segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A igreja do "extincto" Convento dos Remédios

O interior da igreja dos Remédios, durante o lausperene quaresmal
Efectivamente não há muitos registos fotográficos do convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, o maior edifício conventual urbano de Braga, demolido entre 1908 e 1911. Sobre a igreja havia um enorme silêncio, existindo algumas descrições dos elementos decorativos do interior. Sabíamos que seria muito semelhante às igrejas do Salvador ou da Penha, com entrada lateral e três retábulos voltados para o corpo do templo. A foto confirma essa tese.
A igreja demolida em 1911 foi a terceira que o convento teve. A primeira, construída aquando da fundação do convento (1544), não durou mais de 70 anos, pois em 1609 foi erigido um novo templo, que em 1725 deu lugar à última versão.
Este último templo foi uma obra do arquiteto vimaranense António Pinto de Sousa e mandado edificar pela Abadessa D.ª Francisca de Serafins. Para este projeto concorreu também Manuel Fernandes da Silva, o mestre pedreiro dileto do arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, todavia a sua proposta foi vetada. A igreja tinha uma curiosa fachada lateral, com seis estátuas organizadas em três níveis, entre colunas torsas e, encimando o conjunto, as armas da ordem franciscana. O interior era similar ao das restantes igrejas conventuais femininas: planta retangular com capela-mor acoplada; e três retábulos em talha dourada, estando o mais destacado na capela-mor; e paredes forradas a azulejos.
Recordemos que a talha dourada, que preenchia o interior, datava dos anos 1726-27, e nela trabalharam alguns importantes nomes do barroco bracarense. Marceliano de Araújo, juntamente com Francisco Machado de Landim, Bento Ferreira e Manuel Silva executaram capitéis, colunas, cartelas e anjos. Os mesmos artistas executaram também uma imagem de Nossa Senhora da Piedade, com 1,26 metros de estatura, que figurava no retábulo mor e que fazia parte do lote adquirido por Alfredo Ramos em 1911. O retábulo-mor, púlpito e sanefas podem ser apreciados na capela de Santa Marta da Falperra.
Todos os elementos da fachada da igreja dos Remédios estão hoje espalhados pelo recinto do Parque da Ponte. As imagens de S. Francisco de Assis, Santa Isabel da Hungria, Santa Isabel de Portugal e S. João Evangelista estão colocadas junto ao cruzeiro de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, sendo que a de S. João Batista se encontra na parede traseira da capela de S. João da Ponte assente num dos conjuntos da fachada; as colunas estão no paredão que adorna o adro da capela; alguns dos azulejos do interior da igreja forram hoje as paredes da referida capela; as armas da ordem de S. Francisco que encimavam a fachada estavam num recanto, uns metros à frente do portão Sul do parque; e junto a elas, uma pedra que outrora encimava a porta do templo onde sepodem ler as seguintes inscrições: “ANNO DOMINI MDCCXXV”, que se referem ao ano da reedificação deste templo. Além destes elementos ainda podíamos admirar, espalhados pelo recinto do parque, alguns capitéis e outras pedras de cantaria da fachada.
O mais importante legado da igreja dos Remédios é, provavelmente, um conjunto de pinturas da autoria de Carlos António Leoni (ou Leone), o italiano que vai operar uma revolução na fachada da vizinha igreja de Santa Cruz, cujo ofício principal era a pintura. Segundo Eduardo Pires de Oliveira, pertencem-lhe as telas a óleo, representando temas marianos e episódios da vida de São Francisco, que figuravam nas paredes da igreja conventual. Estas telas estão reconhecidas como fazendo parte do espólio do convento e figuram hoje nas paredes de um corredor do Arquivo Distrital de Braga.
Para a igreja do Pópulo seguiram as únicas imagens de arte sacra que não fizeram parte dos sucessivos processos de arrematação promovidos pela Câmara Municipal de Braga, dado que eram pertença das confrarias sediadas no templo. Segundo a ata da Ordem Terceira, datada do dia 2/IV/1911, a capela de Santa Rita de Cássia, localizada na igreja do Pópulo, passou a ser também a sede das Confrarias do Santíssimo Sacramento dos Remédios, de Nossa Senhor das Graças e da Pia União das Filhas de Maria. Algumas das imagens que observamos nas fotos estão hoje na igreja do Pópulo, tais como a escultura de São Francisco de Assis (no retábulo lateral à esquerda) e a imagem de São Francisco Xavier, exposta no mesmo retábulo.
O altar de Nossa Senhora, o mais procurado da igreja, foi acrescentado no século XIX, e ocupava uma posição central, mesmo defronte da porta da igreja (ver foto).

2 comentários:

  1. Curioso: o altar lateral da esquerda parece ter um esquife.

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  2. É uma pena que hoje em dia na cidade de Braga já não haja o lausperene com este esplendor, com esta profusão de velas e de flores. Passou-se do oitenta para o oito...

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