domingo, 15 de julho de 2012

Braga, cidade do Barroco

O barroco pode ser uma fonte de desenvolvimento turístico e económico para Braga

A cidade de Braga, também batizada de “cidade do barroco”, é uma das localidades portuguesas com maior índice de obras de arte legadas por este estilo, que influenciou a sociedade portuguesa durante mais de um século.
Braga legou ao nosso país alguns dos grandes nomes do barroco português, entre eles o escultor e entalhador  Marceliano de Araújo (1690-1769), de cuja inspiração resultou a caixa de órgão da Sé Primaz, o retábulo da Misericórdia ou as fontes do Pelicano e Sete Castelos; ou Frei José Vilaça (1743-1809), o monge beneditino que fez da talha a sua arte. Porém, o maior nome entre os artistas bracarenses é, indubitavelmente, André Ribeiro Soares da Silva, o “génio” do rococó, cujo estudo e valorização têm sido constantemente aprofundadas (Cf. a tese de doutoramento de Eduardo Pires Oliveira). A sua criatividade, apesar de ter vivido apenas 49 anos (1720-1769), marcaram para sempre a fisionomia da cidade. Basta referirmos que, das suas mãos, saiu o traço dos dois principais edifícios civis da cidade: a Câmara Municipal e o Palácio do Arcebispo. Entre as suas obras destacam-se ainda o palácio do Raio, a bracarense capela de Santa Maria Madalena, a fachada dos Congregados, ou os irrepetíveis ornatos da capela mor de Tibães. Porém, a sua maior obra de arte esconde-se numa das dependências dos Congregados: a capela de Nossa Senhora Aparecida. Quantos bracarenses a conhecerão?
Entre os personagens que marcaram o percurso da história da nossa cidade, não poderíamos excluir os arcebispos D. Rodrigo de Moura Telles (1704-1728) e D. José de Bragança (1741-1756), que foram os grandes mecenas das obras de arte que se iam elaborando na cidade.
Em Braga chegou a existir até uma grande escola de artistas de talha e arte sacra que era procurada por confrarias e ordens religiosas de várias regiões do nosso país, e que chegou a “exportar” para o Brasil. Ainda hoje se verifica essa centralidade no comércio e produção de alfaias litúrgicas e arte sacra. Pena a cidade ainda não ter investido num curso profissional nesta área...
Numa cidade que se ufana de ter uma derivação particular de um estilo arquitectónico, não há nem um roteiro particular do barroco devidamente elaborado, nem iniciativas que permitam explorar este potencial.
A realização de um Festival Barroco, de periodicidade anual, à imagem do que acontece em algumas cidades europeias, poderia ser um foco atrativo para Braga. A quantidade inumerável de monumentos desta época poderia ser mote para conferências, concertos, teatros, exibições temáticas de rua, recriação da entrada dos arcebispos em Braga, e promoção do denominado Barroco bracarense com roteiros e visitas guiadas.
O retorno económico seria seguramente superior ao investimento e poderia ajudar a estabelecer uma rota que perdurasse todo o ano, e que envolveria obviamente empresas privadas, que se responsabilizariam pela dinamização destes eventos.
Poderiam ser integradas neste âmbito as seguintes medidas:
  • criação de uma rota, com logótipo e plano de divulgação próprio;
  • produção de manuais e guias especializados para serem distribuídos aos visitantes;
  • durante os colóquios e congressos, fazer publicações no âmbito da história da arte, que captasse públicos universitários e investigadores;
  • criação de um portal dinâmico na internet, com oferta de pacotes integrados com museus, restauração, hotelaria e Theatro Circo, e descrição da rota e monumentos disponíveis;
  • promover visitas guiadas todo o ano com diversidade de percursos e rotas temáticas. Fazer acompanhar as visitas com personagens vestidas como na época barroca.
  • Entre as rotas temáticas, uma obrigatoriamente dedicada a André Soares, outra ao mecenato do arcebispo D. Rodrigo, e outra debruçada sobre a talha e o azulejo. Outra das rotas poderia dedicar-se à arquitectura civil do período barroco e, ainda, uma rota que percorresse as fontes e chafarizes construídos nesse período.
  • criar placas identificativas em cada monumento desta rota, de forma a criar um circuito informativo, que sirva também para promover a própria marca criada.
  • o Festival Barroco seria o grande certame promovido, que teria que envolver toda a cidade, com uma campanha de marketing que modelasse a imagem da cidade durante o evento, apostando fortemente na divulgação nacional e internacional. Por exemplo, abrir os monumentos à noite, realizar grandes concertos nas igrejas, simular uma grande festa barroca na praça do Município, teatralização da entrada de D. José de Bragança em Braga, visitas guiadas temáticas (todas estas iniciativas seriam uma grande oportunidade para os grupos culturais do município).
  • integrar este plano cultural e turístico na rota do Barroco já existente no Conselho da Europa, o que implicaria um alcance de divulgação europeu, gratuito e eficaz.
Pode ser que um dia...

(artigo publicado no Diário do Minho, 11 de julho de 2012)

1 comentário:

  1. A ideia é excelente! Dar-se-ia a conhecer mais e melhor da cidade de Braga e da sua enorme riqueza histórica. Seria um projecto de enorme valor! Há que começar a pensar nisso com seriedade.

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