terça-feira, 4 de outubro de 2011

Os Jesuítas e a cidade de Braga


A Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada a 27 de Setembro de 1540, e cujos membros são apelidados de Jesuítas, é indispensável para nos referirmos à história de Braga a partir do século XVI.
O Colégio de São Paulo terá sido, durante quase dois séculos, um verdadeiro centro difusor de cultura para Braga e a sua região. Documentos referentes ao século XVIII confirmam que terá atingido a cifra de dois milhares de alunos, em alguns anos lectivos. Teve, pois, um alcance amplo. Os métodos educativos adoptados pela Ratio Studiorum da Companhia de Jesus eram absolutamente inovadores para a época. Fomentava-se o espírito crítico e a capacidade de argumentação, recorrendo aos melhores manuais da época. Exemplo deste ensino de excelência é Francisco Sanches, um dos mais ilustres bracarenses da história. Grande médico e filósofo, percursor de Bacon, Descartes e Pascal, tem uma estátua no Largo de S. João do Souto, e foi alvo de grande homenagem ao figurar nas notas de 500 escudos que circulavam por todo o país há cerca de 20 anos. Não foi Jesuíta, é certo, mas é ícone da importância que o Colégio de São Paulo teve na história da cultura de Braga e do Minho.
A fundação do Colégio é atribuída a D. Diogo de Sousa no ano de 1531, todavia o edifício e o seu funcionamento só foi efectivado três décadas após. A iniciativa de chamar os Jesuítas para Braga passará para a história como acção de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, que foi o Arcebispo que oficialmente concretizou a entrega do Colégio de São Paulo à Companhia de Jesus no distante ano de 1560. Contudo, é provável que tenha sido o futuro Cardeal e Rei, D. Henrique, a iniciar este processo, dada a sua íntima ligação a esta ordem religiosa. Recorde-se que foi D. Henrique o responsável pela fundação da Universidade de Évora, entregue aos Jesuítas, e pelo fomento da presença assídua dos mesmos na Corte portuguesa.
O ano de 1756 foi dramático para o ensino e a cultura em Braga. Num momento de grande tensão entre os jesuítas e o Marquês de Pombal, o polémico Arcebispo D. José de Bragança, adivinhando a cisão que aconteceria três anos mais tarde, expulsou os Jesuítas da cidade. Braga foi, pois, percursora relativamente ao que aconteceria no resto do país. Seguidamente vieram as Ursulinas, ocupando o edifício anteriormente cedido à Companhia de Jesus. Após a lei do Mata-frades em 1834, o edifício esteve desocupado, foi Seminário da Diocese, Quartel, residência de retornados e novamente Seminário. Actualmente o edifício encontra-se totalmente recuperado, disponibilizando uma interessante unidade cultural, que merece ser mais conhecida e estimada pelos bracarenses: o Museu Pio XII.
Destaquemos o mais ilustre Jesuíta nascido em Braga. Chamava-se Miguel de Carvalho e foi martirizado, juntamente com outros religiosos, no Japão corria o ano de 1624. Este episódio está retratado numa pintura que preenche o elegante tecto da sala nobre do Palácio dos Biscainhos. Miguel de Carvalho pertencia a uma das grandes famílias da cidade e viu a sua coragem e virtude reconhecida em 1867, ano em que foi beatificado pelo Papa Pio IX.
Não terminou, contudo, a história dos Jesuítas na nossa cidade. No ano de 1875 regressam a Braga e instalam-se na rua de S. Barnabé, onde ainda hoje se encontram. Nesta época dedicam-se ao Apostolado da Oração e devoção ao Sagrado Coração de Jesus, bem como à administração de sacramentos. Todavia, o advento da República, a 5 de Outubro de 1910, haveria de afastar novamente os Jesuítas de Braga. Só no dia 6 se tomou conhecimento da revolução na capital do Minho. Pelas 5 da manhã do dia 7 de Outubro a comunidade foi informada do sucedido e decorreu calmamente o dia de sexta-feira, a primeira do mês e por isso dedicada à devoção ao Coração de Jesus, na capela do Apostolado da Oração. No final do dia o Superior, tendo conhecimento da perseguição aos Jesuítas promovida em Lisboa, dispersou a comunidade distribuindo alguns bens e deixando a salvo alguns objectos de valor. O povo despediu-se com comoção. Alguns membros da comunidade foram recebidos clandestinamente no Seminário. A residência de S. Barnabé foi ocupada pacificamente pelas autoridades no dia 12 de Outubro.
A perseguição e preconceito republicano para com a Igreja, numa atitude tipicamente jacobinista no pior sentido do termo, não teve prossecução na população. Daí não surpreender o retorno da Companhia de Jesus à cidade de Braga no ano de 1934.
Esta terceira fase da presença jesuítica em Braga, terá sido ainda mais bem-sucedida que a primeira. Efectivamente continuaram a dedicar-se ao Apostolado da Oração, que ainda hoje se encontra sediado em Braga, porém o ensino da filosofia foi a maior inovação deste regresso. Talvez inspirados pelo célebre passado no Colégio de São Paulo, é fundado o Instituto Beato Miguel de Carvalho. Esta instituição servia inicialmente para dar a formação intermédia em filosofia e humanidades aos estudantes Jesuítas. Em 1942 o curso aqui ministrado é reconhecido pelo Ministério da Educação e em 1947 o instituto é elevado à condição de Faculdade Pontifícia. Este reconhecimento abriu caminho ao acolhimento de alunos externos, o que permitiu a fundação da primeira universidade não-estatal em Portugal: a Universidade Católica Portuguesa, que é bracarense de nascimento. Estávamos no ano de 1967 e este facto fez florescer o ensino universitário em Braga. Na Faculdade de Filosofia, em particular nos anos 80 e 90, formaram-se diversas gerações de professores na área das humanidades e da filosofia. No seu anfiteatro ensinaram grandes nomes do panorama intelectual português, tais como Júlio Fragata, António Freire, Vitorino de Sousa Alves, Lúcio Craveiro da Silva ou, mais recentemente, Alfredo Dinis. Todos eles padres, todos eles Jesuítas e todos com o nome gravado a letras de ouro na vida cultural da cidade de Braga. A autarquia bracarense tomou a feliz iniciativa de os homenagear destacadamente. Lúcio Craveiro da Silva está intimamente vinculado à fundação da Universidade do Minho e denomina o mais recente polo da biblioteca pública; Júlio Fragata destaca-se o seu nome numa das grandes avenidas da cidade e, da mesma forma, embora mais singela, figuram outros Jesuítas na toponímia da cidade.
Para além dos trabalhos acima citados, os Jesuítas brácaros têm-se dedicado nas últimas décadas ao apostolado com os estudantes universitários, através do louvável Centro Académico de Braga.

1 comentário:

  1. O meu tio P. Vitorino de Sousa Alves, meu tio Joaquim e meu país aí estiveram.
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