sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Procissão dos Fogaréus


Uma das procissões que compõe o programa das Solenidades da Semana Santa de Braga é a procissão do ECCE HOMO, popularmente conhecida como a procissão do Senhor da Cana Verde ou dos Fogaréus. Saindo às ruas na noite de Quinta-feira Santa, recorda o julgamento de Cristo quando Pilatos, dirigindo-se à multidão, proclamou: “Eis o Homem”, que em latim se pronuncia ECCE HOMO, daí o nome dado à imagem que é transportada solenemente neste cortejo. Esta procissão tem uma origem bem recuada, será provavelmente a mais antiga das procissões que, por esta época, se realizam na cidade de Braga. Estará certamente associada à fundação das Misericórdias em Portugal, o que aconteceu a partir dos finais do século XV, sob a égide da Rainha Dona Leonor. Assim, a origem desta demonstração religiosa recuará provavelmente ao século XVI, pois a Misericórdia de Braga foi fundada por volta do ano de 1513. Certo é que no século XVII já a Misericórdia de Braga organizava esta procissão como no-lo comprovam crónicas dessa época. 
Hoje a procissão é da responsabilidade da Irmandade da Misericórdia, ligada à Santa Casa da Misericórdia de Braga que tem a seu cargo, entre outras valias, a igreja renascentista da Misericórdia e a Igreja de S. Marcos ou do Hospital. A temática desta procissão está especialmente ligada à instituição responsável, sendo que muitos dos painéis que se observam neste peculiar desfile mostram as obras de misericórdia; a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel; e Nossa Senhora da Misericórdia que, debaixo do seu manto, abriga pessoas de todas as classes sociais: ricos, pobres, mendigos, religiosos. Ora, estes quadros estão claramente relacionados com a igreja da Misericórdia, edificada em 1562 junto da Sé Primacial, em estilo renascentista que venera, com especial fervor, a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, tanto no belo painel que protege a tribuna como na bela escultura barroca que adorna um dos altares da igreja. A visitação da Virgem ou as Abraçadas, como lhes chama o povo, está também destacada na igreja onde se pode admirar um notável conjunto escultórico em barro sob a porta lateral do templo,  e também, no interior da igreja, a encimar o magnifico retábulo-mor barroco que o inspirado Marceliano de Araújo executou em meados do século XVIII. Além destes painéis artisticamente pintados, podemos admirar na procissão a imagem setecentista do Senhor Ecce Homo ou Senhor da Cana Verde, também originária desta igreja, que nos mostra o Cristo sofredor, sentado sobre uma pedra, com o manto de purpura cobrindo a mesma, que nos incute um dramatismo bem presente no rosto da imagem e nas suas costas desnudas impregnadas de chagas provocadas pelo vigor do chicote. Nas mãos deste Cristo está, serenamente colocada, a Cana Verde simbolizando o ceptro real típico dos poderosos. O povo piedoso ajoelha-se à passagem do pesadíssimo andor que carrega a devotada imagem, sobre os ombros dos oito irmãos da Misericórdia que, estoicamente, a transportam. A abrir o cortejo, para além dos habituais cavaleiros da guarda, vêm as figuras vestidas de negro, os farricocos, que transportam lanternas de fogo (fogaréus) e as tradicionais matracas ou ruge-ruge que provocam nas ruas um ruído ensurdecedor, muito apreciado pela gente que assiste. Devido ao facto de estas figuras que, antigamente quando ainda não havia iluminação pública nas ruas e a escuridão dominava, transportavam estas lanternas que alumiavam o cortejo, a procissão é também conhecida como a procissão dos fogaréus. No restante do cortejo representam-se cenas da paixão de Cristo onde as crianças, ricamente vestidas de coloridos veludos, dão corpo às personagem que há dois mil anos atrás protagonizaram a história bíblica. A acompanhar a procissão, para além da presença melodiosa de duas bandas filarmónicas, desfilam as digníssimas autoridades religiosas. Saindo da igreja da Misericórdia, a procissão segue rumo pelas habituais ruas do centro histórico recolhendo no mesmo lugar. O povo amontoa-se nas ruas para ver este histórico cortejo que todos os anos cumpre a tradição, insistentemente mantida, pelo povo da tão augusta como fidelíssima cidade de Braga.
Oa farricocos são figuras misteriosas e arrepiantes, que percorrem as ruas da cidade descalços e de rosto tapado. Representam os penitentes do passado que, em favor da remissão dos seus graves pecados, eram aconselhados pelo confessor a participarem neste préstito de penitência, ora auxiliando na iluminação da procissão, ora apelando a cidade à participação com as matracas. São bastante antigas estas manifestações e estão associadas à temática do pecado, do arrependimento, e da penitência. Devido ao facto de, neste período em que se celebra o mistério da morte de Cristo, a Igreja pedir aos fiéis arrependimento e conversão dos pecados cometidos, os farricocos vestiam também a 'pele' de denunciadores e acusadores públicos das pessoas que assistiam à procissão. Ora, todo aquele que tivesse praticado algum acto condenável, era denunciado publicamente, em praça pública, e não sabia quem o acusava uma vez que os farricocos se escondem debaixo do anonimato que as vestes lhe conferem. Portanto, o medo imperava à passagem destas figuras. Ninguém melhor que Antero de Figueiredo, na bela obra O Último olhar de Jesus, para ilustrar este costume: “Na memória de todos estava viva a «Procissão dos Fogaréus», nocturna e triste como um enterro, precedida de temeroso bando de arruaceiros vingativos que, embuçados em capas e chales-mantas, e ocultos no negrume da noite, jogavam às faces, lívidas de medo, das pessoas que das janelas assistiam, delações infames, insinuações caluniosas, cobardes e impunes, que anavalhavam as almas pávidas.”. Acto realmente pouco condizente com a religiosidade da procissão, felizmente desaparecido. 
Curiosos estes costumes da Cidade Augusta. Hoje, os farricocos continuam a percorrer as ruas da cidade, aterrorizando pelo aspecto tenebroso que as vestes lhe impõem, porém não funcionando mais como justiceiros da má hora.   

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