sexta-feira, 1 de junho de 2012

Igreja e autarquia: que colaboração?


Colaboração na Cultura e Economia: O maior contributo que a Igreja pode dar à sociedade bracarense é indubitavelmente o aproveitamento económico e cultural do seu vasto espólio patrimonial, móvel e imóvel.
Sabemos que actualmente a indústria do turismo já representa cerca de 8% do PIB nacional. Num tempo em que somos chamados a ser particularmente criativos na dinamização da economia, urge um plano de desenvolvimento estratégico para o turismo em Braga. Apesar de ser o terceiro município em número total de dormidas na região Norte, apenas superado pelo Porto e Gaia, Braga não soube ainda potencializar os seus recursos culturais e patrimoniais, apostando afirmativamente na sua imagem e na divulgação dos seus principais eventos. 
Qualquer plano que vise potenciar o desenvolvimento deste sector deve passar, no caso de Braga, por uma profícua relação de colaboração entre a autarquia – sempre promotora de qualquer iniciativa deste género – e a Igreja, a instituição mais significativa na história da cidade e a detentora maioritária do património do município.
É importante salientar que os únicos produtos turísticos consolidados do município são da responsabilidade da Arquidiocese bracarense. Refiro-me ao Bom Jesus do Monte, à Sé e Museu e às Solenidades da Semana Santa. As instituições públicas do município de Braga poderiam aprender com a Igreja, a melhor forma de saber aproveitar recursos e potenciar vontades em prol de um objectivo comum.

Um exemplo: Ao longo da última década algumas confrarias e irmandades foram manifestando vontade de avançar para a constituição de espaços museológicos. Entre estas saliente-se a Misericórdia, que pretende aproveitar o antigo hospital de S. Marcos. Porém, também a Irmandade de Santa Cruz pretende edificar um museu, e ainda os Terceiros e o Pópulo. Sabemos que hoje existem grandes espólios guardados em dependências dos templos e nas sacristias. Porque não juntar todas as confrarias e paróquias num projecto comum? Porque não aproveitar o espólio, valorizá-lo e pô-lo ao serviço da economia da cidade? Porquê cada instituição continuar a querer fazer o seu próprio projecto, quando podem juntas alcançar um projecto de grande magnitude, que projecte o nome da cidade? (o edifício do Hospital de S. Marcos poderia ser o local ideal para desenvolver este projecto)
A evolução da liturgia, com a reforma promovida pelo Concílio Vaticano II, provocou o desuso de muitas alfaias e objectos de arte sacra. Braga, como a diocese historicamente mais relevante do nosso país, poderia apostar na criação de um grande museu de arte sacra, ao qual se podia associar um centro de investigação e inventariação vinculado à Arquidiocese. O processo de inventariação poderia resultar em frequentes exposições temporárias, à imagem do que já se faz no melhor museu português, o Museu Nacional de Arte Antiga.
Uma outra ideia a ser explorada, poderia ser um curso profissional na área da arte sacra, de forma a potenciar a existência de uma escola de artistas em Braga. Esse sector continua a ser muito procurado, embora a qualidade das esculturas não seja propriamente louvável.


Uma questão: sendo a TUREL uma iniciativa salutar, no âmbito de uma aposta num determinado sector do turismo, não seria desejável uma colaboração mais estreita com a autarquia, de forma a potenciar o alcance da sua acção? Que estratégias poderiam ser adoptadas em conjunto? Que projectos poderiam ser desenvolvidos?

5 comentários:

  1. O meu contributo ao debate... Concordo plenamente com a explanação de Rui Ferreira acerca de “Igreja e autarquia: que colaboração?” penso no entanto que o contributo da Igreja para a comunidade vai muito além do aproveitamento económico e cultural do seu vasto espólio patrimonial, móvel e imóvel.
    A igreja tem em muitos locais tido um papel fundamental para a coesão territorial, quer pelo auxílio em questões sociais, quer pelo bem-estar em comunidade que muitas as vezes promovem, quer pelo facto de conseguirem juntar muitas vezes a comunidade em prol de um objetivo comum. Neste último item penso que a entidade politica que governa a nossa cidade muito tem a aprender. Vejamos o caso de Priscos, querem um exemplo maior de como mobilizar a comunidade, de como promover proximidades, de como avançar com um projeto notável?!
    Relativamente á questão do turismo religioso, entendo que o contributo será notável a dois níveis: a vertente social e cultural e a vertente económica, fortemente associadas uma á outra.
    Relativamente á primeira entendo que a igreja já teceu a relação com o turismo aquando o documento sobre a chamada Pastoral do Turismo, publicado pelo Papa Paulo VI em 1969, onde refere que, “ longe de ser considerado um perigo para a fé ou os costumes, o turismo é visto como uma oportunidade para a realização do homem, para a compreensão entre as culturas e as tradições”. Tem a ver, entendo, com a envolvência espiritual e religiosa implícita a cada cultura e como o turismo religioso tece contributos para a compreensão da mesma, o que será muito certamente também um atrativo turístico. E é relevante realçar a importância que o Turismo Religioso tem nos nossos dias, como segmento de mercado turístico em expansão, a nível mundial, como o Rui Ferreira referiu.
    Cada território deve encontrar e promover a própria imagem que corresponda à sua vocação específica, tendo em atenção as suas características endógenas. O património religioso em Braga detém um enorme valor no âmbito dos recursos turísticos que a cidade dispõe. O património construído: os mosteiros, as igrejas, as capelas,e o património móvel, deixa de uma certa maneira, de ser pertença exclusiva da Igreja, em virtude de serem património cultural da cidade, do país ou até da Humanidade pela sua abertura ao público e interesse histórico-cultural ou religioso que detêm.
    Sendo sem dúvida o património religioso um atrativo, existe um modo de o tornar rentável, o olhar como um produto turístico, sendo que para tal é necessário a promoção, a junção a outros produtos, os eventos, as rotas…é fundamental trabalha-lo. Aqui entendo que a política municipal deverá ter um papel determinante, cabe ao município em parceria com a Arquidiocese encontrar modos de articulação com vista a potencialização do património religioso, encontrar modos de o potenciar como produto turístico. Concordo mais uma vez com as palavras de Rui Ferreira, urge um plano de desenvolvimento estratégico para o turismo em Braga de modo a construir-se um projeto comum. Urge unificar o projeto do município, da arquidiocese e da Turel. Mas porque será que o município de Braga não consta entre as entidades que cooperam com a Turel?!

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  2. Relativamente ao tema em debate, parece-me pertinente que se promova um diálogo entre duas forças vivas no seio da sociedade, em geral, e da cidade de Braga em particular.
    Mesmo sendo o Estado laico e haver cidadãos que não se identifiquem com as premissas defendidas pela Igreja Católica, não deixa de ser verdade que a Igreja Católica é uma entidade que tem a seu cargo a espiritualidade de várias pessoas, mas tem, ainda, o encargo de proporcionar alguma dignidade de vida a quem mais precisa.
    Não basta dizer “eu não professo, logo não quero a Igreja Católica misturada com a minha autarquia”, pois devemos estar conscientes do trabalho “sombra” ou mais visível que várias instituições da Igreja têm. Relembramos, pois, o trabalho das Cáritas diocesanas, das Conferências Vicentinas, das acções associadas à Legio Sanctae Mariae, as Paróquias, Grupos de Voluntários e as Congregações Religiosas.
    É notório que há preocupações sociais por parte da Igreja Católica e que esta instituição é responsável por minorar as dificuldades de vida de várias pessoas.
    É louvável que na Cáritas se possam ceder refeições e banhos, bem como as Paróquias, Congregações e Conferências muitas vezes recolhem roupas e géneros alimentares para socorrer as necessidades. Também os grupos de voluntários, grupo de jovens e outros ajudam a levar uma palavra de esperança, mas também companhia como resposta de inclusão social.
    A autarquia terá, com certeza, instrumentos de referenciação para poder dar resposta no que compete a apoio social, tecto a quem não tem onde dormir, comida a quem não tem onde comer, entre outras necessidades. Creio aliás, que essa é a missão do Conselho Local de Acção Social (CLAS), que têm a CMB à cabeça e penso que deverá incluir os representantes das Juntas de Freguesia, bem como outras instituições de natureza pública ou privada. Creio que o CLAS terá de funcionar em rede e tem, necessariamente de ter a representação, bem como funcionalidade directa com a Segurança Social.

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  3. É inegável a necessidade de trabalhar em rede, mas, por vezes, as redes funcionam em rédea solta, esquecendo-se de comunicar entre parceiros ou articular estratégias de intervenção.
    Penso que muitas das vezes a Igreja apoia, o Estado Central apoia, a CMB apoia, a Junta apoia, um grupo local apoia uma só família, ou uma só pessoa precisamente pela falta de cruzamento de dados e aqui, em vez de estarmos a dar a “cana de pesca” para ensinar a pescar, estamos a dar o peixe uma, duas e três vezes. Poderá haver um aproveitamento ilícito por algumas dependentes, que se tornam subsidiários a tempo permanente, por ser mais fácil e cómodo (apesar do generalismo, obviamente são mais as pessoas que usam dos apoios de forma transparente e verdadeiramente necessitada do que os aproveitadores).
    Portanto, o facto de haver um trabalho sombra, não significa que seja invisível ou inexistente, mas creio que, por vezes, por ser tão sombra (por cuidados de não chocar socialmente) se esquece de actuar em rede, com a supervisão de uma entidade que gira os processos, que dê as indicações e orientações e que depois, então, descentralize para as entidades e grupos a distribuição de bens, para que também haja um acompanhamento personalizado. E este acompanhamento torna-se importante para se fazer um follow up das famílias/pessoas, saber se têm outras necessidades ou se que o que recebem está a ser bem aproveitado e/ou gerido (para não se repetir o caso de encontrar um senhor com cerca de 100kg de arroz em casa).
    Também torna-se necessário este acompanhamento para permitir dar resposta a doentes que tenham necessidades especiais de remédios e/ou fármacos, porque muitos estamos sensibilizados para distribuir roupas, alimentos e brinquedos, mas nem sempre nos lembramos das doenças e outras necessidades especiais, pelo que se torna importante criar um banco de apoio médico, provavelmente de apoio domiciliário ou 24h (mas confesso que não sei como poderia ser feita esta gestão).
    Por isso, pergunto se não devem o Estado e a Igreja trabalhar em rede, cruzar dados e dar uma única resposta? Se as pessoas/famílias carenciadas estão referenciadas por ambas as partes ou se só deveria haver uma única referenciação? Há coordenação entre as várias equipas de apoio ou cada instituição gere como quer ou pode as equipas de apoio? Não será de apostar nas equipas de proximidade domiciliária, sobretudo numa altura em que se fala do abandono e esquecimento da população envelhecida? Devem os grupos de voluntariado ser coordenados por técnicos quer da autarquia, quer com técnicos da Igreja? Há formação específica por parte das equipas de apoio, quer da autarquia, quer da Igreja para lidar com as várias sensibilidades e casos (ex. uma família financeiramente carenciada terá de ter uma resposta socialmente diferente de uma pessoa com alguma dependência química).
    Penso, pois, que é necessária maior proximidade entre a Igreja e a Autarquia , porque o bem comum, independentemente da nossa crença religiosa, é algo que fará uma cidade mais igual, respeitada e humana.

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  4. A inevitalidade,.. de "dar as mãos" por Braga Melhor!
    O centro da cidade precisa de gente(a "machadada" final, foi dada aquando do encerramento do Hospital de S.Marcos) e esta, é uma óptima solução, cultura. O Turismo em Braga deve ser tratado com profissionalismo para assim "fixar" os turistas a esta região.

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  5. Sendo a Igreja e as autarquias duas identidades ao serviço das populações, não se entende muito que a Igreja de Braga, atualmente tenha uma posição claramente ostensiva para com as autarquias. Se por um lado aceitam que as juntas de freguesia promovam melhoramentos em equipamentos das paróquias, com o embelezamento de adros, reconstrução de igrejas e capelas, por outro lado são ciosos das sua propriedades e raramente as põem ao serviço das comunidades em iniciativas das Juntas. É a prática daquele aforismo: " O que é meu é meu. O que é teu é nosso."

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