domingo, 24 de junho de 2012

As Festas de São João em Braga


O parque da Ponte durante as festas de São João do ano de 1917
O São João de Braga continua a ser o momento alto do calendário anual dos bracarenses. As festas revelam a identidade genuína da cidade, quer através das iniciativas das associações culturais e recreativas do município, que atingem por esta quadra o seu maior horizonte de activismo, quer pelas tradições e legado que conserva, quer pela elevação dos principais símbolos da cidade: como a bandeira e o hino.
Será sempre arriscado tentar datar a origem das festas, até porque este tipo de festividades se fundava no culto religioso. São João Batista é um dos santos mais importantes da Igreja, o único que é celebrado a partir da celebração do seu nascimento. Apenas Jesus Cristo e Nossa Senhora têm direito a essas prerrogativas.
O que podemos conjecturar é desde quando alcançaram dimensão municipal, e como é que se destacaram dos demais festejos que tinham este privilégio. Sabemos que existe uma igreja paroquial dedicada a São João, desde o século XII, e uma capela (da Ponte) desde 1616. Sabemos também, através das actas do Senado da Câmara, que ao longo do século XVI o São João já fazia parte das celebrações estatutárias da cidade, detendo até um estandarte oficial. Todavia, para além do São João, as festas do Corpus Christi, de Santa Isabel, de S. Tiago, de Nossa Senhora e do Anjo da Guarda também detinham um cariz municipal. Por este tempo, temos conhecimento da existência de algumas tradições. Uma delas é o Candeleiro, em que uma vela votiva era transportada pelas ruas da cidade. Associada a esta antiga usança estavam outras tradições como a dança das pélas (as padeiras da cidade, transportadas aos ombros, executavam uma coreografia); os espingardeiros, que deveriam disparar para o ar durante o percurso; e, ainda, uma dança de espadas, espécie de pauliteiros que deveriam secundar o Candeleiro. A corrida do porco preto era outra das grandes tradições sanjoaninas. Um porco era soltado do Picoto, e perseguido até às margens do rio Este, onde se encontrava, sobre a ponte, um grupo de moleiros que tentavam impedir a passagem do animal. Se o porco resolvesse atravessar o rio era pertença dos moleiros, se conseguisse atravessar a ponte ficava a pertencer aos cavaleiros. Outra das tradições associadas ao São João era a serpe, símbolo do pecado que se insinua aos humanos, e restituída às festas no Encontro de Gigantones e Cabeçudos.

Pelo relato de um monge francês, que passou o dia de São João em Braga no ano de 1699, sabemos ao pormenor como seria a procissão, antes da reforma litúrgica que ocorreu poucos anos após. Não faltavam danças e lutas durante o percurso, assemelhando-se mais a um curso carnavalesco do que a um cortejo religioso.
A procissão vai ser reformulada com manifestações de teatro sacro. A “Relação do Festivo Aplauso”, documento que descreve a do ano de 1754, fala-nos já de uma exibição similar ao carro dos pastores, onde figuravam seis carros relativos a algumas passagens da vida de São João Batista. Nesta descrição é referido que Braga era «sempre a primeira (cidade) nos cultos do mesmo Santo», o que atesta que estas festas teriam uma dimensão significativa.
A dança do Rei David e o Carro dos Pastores continuam a ser o momento de maior originalidade das festas. São acompanhados pelo Carro das Ervas, uma memória das procissões medievais que exigiam este tipo de carros de cheiro, vai abrindo o cortejo “despejando”, pelas ruas, as ervas para perfumar as ruas. A dança do Rei David, reformulada no século XIX, deriva provavelmente da Mourisca, uma dança associada à procissão do Corpo de Deus.
Outra das tradições dos festejos é os quadros bíblicos representados no rio Este, que têm origem no século XIX. De um lado da ponte está a representação do baptismo de Cristo, e do outro um gigantesco S. Cristóvão.
Na última década do século XIX, um conjunto de cidadãos decidiu engrandecer os festejos sanjoaninos e implementou uma série de inovações no programa. Para além do reconhecimento que as festas alcançaram nas fronteiras do Minho, a popularidade do São João de Braga chegou a Lisboa e ao Porto, onde eram colocados os cartazes das festas. O comboio era a grande aposta para atrair forasteiros. As festas da cidade foram, pelo menos até aos anos 50, o grande evento turístico da cidade, atraindo milhares de pessoas de todo o país.
Recentemente uma nova tradição veio dar mais brilho ao São João: o Encontro Internacional de Gigantones e Cabeçudos. A prova de que temos hoje que continuar a criar tradições.
De facto, as festas de São João têm tudo para ser o maior cartaz turístico e cultural da cidade. E se fosse criado um site? E se regressassem os foguetes, balões, festa de encerramento e cortejo do Traje? E se na noite de São João houvesse mini-palcos que criassem bailaricos espontâneos e animação? E se fosse valorizada a tradição de Braga nos cordofones, criando um festival nacional de cavaquinhos. E se se recuperasse a Corrida do Porco Preto?

4 comentários:

  1. Pelo que tenho lido as festividades do São João em Braga, seriam inicialmente de cariz religioso e remontam pelo menos ao século XII. É já no século XV que se tornam também populares e no inicio do século XVI passam a ter organização municipal (1517?).

    Não sei se o Rui Ferreira confirma estas datas, ou conhece mais alguma informação extra?

    Retirei parte da informação aqui no BragaMaior e nesta mensagem do "História por um Canudo".
    http://historiaporumcanudo.blogspot.pt/2010/02/festas-de-sao-joao-em-braga.html

    ResponderEliminar
  2. Não se devem atirar essas datas para o ar, até porque estas se referem a estudos particulares sobre as actas do Senado da Câmara. O São João como festa religiosa existe desde os primórdios da Igreja Católica e sabemos que passou a coincidir com a altura em que se realizavam festas pagãs do solstício de verão. Portanto, nunca saberemos quando começaram a ser festas com dimensão pública, ou seja, quando ganharam as ruas. É provável que a existência de um orago numa das igrejas da cidade, justifique a existência de festejos públicos, mas nunca saberemos se teriam alguma dimensão. Festas não faltavam na Idade Média. O dado que é essencial descobrir é desde quando se tornaram municipais. Sabemos através de Constantino Ribeiro Coelho que em 1517 já se realizavam com cariz municipal, à imagem de mais algumas celebrações, entre as quais a maior era o Corpus Christi. Todavia, devemos confirmar as (poucas) actas anteriores para perceber até onde é seguro afirmar que eram municipais. Uma questão mais passível de ser datada é a partir de que data as festas de São João se tornaram as únicas com cariz municipal, ganhando relevo acima das outras celebrações. Estou em crer que foi no século XVIII.

    ResponderEliminar
  3. Seria importante rever então essas actas, para se poder comemorar os 500 anos das festividades, será um grande trunfo.

    Eu acredito que um dos grandes mercados do turismo português será o Brasil e acredito que Braga pode beneficiar muito com esse mercado.

    Como sabemos no Brasil o São João é comemorado em várias cidades.
    Remontando o São João de Braga ao inicio da época dos descobrimentos será um excelente trunfo poder aliar, o São João de Braga como o "original" e inspirador de todos os outros, ao:
    - título de cidade mais antiga de Portugal;
    - Barroco de Braga e as suas parecenças com cidades Brasileiras como Ouro Preto;
    - Mosteiro de Tibães, a casa mãe da ordem dos Beneditinos em Portugal e no Brasil.

    Seria mais uma excelente forma de promoção do evento e da cidade no Brasil.

    P.S. Não está então provado que o São João de Braga era celebrado no século XII?

    ResponderEliminar
  4. Segundo o Doutor José Marques, o Candeleiro seria uma espécie de andor com a imagem do santo e de anjos, ladeado de flores e muitas tochas.

    ResponderEliminar