segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

As histórias do Arcebispo São Geraldo

Se os bracarenses passarem pela Sé Catedral ao longo do dia de hoje, poderão visitar gratuitamente a habitualmente vedada capela de São Geraldo. Sendo o primitivo lugar do túmulo deste prelado, foi remodelada no século XVIII a mando do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles que lhe acrescentou o retábulo em talha dourada e os magníficos painéis de azulejos que relatam a vida de São Geraldo. A capela neste dia encontra-se adornada de frutas da época, em alusão a uma narrativa que atribui um milagre a São Geraldo. Segundo a lenda, o arcebispo encontrava-se doente, temendo-se a sua morte. No ardor das suas febres terá pedido que lhe trouxessem fruta, todavia os seus servos o tentavam persuadir dado que estavam em pleno Inverno. Como que confiante na graça divina, São Geraldo insiste dizendo «Vai e procura!». Os servos, achados no exterior, encontraram as árvores repletas de fruto contradizendo a lei natural. Devido a este milagre a capela é decorada com frutos no dia em que se faz a memória do seu padroeiro.

O primeiro Arcebispo de Braga
Trata-se da restituição dos direitos metropolitas de Braga sobre as dioceses que ocupavam o território da antiga província romana da Galécia (actual Galiza). Depois da restauração da diocese de Braga pelo bispo D. Pedro em 1070, São Geraldo alcança em 1103 o título de Arcebispo metropolita, tendo como dioceses sufragâneas Porto, Viseu, Lamego, Coimbra, Lugo, Mondonhedo, Pontevedra, Ourense e Astorga. Recorde-se que até às invasões árabes, e a posterior transferência da diocese para Lugo, Braga era sede de uma província eclesiástica, pelo que os seus bispos já eram metropolitas. Portanto, na prática São Geraldo não é o primeiro bispo bracarense a obter tais privilégios. A restituição desta dignidade a São Geraldo apenas teve a diferenciação de apresentar outra designação – Arcebispo (do grego ‘arche’ que quer dizer primeiro entre os bispos, em grego ‘episkopos’) - embora os direitos e poderes sejam exactamente os mesmos que os prelados bracarenses beneficiavam no passado.

Os primórdios da independência
A questão da independência do Condado Portucalense face ao poderio do Rei de Leão e Castela foi sempre desejo assumido pela Condessa D.ª Teresa e pelo Conde D. Henrique. São Geraldo detinha uma ligação muito próxima com os pais de D. Afonso Henriques, que viram também na restituição dos direitos metropolitas de Braga como arcebispado, um fundamento para as suas ânsias de independência. A questão primacial de Braga, face a Toledo, foi um dos mais importantes fundamentos portugueses na luta pela independência protagonizada por D. Afonso Henriques, que contou sempre com o apoio dos Arcebispos de Braga.

O pio latrocínio: «acção má e indigna»
Foi no ano de 1102, época em que as relações com Santiago de Compostela estavam muito tensas, que o Arcebispo galego se apresentou em Braga numa aparente missão de paz. A boa índole de São Geraldo não permitiu decifrar as intensões perversas da comitiva galega, que tinha como intenção derrubar as pretensões de Braga como centro de peregrinações. Assim, durante a noite o Arcebispo Diego Gelmírez e o seu séquito tomaram de assalto os templos mais concorridos e levaram consigo as relíquias mais veneradas de Braga: São Vítor, Santa Susana, São Cucufate, São Silvestre e São Frutuoso. Esta «acção má e indigna», como o próprio São Geraldo catalogou, ficou para a história como o “Pio Latrocínio” e permitiu a Santiago de Compostela ganhar ascendente sobre Braga no capítulo religioso peninsular.

1 comentário:

  1. imagens, aqui:

    http://cochinilha.blogspot.com/2011/12/blog-post.html

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