miliários da península Ibérica, entre outras relíquias do período romano. Não, D. Diogo de Sousa não protegeu nem patrocinou os promotores da destruição de vestígios arqueológicos...

Acresce a este dado, o facto de D. Diogo de Sousa, em missiva enviada a D. João III, ter referido que utilizou os próprios bens pessoais para concretizar alguns dos seus projectos para Braga. A simplicidade como vivia este Arcebispo atesta que pouco tinha de seu quando a 19 de Junho de 1532 se despediu da vida. Não consta que Mesquita Machado se encontre na mesma situação...
Se queremos encontrar alguém que possa ser capaz de ombrear com D. Diogo de Sousa pela valia dos seus actos de gestão e pelo altruísmo dos seus actos, talvez possamos arriscar alguns nomes. O Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, talvez, ou António Maria Santos da Cunha, um verdadeiro amante do povo. Todavia, continuo a entender que é muito difícil estabelecer uma analogia, tal foi a magnitude da sua acção.

Fica a minha opinião, devidamente sustentada!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Recordar Martinho de Dume

O sarcófago de S. Martinho de Dume é uma obra de arte paleocristã

Trabalhos arqueológicos recentes confirmaram a existência de uma basílica em Dume
Hoje Braga recorda S. Martinho de Dume, um dos homens mais ilustres que passou pelo sólio arquiepiscopal. Martinho era natural da Panónia, província romana situada no território da actual Hungria, tendo nascido presumivelmente em 520. Foi bispo de Dume, onde fundou um mosteiro, sendo mais tarde (569) elevado a bispo metropolita de Braga, dotado de influência sobre todas as dioceses da província da Galécia. Em 561 participou no I Concílio de Braga, tendo presidido ao segundo no ano de 572. Morreu em 579.  S. Martinho aparece no seio de um povo em processo de conversão ao cristianismo e exerce sobre ele uma acção civilizadora sem precedentes. Não podendo centrar as suas reflexões nas grandes questões da fé, centrava-se o pensamento na conduta. A eficácia das suas obras nas populações do reino suevo deve-se, sobretudo, à autoridade adquirida pela Igreja na vida civil. Apesar de pouco dotados de grandes especulações, os seus escritos são de grande relevância no estudo do pensamento medieval em Portugal. 
Ao que se supõe, Martinho fundou o mais antigo mosteiro (cenóbio) existente em território português, situado em Dume, nos arredores de Braga. O ideal de vida ascético, da purificação da conduta, de valorização da interioridade e da oração, está bastante presente na sua vida e expresso claramente nas suas preocupações pastorais. De entre as suas obras, saliente-se o De correctione rusticorum, que traduzido significa ‘Correcção dos erros dos rústicos’. Os rústicos eram aqueles povos rurais que permaneciam apegados às velhas superstições do paganismo. Esta obra é uma epístola moralizante que tenta fornecer critérios de acção à luz da fé que professam pelo baptismo. S. Martinho apela à coerência de vida destes povos. Os ídolos, os demónios, o culto das forças da natureza, o hábito de dar aos dias da semana o nome de deuses da mitologia greco-latina, as práticas divinatórias, as superstições como o celebrar o dia do rato e das traças, são criticados por não serem consentâneos com o estatuto de um verdadeiro cristão

domingo, 20 de outubro de 2013

Uma alegoria a Braga


Estátua de Braga no salão nobre da Câmara Municipal
Postal com a estátua de Braga que encima o Arco da Porta Nova
Talvez muitos bracarenses desconheçam, mas a nossa cidade dispõe desde o início do século XVIII de uma alegoria personificando Braga. Trata-se de uma mulher "vestida à trágica", com uma mão sobre a cabeça e outra segurando uma miniatura da Sé Primaz, que era o símbolo da cidade. Apoia-se num escudete onde se pode ler a sigla B.A.F.A., que significa "Bracara Augusta Fidelis et Antiqua" (Braga Augusta Fiel e Antiga), que foi o lema oficial da cidade.
Esta alegoria pode ser vista encimando o Arco da Porta Nova, a entrada triunfal na cidade dos Arcebispos, mas encontra-se replicada no edifício da Câmara Municipal, quer na escadaria, quer no salão nobre.
Esta curiosa figura que representa a cidade de Braga é uma alegoria barroca que foi colocada inicialmente na arcada, e que foi trazida para o Arco da Porta Nova no momento em que foi inaugurado em 1771.

Ideias para Braga: arte sacra no convento de Real


O convento de S. Francisco (a direita) continua a aguardar uma solução de futuro
Ao longo da última década algumas confrarias e irmandades foram manifestando vontade de avançar para a constituição de espaços museológicos. Entre estas saliente-se a Misericórdia, que pretende aproveitar o antigo hospital de S. Marcos. Porém, também a Irmandade de Santa Cruz pretende edificar um museu, e ainda os Terceiros e o Pópulo. Sabemos que hoje existem grandes espólios guardados em dependências dos templos e nas sacristias. A evolução da liturgia, com a reforma promovida pelo Concílio Vaticano II, provocou o desuso de muitas alfaias e objectos de arte sacra. Braga, como a diocese historicamente mais relevante do nosso país, poderia apostar na criação de um grande museu de arte sacra, ao qual se podia associar um centro de investigação e inventariação vinculado à Arquidiocese. O processo de inventariação poderia resultar em frequentes exposições temporárias, à imagem do que já se faz no melhor museu português, o Museu Nacional de Arte Antiga. Porque não juntar todas as confrarias e paróquias num projecto comum? Porque não aproveitar o espólio, valorizá-lo e pô-lo ao serviço da economia da cidade? Porquê cada instituição continuar a querer fazer o seu próprio projecto, quando podem juntas alcançar um projecto de grande magnitude, que projecte o nome da cidade? O edifício do antigo convento de S. Francisco, em Real, poderia ser o local ideal para desenvolver este projecto, tendo ainda como aliciante maior a capela de S. Frutuoso, que continua estranhamente a passar ao lado dos fluxos turísticos de Braga.
O convento de S. Fracisco, em Real, apresenta-se hoje arruinado. Com raízes profundas num antigo cenóbio fundado no século VII pelo próprio S. Frutuoso, esta edificação monacal conta diversas ocupações em diferentes períodos da sua história. Depois da infeliz ideia da instalação de uma pousada da juventude, urge dar-lhe uma nova utilidade. 
 
Uma outra ideia a ser explorada, poderia ser um curso profissional na área da arte sacra, de forma a potenciar a existência de uma escola de artistas em Braga. Esse sector continua a ser muito procurado, embora a qualidade das esculturas não seja propriamente louvável.

sábado, 19 de outubro de 2013

Capela de São Frutuoso: um mistério por desvendar



O processo dfe reconstrução da capela na década de 1930, despertou muitas discussões

A Capela de São Frutuoso é um monumento de grande valia no contexto da arte paleocristã, prevalecendo uma série de questões sobre a sua origem e enquadramento artístico. O grande e único elemento definitivo é a sua origem pré-românica, não sendo possível datar com maior pormenor a época da sua construção. Acresce a este facto, os poucos dados históricos disponíveis acerca da sua existência, recuando ao século XVI a primeira referência directa encontrada.
Supõe-se que este monumento seja o primitivo mausoléu de São Frutuoso, bispo de Braga entre os anos 656 e 665 da era cristã. Dada a dedicação deste prelado à fundação de comunidades cenobíticas, muitos investigadores têm atribuído a S. Frutuoso a fundação de um mosteiro dedicado a S. Salvador, no qual terá sido sepultado.
Construída em granito de tonalidade acastanhada, composto em blocos paralelepipédicos similares, a capela de S. Frutuoso impressiona pela simetria e geometria das formas. A planta em cruz, de braços aparentemente idênticos, leva-nos a identificar a denominada cruz grega como matriz arquitectónica. As três fachadas disponíveis, bastante refeitas no restauro do século passado, apresentam um frontão triangular muito similar na dimensão aos usados nos templos romanos. Nas paredes encontram-se arcaturas cegas pouco profundas, umas em círculo e outras triangulares. Uma porta completa o tramo meridional da capela. O lanternim central, mais poupado às mudanças barrocas, apresenta arcatura sobre a cornija alternando entre a ferradura e o triângulo. Sobre esta arcatura salienta-se uma curiosa decoração em pedra de ançã, apresentando uma corda ininterrupta e elementos que têm sido identificados com a flor-de-lis. Ainda no exterior saliente-se um arco sólio no braço norte, contendo um sarcófago.

S. Frutuoso: o monge virtuoso partido em 3!

Imagem de S. Frutuoso na fachada da Sé de Braga
Hoje a Igreja Católica em Braga recorda uma das grandes personalidades da Alta Idade Média na nossa cidade e região: São Frutuoso, mais conhecido devido ao importante monumento de Montélios, cuja averiguação artística e histórica continua a suscitar mistérios.
A festa litúrgica de S. Frutuoso assinala-se, na Arquidiocese de Braga, no dia 19 de outubro, sendo declarado padroeiro secundário do mesmo território eclesiastico. Bispo de Braga entre os anos 656 e 665 da era cristã, terá nascido na diocese de Astorga, no norte de Espanha, na região de Bierzo. Estudou na Escola da Catedral de Palência, onde adquiriu formação vasta em liturgia e humanidades. Depois de um tempo de peregrinação e recolhimento São Frutuoso terá fundado inúmeros mosteiros por toda a Galiza, vindo parar ao cenóbio de Dume em 653, do qual foi bispo, ascendendo daí à prelatura bracarense três anos depois, lugar que ocupou até à sua morte em 665.
Sabemos que se dedicou à fundação de cenóbios em todo o território da primitiva província eclesiástica de Braga. A sua biografia, escrita por S. Valério, para além de louvar as suas virtudes humanas, outorga-lhe a fama de instrutor do povo humilde e rude. Fundou um mosteiro em Montélios (Braga), junto do qual construiu uma capela para sua sepultura, que ainda hoje se constitui como um mistério para os investigadores. Na biografia elaborada por S. Valério, escrita por volta de 680 e portanto digna de credibilidade (dada a proximidade temporal com S.Frutuoso), é referido que «numa pequena eminência, entre a cidade de Braga e a póvoa de Dume, (São Frutuoso) erigiu um mosteiro de grande nomeada, onde foi inumado o seu santo corpo».
No ano de 1102, quando o ardiloso arcebispo de Compostela, Diego Gelmirez, protagonizou o episódio que ficou para a história como o Pio Latrocínio, no qual roubou as relíquias dos santos mais venerados de Braga, estava entre eles S. Frutuoso. Foi certamente a este lugar de Montélios que se dirigiu para orquestrar o seu «acto mau e indigno», tal como o catalogou o Arcebispo São Geraldo, surpreendido pelo seu congénere galego. Parcialmente devolvidas em 1966, as suas relíquias estão hoje divididas em três partes: igreja de S. Francisco (Real), Sé Primaz, e Compostela.
A devoção a S. Frutuoso estava, no passado, vinculada ao culto da fertilidade, particularmente enraizada nos agricultores que, todos os anos recorriam à intercessão do santo bispo bracarense.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ideias para Braga: Festival de Órgão de Tubos

Os órgãos da Sé de Braga foram construídos em 1737 com talha dourada de Marceliano de Araújo
Braga é uma cidade com uma identidade histórica vinculada inevitavelmente à Igreja. Todas as iniciativas culturais que se possam promover na nossa cidade baseadas nesta herança gravada na fisionomia da nossa cidade terão certamente argumentos de sucesso.
Neste capítulo, existem recursos que ainda não estão devidamente explorados. Os órgãos de tubos, que têm vindo progressivamente a ser recuperados nos templos da nossa cidade, representam uma forte tradição musical e artística que bem poderia ser fundamento para um festival de dimensão nacional e internacional.
O órgão de tubos da Sé é provavelmente o mais imponente do nosso país e está apto. Nos anos mais recentes, as igrejas de Santa Cruz, Misericórdia, S. Lázaro e, mais recentemente, do Hospital restauraram os seus órgãos de tubos e poderiam ser a base para um festival de grandes dimensões.
Seria preciso coordenar com as instituições da Igreja esta iniciativa, chamar organistas e coros de renome e investir na divulgação.
Um investimento pequeno para as vantagens que cultural, turistica e economicamente poderia trazer a Braga e à sua reputação.
Uma ideia para Braga...