sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Bracarografia: Sobre a figura que encima a fonte dos Castelos

Tudo o que possa ser composto ou conjecturado sobre o chafariz denominado dos “Sete Castelos”, colocado destacadamente ao centro do Largo do Paço, irá esbarrar na falta de documentação óbvia sobre a sua contratação e execução. Alguns investigadores bracarenses atribuem a sua autoria a Marceliano de Araújo, não sendo possível averiguar a veracidade desta tese.
Devido a este factor limitativo, muitas têm sido as versões acerca da figura que mais se destaca no conjunto escultórico do chafariz. Recordemos que a iconografia utilizada nesta obra barroca pretende aludir ao brasão de fé do arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles (1704-1728), que é representado pelos sete castelos decalcados das armas da família Moura, dos marqueses de Castello Rodrigo.
No chafariz em análise o tanque que se eleva é suportado por seis anjos, que o Livro da Cidade de 1737 apelida de atlantes. O termo atlante, em arquitectura, refere-se a um tipo de coluna antropomorfa onde, no lugar do fuste, se apresenta a forma esculpida de um homem. O nome deste género de estrutura de suporte tem origem na mitologia grega, em que Atlas, o titã que foi condenado por Zeus a carregar o globo terrestre (ou o céu) para toda a eternidade, e que é representado carregando nos ombros um globo de grandes dimensões. É bem possível que a inspiração para a concepção destas figuras tenha provindo destes elementos clássicos, que visavam conferir maior originalidade a estruturas simples de sustentação e elevação. Acrescente-se ainda a atitude pueril das figuras, que parecem divertir-se enquanto sustentam o peso do tanque deste chafariz.
Sejam anjos ou atlantes, estas figuras apresentam-se associadas a cada um dos castelos. Estes castelos, decorando a borda do mesmo tanque, funcionam como bicas das quais brota a água da fonte. Destacados dos outros, ergue-se o último castelo em forma de pináculo ou fuste, típico dos chafarizes construídos no Minho ao longo dos séculos XVI e XVII. Poderá ser meramente uma forma de obedecer à estrutura arquitectónica tradicional dos chafarizes, que faz elevar a última das estruturas acastelada ao centro, salientando nela a cruz dobrada arcebispal, glorificando o Senhor de Braga que a fez construir.
O livro da Cidade de 1737 talvez seja a mais antiga referência a este chafariz, dado que este data de 1723, e descreve esta estátua como sendo «uma figura de pedra vestida a trágica, em pé com uma esfera sobre a cabeça». Relativamente a esta figura, que se assemelha em vestes, feições e tamanho, às restantes seis esculturas associadas aos castelos, surgem duas teses muito discutíveis.
Nem representa Braga nem pode ser uma alegoria da Fama
A primeira tese, e mais divulgada, confunde esta escultura com aquela que representa a cidade de Braga e que se encontra identificada com a figura que encima o Arco da Porta Nova.
Observando-as confirmaremos que a única similitude entre as duas é o facto de ambas terem uma das mãos elevada sobre a cabeça, pois tudo o resto é diferente, inclusive o facto de uma ser feminina e a outra ser claramente masculina. Não há nenhum tipo de elemento simbólico que possa confirmar esta versão. O brasão da cidade, à época, era representado com a Sé como fundo, tendo Santa Maria ao centro e completada superiormente pela mitra arquiepiscopal. Efectivamente a figura que encima o Arco da Porta Nova segura a catedral bracarense na sua mão direita. A do chafariz do largo do Paço, para além do já referido globo, apoia-se num escudete.
A segunda tese, e mais recente, identifica esta escultura como sendo uma alegoria da Fama, derivada da iconografia tradicional clássica. Todavia, as imagens conhecidas da Fama são femininas e todas seguram uma trombeta. Portanto, será muito difícil sustentar tal princípio, isto se nos apoiarmos na tradição iconográfica análoga. 
A Esfera como fundamento para uma análise
É importante salientar, no âmbito desta especulação, alguns aspectos que consideramos ser relevantes. O primeiro deriva do facto desta escultura se destacar no conjunto meramente devido à sua colocação e não pela sua configuração. Todas as sete esculturas que se observam no conjunto, surgem associadas aos castelos e em nada divergem no fundamento da sua presença. Deveremos, contudo, observar, que o interesse em atribuir personalidade e simbolismo a esta escultura, deriva de efectivamente esta se destacar do restante conjunto, pelo facto de, ao contrário das restantes, não suportar o peso do castelo mas se elevar acima dele segurando um outro elemento simbólico: a esfera armilar.
A esfera, já descrita no Livro da Cidade, é também um elemento das armas de fé do arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles. Sobreposto à cruz arcebispal, é o elemento sobre o qual assentam os sete castelos, portanto não poderia ter sido esquecido neste conjunto escultórico, que tinha como objectivo retratar as armas de fé do Arcebispo Primaz.
A esfera é utilizada frequentemente como um símbolo da totalidade do Universo e de Deus. Traduz a perfeição, o poder e a expansão e, por essa razão, foi escolhida como o símbolo dos imperadores e dos reis em muitas nações, como foi o caso da esfera armilar como símbolo de Portugal. É frequente a sua utilização nas obras mandadas construir por D. Rodrigo de Moura Telles. Podemos observar uma esfera na fachada interior do pórtico do Bom Jesus do Monte, fazendo retaguarda ao brasão do mesmo Arcebispo. Também a fachada da Sé, mandada reformular por este prelado, apresenta a esfera armilar a decorar o frontão que encima as duas portas que dão acesso ao varandim sobre a galilé.
Um outro aspecto relevante refere-se à iconografia da própria escultura. Apoia-se num escudete e eleva o braço sobre a cabeça, de forma a realçar um elemento. Esta tipologia em nada difere dos anjos tocheiros tão divulgados no período barroco.
Os anjos tocheiros estão entre as esculturas mais elaboradas nas realizações artísticas deste período. São figuras que têm frequentes posições relevantes nos retábulos e nas antecâmaras de capelas e palácios. O seu simbolismo está associado ao facho da fé, representado na tocha que carregam. O facho da fé guarda o mistério do sacrário e ilumina os fiéis. Os anjos tocheiros não são meras figuras secundárias no contexto das narrativas retabulares, mas assumem muitas vezes posições de relevo, não pelo que pretendem eventualmente personificar, mas pelo símbolo que carregam e elevam. Repare-se que os anjos tocheiros apontam sempre para fora deles: a importância não é a figura em si, mas para onde o seu corpo aponta.
Aplicado ao chafariz dos ‘Sete Castelos’, o anjo que encima a fonte não deverá constituir uma alegoria em si mesmo, mas apenas pretende apontar a esfera armilar do Senhor de Braga, D. Rodrigo de Moura Telles, como referência e destaque. Não há memória de se realizar nesta época qualquer escultura que não seja devidamente apoiada na iconografia religiosa. A inspiração em modelos de influência clássica não teve consequências ao nível da alegoria figurativa na Braga dos inícios do século XVIII, a não ser em elementos secundários. Não é crível que, numa fase em que Braga se exacerbava no espírito mais estritamente religioso e púdico, com reflexos na própria arquitectura da cidade (recorde-se a percentagem elevada de casas revestidas de gelosias, atestada no “Mapa das ruas de Braga” de 1750), adornasse os seus espaços públicos com referenciais de raiz pagã. Daí a hipótese de estarmos perante uma alegoria seja, a meu ver, infundada.
Também poderemos estar perante a representação de um atlante. Veja-se que estas figuras se inspiram em Atlas que foi condenado a carregar o globo terrestre – que representava os céus - para toda a eternidade, e esta figura também carrega um globo, substituindo o fuste da coluna. A única incongruência com a iconografia tradicional é o facto desta escultura se apresentar completa, ou seja, esculpida em corpo inteiro, ao contrário das habituais esculturas de atlantes, que apenas apresentam a face principal.
Para um observador mais exigente, será fácil percepcionar que o castelo, sobre o qual se ergue o anjo, devido à sua altura desmesurada, recorda um farol. Este facto poderá evocar, por exemplo, o farol de Alexandria, considerado uma das sete maravilhas da Antiguidade. Se efectivamente terá estado esta intenção na mente de quem desenhou a fonte, a hipótese poderá reforçar a tese de se tratar de um anjo tocheiro. Só que a luz, em vez de nascer de uma tocha, nasceria das armas de D. Rodrigo. Ele é que era a luz da cidade de Braga...
Se creditarmos a asserção que aponta Marceliano de Araújo como o executor deste chafariz, poderemos observar uma enorme semelhança desta figura com os anjos tocheiros que se destacam no retábulo-mor da igreja da Misericórdia de Braga. O alinhamento das estruturas capilares, as feições e a forma do escudete em que se apoiam, investem de resistência esta possibilidade.
Portanto, se algum pronunciamento se torna credível na leitura iconográfica particular desta escultura, é que se trata de um anjo tocheiro, cuja esfera arquiepiscopal se confunde e constitui como luz para os fiéis concretizada na acção e palavra do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles.

1 comentário:

  1. Muitíssimo interessante Rui.

    Deixe-me apenas lançar um elemento sobre uma parte do texto em que afirma:
    "A inspiração em modelos de influência clássica não teve consequências ao nível da alegoria figurativa na Braga dos inícios do século XVIII, a não ser em elementos secundários"

    Os elementos de iconografia clássica estão presentes na Fonte do Mundo, que será de grosso modo da mesma época da Fonte dos Castelos, embora tanto quanto se saiba não fosse uma fonte em espaço público.

    Deixo aqui, o link para um pequeno texto que escrevi com alguma informação que recolhi sobre a Fonte do Mundo:

    http://sino-da-se.blogspot.com/2011/05/cidade-das-fontes-xxii-fonte-do-mundo.html

    Um abraço

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