sábado, 7 de abril de 2012

A Semana Santa de Braga


 
A Semana Santa de Braga surge hoje com um programa unificado e com uma Comissão organizadora que tenta mobilizar as entidades civis e religiosas em torno de objectivos comuns. Com muito mérito, têm feito este evento crescer.
Para se fazer uma abordagem histórica à Semana Santa temos necessariamente que perceber que estas celebrações se realizam um pouco por todo o mundo cristão e que, mesmo as procissões se repetem um pouco por todo o país. Nesse aspecto, não há propriamente originalidade. Os elementos que fazem da Semana Santa de Braga a mais importante de Portugal referem-se essencialmente ao contexto geral da cidade nesta época e às tradições que os bracarenses fazem questão de manter. A denominada Procissão da Burrinha, recuperada em 1998, e as celebrações litúrgicas que conservam o secular rito bracarense, são exemplares únicos destas solenidades, porém os grandes momentos são atingidos com as procissões organizadas pelas Irmandades de Santa Cruz e da Misericórdia.
Recuando ao período que intermedeia o último quartel do século XVII e os finais do século XVIII, assistiremos a uma Braga a fervilhar de devoção, com a fundação de inúmeras confrarias e com a construção de novos templos e a reforma de outros. Nessa altura, o calendário anual de procissões ultrapassava as largas dezenas. A Semana Santa era um momento significativo para algumas delas. Não havia propriamente um programa geral de celebrações, sendo que muitas delas coincidiam.
A partir do momento em que a Irmandade de Santa Cruz, fundada em 1581, e em que a Irmandade da Misericórdia, fundada em 1513, se começaram a afirmar, as suas procissões adquiriram um igual destaque entre as demais. Recordemos que as pessoas mais influentes da cidade pertenciam a estas Irmandades e isso poderá explicar a dimensão que as suas grandes celebrações anuais adquiriram.
A Procissão dos Passos deverá ter alcançado particular protagonismo quando a Confraria do Bom Jesus dos Passos, erigida na igreja do Pópulo, se uniu à Irmandade de Santa Cruz, no ano de 1769. A Procissão do Senhor “Ecce Homo”, com origens provavelmente no século XVII, ganhou relevo pelo facto de ser um préstito de penitentes, os denominados “farricocos”, que hoje são símbolo da Semana Santa, mas que outrora pungiam os seus pecados neste percurso. Por outro lado, temos o Cabido da Sé Primaz, responsável pelas celebrações do Tríduo Pascal, nas quais participa o Arcebispo Primaz. Por isso, estas celebrações tornaram-se nas mais solenes e sumptuosas da cidade, para além de ostentarem o secular rito bracarense, do qual se destaca a Procissão Teofórica do Enterro, que percorre as naves da Catedral. Da Sé saía ainda a Procissão do Enterro do Senhor, na qual participavam diversas confrarias de Braga, para além das já citadas Irmandades.
Acrescentando a estes destacados momentos, temos o Lausperene Quaresmal, iniciado em 1710 por D. Rodrigo de Moura Telles e que continua a ter uma grande adesão dos bracarenses. Pena que muitas igrejas deixem apodrecer as artísticas tribunas, em nome de uma recomendação conciliar. Não seria possível, uma vez por ano, utilizar as tribunas e deixar entrever a beleza monumental (e espiritual) dos templos da cidade?
A Semana Santa já se afirmou como o maior evento anual da cidade de Braga, seguramente o que maior destaque mediático obtém e o que mais visitantes arrasta à capital minhota. Este facto, faz deste evento o maior produto turístico consolidado da cidade. E tudo isto alcançado através de um orçamento reduzido, mas revestido de muita criatividade e capacidade. O site na internet e o interesse da comunicação social é a prova mais evidente disso mesmo.
A Igreja bracarense pode mesmo dar grandes lições aos poderes públicos do município no que diz respeito ao desenvolvimento de um plano turístico. Os maiores “produtos” turísticos de Braga são presentemente da responsabilidade da Arquidiocese bracarense. Citemos alguns: o Bom Jesus do Monte, a Sé Primaz e Museu e, obviamente, a Semana Santa. Dir-se-ia que as Festas de São João, todo o legado de Bracara Augusta, a Braga Romana, ou o denominado “barroco bracarense”, que tem em André Soares o seu máximo expoente, têm mais que potencial para se tornarem num pólo de atractividade e desenvolvimento, todavia é preciso primeiro traçar um plano devidamente orientado, para depois poder aplicá-lo e recolher os frutos.
Saber valorizar os recursos e potencializar a sua capacidade de gerar riqueza é um sinal de competência. A cidade de Braga beneficia, como poucas em Portugal, de recursos imensos no que toca ao património natural, monumental e, até mesmo, imaterial, se considerarmos o conjunto das suas tradições culturais ainda bem enraizadas. É preciso saber aproveitá-los, a bem do futuro da cidade e dos seus habitantes. Há vontade de o fazer?

1 comentário:

  1. SE a Arquidiocese pode dar lições ao poder municipal porque não dá? E porque "implora" que os dirigentes do Município e comparsas empreiteiros e quejandos integrem os órgãos sociais desses santuários dourados do turismo? Sabe que há mais de 1o anos que a Confraria do Bom Jesus não presta contas? Sabe que há gente que trabalha lá, não faz mais nada na vida e vive fautosamente? Se quiser exemplos concretos basta pedir.

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