domingo, 1 de abril de 2012

A Procissão dos Passos

Cortejo religioso que remonta, provavelmente, ao século XVIII, é organizado pela Irmandade de Santa Cruz sediada na igreja com o mesmo nome. O objectivo da procissão é reconstituir o caminho (os passos) de Jesus Cristo desde o Pretório até ao Calvário. A preparação para a procissão ocorre na véspera do domingo de Ramos quando a imagem do Senhor dos Passos é conduzida processionalmente da Igreja de Santa Cruz para a Igreja do antigo Colégio de S. Paulo, sendo que, no Largo de Santiago, é interpretado por um grupo coral o tradicional Missere e no final realiza-se uma Via Sacra pelas ruas da cidade cumprindo o itinerário dos Passos, pequenos altares levantados em vários pontos do centro histórico onde figuram painéis com momentos da Crucificação de Cristo. No domingo de Ramos, durante a tarde, partindo da Igreja do Colégio a procissão inicia-se percorrendo as ruas da cidade com os tradicionais estandartes da irmandade, inúmeros figurantes entre eles as digníssimas autoridades religiosas. Na procissão destaca-se claramente o andor do patrono da irmandade, o Senhor dos Passos, imagem concebida em 1905 esculpida pelo notável escultor bracarense João Evangelista Vieira, sendo citada como a sua maior obra. A este facto faz referência o jornal Correio do Minho a 4 de Abril de 1905: “...a nova imagem é um primoroso trabalho artístico, de incontestável merecimento, e que muito honra o distinto escultor(...) A atitude, a expressão, a musculatura, o enrugado da túnica, deixando perceber a forma do corpo, tudo enfim foi tratado tão artisticamente, que nos deixa maravilhados.”. Contudo, o ponto alto da procissão ocorre quando esta atinge o Largo Carlos Amarante, defronte da Igreja de Santa Cruz, onde é pronunciado o Sermão do Encontro, findo o qual a procissão prossegue pelas ruas de Braga, agora incorporando-se nela o andor da Senhora da Soledade.
No passado, porém, a procissão conservava outras particularidades. A exemplo, na procissão que se realiza na véspera, a imagem do Senhor dos Passos era conduzida “...encerrada num pavilhão ou camarim portátil...” o que não permitia que a imagem fosse contemplada pelos fiéis que a acompanhavam no trajecto para a Igreja do Colégio, segundo nos conta um jornal de há 50 anos atrás. Outra particularidade ligada a esta procissão era a presença de uma banda de música que acompanhava instrumentalmente o grupo coral, segundo vem referido no Comércio do Minho do dia 29 de Março de 1873: “...a venerável imagem do Senhor dos Passos(...) é acompanhada pela banda regimental...”, ou então como nos diz o Diário do Minho de 10 de Abril de 1954: “...e se incorporou uma banda de música(...) quando passava ao largo de Santiago.”. Relativamente à procissão dos Passos, sabemos que o sermão do Encontro não se realizava, ocorrendo sim dois sermões: o Sermão do Pretório e o Sermão do Calvário, o primeiro realizado na Igreja do Colégio, ao iniciar-se a procissão, e o último ao recolher, junto da Igreja de Santa Cruz, o que vem citado num jornal de há 100 anos atrás. Outra curiosidade é a data pois esta procissão não se realizava no domingo de Ramos mas no 5.º Domingo da Quaresma, ou seja, uma semana antes.
Outro aspecto conta-nos que a procissão levava grandes filas de farricocos, estes de túnicas roxas, como na procissão de Quinta-Feira Santa, o que hoje não se verifica, tendo apenas um farricoco, que abre a procissão com uma trombeta na mão.

A Procissão no século XIX, segundo Antero de Figueiredo em O último Olhar de Jesus
A procissão dessa tarde levava na frente alto guião, de grande varejo, arvorado por farricocos descalços, vestidos de túnicas roxas cingidas às cintas com cordas de esparto, de que também era feita a coroa das cabeças cobertas com capuzes penitenciários, em que os dois buracos, no sitio dos olhos, semelhavam enormes órbitas de pavorosas caveiras. Logo, a máquina do “ruge-ruge” taramelava a sua impertinente cega-rega.(...) O estandarte, pesadíssimo, era empunhado por farricocos escolhidos entre valentes que, como os do guião dianteiro, tinham de fazer com ele o difícil arranco da «enfiada»(antiga tradição em que se tinham de fazer passar os enormes estandartes sob uma pequena porta das antigas muralhas, já demolida, e que obrigava a um temível esforço de quem transportava os estandartes para que não tocassem no chão. O povo juntava-se nesta zona para apreciar a cena.) sob os arcos do Postigo da Porta de São João do Souto. Aos lados, longas e silenciosas filas de irmãos de Santa Cruz, com as suas opas violáceas; e, pelo meio da rua, penitentes vestidos de alvas(...) Debaixo do andor do Senhor dos Passos, mulheres penitentes, de joelhos; ao lado do pálio caminhavam irmãos com pesadas lanternas de prata. Nas torres os sinos dobravam plangentes, de onde a onde...” 

A Procissão dos Passos descrita no Correio do Minho de 1905:
“Abria o préstito um piquete de cavalaria, seguindo-se o estandarte Senatus e a bandeira da irmandade(...) Além das venerandas imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Angústias, tomaram parte no imponente préstito algumas figuras alegóricas, ricamente vestidas, e muitos anjos conduzindo emblemas da Paixão(...) As alas da procissão eram formadas por irmãos daquela irmandade e alunos dos Seminários Conciliar e de St. António e S. Luís Gonzaga.”

 (autoria: Rui Ferreira)

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