terça-feira, 14 de agosto de 2012

O demolido cruzeiro do Senhor da Saúde


O Oratório do Senhor da Saúde –  postal de cerca de 1910.
Cruzeiro que data do primeiro quartel do século XVI, foi mandado edificar pelo Arcebispo D. Diogo de Sousa que o mandou colocar junto à Sé Primaz. Deste local o cruzeiro foi transferido para junto do recinto onde se situava, à época, o hospital da Devesa, erigido por D. Frei Bartolomeu dos Mártires, no local onde se situa hoje o parque da Ponte. Em 1625, por ordem do Arcebispo D. Afonso Furtado de Mendonça (“o arcebispo dos cruzeiros”, pois mandou erigir o imponente cruzeiro das Carvalheiras e reformou alguns outros), foi transferido para o Largo das Carvalheiras, junto da demolida Capela de S. Miguel-o-Anjo. Mais tarde foi deslocado um pouco para Sul do referido largo, ficando sensivelmente localizado junto ao local onde hoje se encontra a Escola Primária da Sé, sendo-lhe acrescentada uma cobertura metálica que assentava sobre quatro colunas graníticas em estilo renascença e sendo ainda vedada com grades de ferro.
Em 1912, estando o país inundado por um regime anti-clerical que tentava apagar o papel da Igreja na sociedade, numa noite misteriosa, alguém com más intenções apedrejou o cruzeiro, danificando-o.
Depois do acontecido o Oratório do Senhor da Saúde foi desmantelado e transferido, em 1914, para o Parque da Ponte. Hoje, a imagem do Senhor da Saúde encontra-se num dos altares da Capela de S. João da Ponte, depois de, em Outubro de 1912, a Câmara ter acedido ao pedido da confraria, sediada neste templo, para permitir a transferência da mesma para a referida capela. As quatro colunas renascença que sustentavam a cobertura metálica do oratório adornam, hoje, o lago de estilo romano que se situa junto ao portão sul do Parque, e a coluna principal do cruzeiro encontra-se junto ao portão Norte do Parque, um pouco acima do cruzeiro de D. Frei Bartolomeu dos Mártires. Esta elegante coluna assente sobre um plinto  dificilmente passa despercebida, pois além de ostentar as armas de D. Diogo de Sousa, tem no topo uma coroa que assenta sobre uma almofada, que lhe confere alguma monumentalidade. 
A coluna principal do cruzeiro (junho, 2012)
O cruzeiro do Senhor da Saúde, que depois de apedrejado em 1910, foi desmantelado e os seus restos espalhados pelo parque da Ponte foi uma das vitimas de um bando de “carbonários” que, levados pelo sentimento opositor à Igreja imposto pela 1.ª República, apedrejaram vários cruzeiros na cidade de Braga, entre os quais o cruzeiro do Senhor da Saúde, aqui já referido, o cruzeiro da Cruz de Pedra, o cruzeiro alpendrado de Infias e ainda o cruzeiro de S.Lázaro. Neste último monumento, o bando de malfeitores quebrou os braços e as pernas da imagem de Cristo, que mais tarde foram consertados. O pormenor mais curioso nesta história foi o sucedido com os dois principais autores destes crimes: um deles morreu sem pernas e sem braços que lhe foram amputados devido a uma grave doença; o outro morreu sem pernas depois de um comboio lhe ter passado por cima no ramal de Braga. Será que as suas trágicas mortes se devem ao apedrejamento do formoso cruzeiro de S.Lázaro? Será que foi apenas coincidência? Isso é uma dúvida a ser ajuizada segundo a consciência do leitor. Eu cá, tenho o meu palpite....

1 comentário:

  1. Bem, se Deus fosse severo e vingativo a esse ponto, certamente que muitos religiosos terão morrido por auto-combustão ao longo dos séculos!

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