quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Braga e Guimarães: rivais, mas pouco...


“Antes quebrar, que torcer”, eis o mote escolhido pelos vimaranenses no distante ano de 1885, para encimar a sua luta pelo desmembramento do distrito de Braga. Os de Guimarães entendiam que o Estado investia mais em Braga do que era a relação proporcional dos impostos pagos pelos contribuintes do seu concelho, e decidiram manifestar esse desagrado junto do Governo e do próprio Rei. O povo de Braga, em revolta com esta atitude, decidiu brindar os procuradores vizinhos, aquando de uma reunião da Junta Distrital, com insultos e pedradas… A verdade é que Guimarães não quebrou, mas torceu, e continuou a pertencer administrativamente à Cidade dos Arcebispos, apesar de um interregno de alguns anos, durante os quais ficou provisoriamente sob a jurisdição de Lisboa. O advento da República em 1910 arrefeceu as reivindicações vimaranenses e Guimarães continuou, até hoje, a fazer parte integrante do distrito de Braga.
Terá sido este o episódio mais duro da história entre estas duas cidades vizinhas. Tudo suscitado pela escolha de Braga para cabeça de distrito em detrimento de Guimarães, por altura da reforma liberal. Porém, falar da história das relações entre Braga e Guimarães é muito mais do que comentar as acicatadas rivalidades ressuscitadas nas últimas décadas pelo futebol.
Os mais entendidos dirão que não é bem verdade esta afirmação, dado que no século XIII terá havido uns atritos devido aos limites da jurisdição da Colegiada de Guimarães, que se queria isentar do poder e influência do Arcebispo de Braga. Pelo meio ainda D. José de Bragança, Arcebispo Primaz entre 1741 e 1756, que foi viver para Guimarães durante longo tempo, devido às azedas relações com o Cabido da Sé de Braga, que não queria largar os poderes obtidos no período de Sede Vacante. Todavia, nada que tivesse cariz de rivalidade entre as populações. Falar de rivalidade para um bracarense, significava referir Compostela ou Toledo, essas sim rivais de longa data. Braga sempre deteve poder jurisdicional, devido à organização eclesiástica, e Guimarães sempre aceitou esse estatuto de submissão. Tudo mudou, porém, quando a cidade de Vimara Peres começou a desenvolver-se e economicamente se pôs à frente de Braga… o que vem a suceder nos finais do século XVIII.
Não falamos, portanto, de uma rivalidade multissecular. Terá pouco mais de uma centúria de existência e refere-se sempre às reivindicações de Guimarães relativamente ao estatuto privilegiado de Braga. ‘Complexo de inferioridade’ dirão uns, ‘a defesa dos legítimos direitos’, dirão outros… A verdade é que nos últimos anos os episódios sucederam-se e não se limitaram ao futebol.
A instalação da Universidade do Minho foi um dos focos da luta – a academia acabaria por ficar concentrada em Braga, tendo o polo de engenharia em Guimarães – e reacenderia o fervor bairrista nos dois lados da Falperra. O concelho de Guimarães detinha alguma vantagem em habitantes, porém Braga era claramente a maior cidade. Os vimaranenses ficariam sempre convencidos de que saíram prejudicados desta repartição…
Entretanto surge o caso da Capela de Santa Maria Madalena, a jóia rococó que André Soares desenhou, e que o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles mandou edificar. Este edifício está voltado para Braga, foi construído a expensas do povo desta cidade, mas há divergências na linha fronteiriça dos dois concelhos. Algumas versões das cartas militares põem o templo do lado de Braga, contudo a mais recente versão coloca-o em Guimarães. Mandaria o bom senso determinar que pertence à Cidade dos Arcebispos. Que razão haveria para os bracarenses construírem uma capela para a oferecerem aos vizinhos de Guimarães?
Os mais recentes episódios referiram-se a grandes conquistas para o Minho. O Governo de Sócrates prometera o Centro Ibérico de Nanotecnologia e a Capital Europeia da Cultura para o distrito. Ambos eram disputados pelas duas cidades. Para resolver a contenda da melhor forma, assistimos a uma decisão salomónica: Braga ficou com o investimento ibérico e Guimarães é a terceira cidade portuguesa a receber o certame europeu. A capital minhota garantiu, entretanto, a organização da Capital Europeia da Juventude, um prémio de consolação. Todavia, Braga e Guimarães são muito mais do que estas pequenas tricas.
O dia 27 de Maio de 1128 responde a quem fala de duas cidades inimigas. Nada disso! O documento que confirma o Couto de Braga e que cede novos direitos e propriedades, inclusive o de cunhar moeda, é assinado pelo Príncipe Afonso e pelo Arcebispo de Braga. Este documento é chamado "Certidão de Nascimento de Portugal", porque confirma o apoio do Arcebispo D. Paio Mendes a D. Afonso Henriques, nas vésperas da decisiva batalha de S. Mamede. Trata-se de um apoiante de peso às pretensões do infante que queria ser Rei de uma nova nação. O Arcebispo prestou-lhe o apoio militar que foi decisivo para bater as tropas de sua mãe Dª Teresa no campo de S. Mamede e afirmar a sua reivindicação sobre o governo do Condado. Braga e Guimarães de mãos dadas fundaram um país. Aqui, efectivamente, nasceu Portugal!
Num ano em que Guimarães é capital europeia da Cultura e Braga capital europeia da Juventude, é tempo de viver unidos os sucessos de uma região dinâmica e criativa, onde está a melhor universidade de Portugal (segundo estudo recente) e na qual o futebol é promotor de identidade e de um bairrismo que se quer sadio e construtivo. As duas cidades de cuja aliança - selada entre o infante Afonso e o Arcebispo D. Paio e decisiva para a vitória em S. Mamede - surgiu uma nação, merecem ser exemplo de unidade e respeito.
E o futebol? Futebol é festa e alegria…e que orgulho é ter no Minho dois dos maiores e mais destacados emblemas da competição nacional!
Biba o Minho!
(publicado em 19/09/2011)

1 comentário:

  1. Só para realçar um pouco mais a rivalidade entre Guimarães e Braga, a abertura do curso de Medicina na Universidade do Minho esteve vários anos em stand-by porque tanto Braga como Guimarães reivindicavam a instalação do curso no seu respectivo concelho. Braga argumentava que era a capital de Distrito e que era no pólo de Gualtar que estavam instalados os cursos ligados com a área das ciências naturais. Guimarães, por seu lado, justificava que o seu hospital era mais recente e, como tal, oferecia melhores condições para os futuros estudantes de medicina. A decisão tomou-se a partir do momento que se projectou para Braga um novo hospital, que acabou por ser construído estrategicamente ao pé do campus da Universidade do Minho, levando à abertura do curso em Braga.

    Os rankings das Universidades são muito relativos. Num, a UM aparece em primeiro, como noutro já pode aparecer em quarto. Eu gostaria mesmo que a Universidade do meu concelho fosse a melhor do país, mas a verdade é que as melhores universidades são as de Lisboa, e também a do Porto, pois são essas apresentam uma maior oferta de cursos, tanto de graduação como de pós-graduação, e também são nessas que estão os melhores professores e investigadores do país.

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