quinta-feira, 25 de julho de 2013

Santiago de Compostela, a grande rival

O dia de Santiago assinala-se anualmente a 25 de julho

Em dia de Santiago, recordemos a maior rival histórica da cidade de Braga. Santiago de Compostela é um dos principais santuários cristãos e o terceiro maior destino de peregrinações, depois de Roma e Jerusalém.  Graças ao “camiño” cresceram cidades e vilas por toda a Espanha, devido ao impacto económico e à deslocação de pessoas que provocava.
Nascida de uma devoção fortalecida no século IX, supostamente sobre o túmulo do galego e herege Prisciliano (bispo de Ávila que propagou uma heresia no século IV, tendo sido martirizado), cresceu sobre a lenda de que o apóstolo Iago (Santo + Iago = Santiago) teria vindo para a Galiza depois de ter sido martirizado no ano 45 em Jerusalém. Fundida à diocese de Iria, conseguiu isentar-se de Braga, aquando da restauração dos direitos metropolitas bracarenses, no século XI. Aliás, durantes as lutas pela independência portuguesa, o ardiloso arcebispo de Compostela, Diego Gelmirez, apoiou a causa de D.ª Teresa, tendo em vista os ganhos que a sua Sé poderia ter com essa luta.
Porém, o episódio mais grave foi o célebre roubo das relíquias. Foi no ano de 1102, época em que as relações com Santiago de Compostela estavam muito tensas, que o Arcebispo galego se apresentou em Braga numa aparente missão de paz. A boa índole de São Geraldo não permitiu decifrar as intensões perversas da comitiva galega, que tinha como intenção derrubar as pretensões de Braga como centro de peregrinações. Assim, durante a noite o Arcebispo Diego Gelmírez e o seu séquito tomaram de assalto os templos mais concorridos e levaram consigo as relíquias mais veneradas de Braga: São Vítor, Santa Susana, São Cucufate, São Silvestre e São Frutuoso. Esta «acção má e indigna», como o próprio São Geraldo catalogou, ficou para a história como o “Pio Latrocínio” e permitiu a Santiago de Compostela ganhar ascendente sobre Braga no capítulo religioso peninsular. Entretanto, e depois de muitos séculos de disputas pela supremacia eclesiástica da Galiza, outrora pertença de Braga, as relações entre "Sés" acalmaram e até as relíquias foram devolvidas (parcialmente) quando a catedral bracarense comemorou solenemente os seus 900 anos.

10 comentários:

  1. Dizer que Prisciliano foi martirizado pode induzir em erro. Tratou-se mais de uma execução. É considerado, no Ocidente, o primeiro cristão a morrer às mãos de outros cristãos. Uma proto-Inquisição, portanto.

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  2. Sim, o melhor é não dizer martírio. Porém, foi devido ao facto de ser tido como mártir que o conduziu à "santificação" popular, mais tarde confundida com o culto a Santiago! Mas isso daria para outras mensagens mais desenvolvidas...
    Obrigado pelos seus contributos!

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  3. Foi pena o electricista galego não se ter lembrado dessa:
    "Eu, roubar o Codex Calixtino? Não! Foi apenas um pio latrocínio..."

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  4. Outra pena é o "eclipse" do Espaço Jacobeus. Decidiram investir na expansão nacional; mas isso resultou numa grande perda de dinâmica a nível concelhio e distrital.

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  5. Hoje também era dia do sindicato dos motoristas ir à missa. Será que apreciaram as obras do Parque da Ponte? E quando houver capela no Picoto, a festa muda-se para lá?

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  6. Quanto ao Diogo Gelmires, apesar do despeito, há que reconhecer que se tratou de um personagem extraordinário.

    Quanto às relíquias, houve uma primeira devolução em 1966, de parte das de S. Frutuoso, à paróquia de S. Jerónimo de Real.

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  7. Além do S. Frutuoso que relíquias é que foram devolvidas?

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  8. Em 1966 foram apenas as de S. Frutuoso, por ocasião das comemorações dos 1300 anos da sua morte.
    Em 1994 foram devolvidas as restantes (mencionadas no post), depois de "repartidas irmãmente".

    Quanto às relíquias de Sta. Susana, há notícia da redescoberta dos seus restos mortais (o Gelmires não teria levado tudo) em 1590, por frei Agostinho de Jesus; e que este os teria transladado para a "sua" (dele) nova igreja do Pópulo. Daí, o esquife da santa numa das capelas laterais.

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  9. Mas, nesta história de S. Tiago, há episódios ainda mais rocambolescos.
    É que o bispo Maurício Burdino, na sua peregrinação a Jerusalém, veio a descobrir uma ermida onde se venerava a cabeça de S. Tiago; e decidiu "palmar" a relíquia e trazê-la para cá, para a esfregar na cara do Gelmires. Azar dos azares, por causa das confusões militares no nosso território, optou por a deixar em segurança (pensava ele) num mosteiro de Carrión (Palência). Só que ali era o poiso da safada da Urraca, que se apoderou da cabeça do santo e a veio a dar de presente ao Gelmires.
    No entanto, o Burdino não se deu por vencido. Mais tarde, viajou até Roma e lá comprou o corpo do S. Tiago Interciso, um mártir persa. E trouxe-o para Braga, para tentar fazer concorrência a Compostela. Mas os galegos já estavam bem lançados...

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