terça-feira, 4 de setembro de 2012

Memória Maior: largo Carlos Amarante


O largo Carlos Amarante no mapa de 1594
O primitivo nome deste espaço urbano foi Rossio de S. Marcos, devido à existência de uma capela com as relíquias deste evangelista, trazidas pelos templários para a cidade de Braga. No século XVI adquiriu importância no contexto urbano e vai passar a chmar-se Campo dos Remédios, devido ao edifício mais importante existente neste lugar: o convento dos Remédios.
O hospital de S. Marcos (entretanto reedificado) foi o primeiro grande edifício a dar forma e este conjunto urbano, dado ter sido fundado durante a prelazia de D. Diogo de Sousa (1505-1532). O Convento dos Remédios foi fundado no ano de 1544 por D. Frei André de Torquemada, religioso franciscano coadjutor do Arcebispo D. Manuel de Sousa, tendo sido o primeiro convento a surgir em Braga. Convento feminino, da ordem de S. Francisco ocupava toda a zona Nascente do Largo Carlos Amarante, desde a Rua de S. Marcos até ao fundo da Rua de S. Lázaro. Do complexo conventual, demolido em 1911 para permitir a construção do Theatro Crirco, é de destacar o monumental edifício setecentista que fazia gaveto com a Rua de S. Marcos e a igreja de traça barroca. Os seus despojos foram espalhados principalmente pelo Parque da Ponte.
O edifício que mais se destaca actualmente neste espaço urbano é a igreja de Santa Cruz, nascida da devoção a um cruzeiro. Este templo apresenta uma profunda intimidade com toda a simbologia da Paixão e morte de Jesus, estando a sua estrutura arquitetónica e decorativa ligada aos símbolos ressaltados nos relatos dos Evangelhos. Tanto a fachada como o interior obedecem a uma rígida uniformidade simbólica. Construída em diversas fases, entre o ano de 1617 e 1736, o templo apresenta uma interessante perspetiva da dimensão simbólica e iconográfica do barroco, aplicada à arquitetura religiosa. O plano inicial pertenceu a Geraldo Alvares, tendo recebido novos traços do engenheiro militar Manuel Pinto de Vilallobos e de Carlos António Leoni. A tese que aponta o trabalho deste italiano com uma alteração paradigmática, na arquitetura religiosa bracarense poderá ser plausível ao observar as inovações decorativas introduzidas na fachada desta igreja. A conciliação de um maneirismo do período final, com um barroco precursor da obra de André Soares em Braga, é outro elemento a ressaltar. No interior impera o denominado período nacional, manifestado esplendorosamente na talha dourada dos retábulos. A Capela-Mor, bem como o destacado sanefão que recobre o arco-cruzeiro, saíram das mãos de Frei José Vilaça, e apresentam um traço nitidamente rococó. A par do Bom Jesus do Monte, a Igreja de Santa Cruz apresenta-se como uma obra de referência na dimensão iconográfica da Paixão de Cristo.
Nos anos 40 vai surgir o Cinema S. Geraldo a completar o lado nascente, que esteve em funcionamento até à década de 80, e, pouco tempo mais tarde, surge a Auto Viação Marinho, uma espécie de central de camionagem, desactivada após as expropriações levadas a cabo no pós- 25 de Abril. 

6 comentários:

  1. Alguém sabe o que diz a inscrição, no mapa, por detrás do edifício do Hospital de S. Marcos?
    Eu consigo perceber a parte do "Divi Marci", mas não consigo decifrar a primeira palavra.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Divi Marci, quer dizer S. Marcos. Há muitas inscrições no mapa a descrever templos e ermidas. A palavra que se segue pode ser "aedes" ou "aedicula", que geralmente significa igreja ou capela. Vou conferir no Mapa de Braunnio e depois digo qual a inscrição.

      Eliminar
    2. Já descobri! É "Nosocomium". Significa "Hospital". Lógico.

      Já agora, haverá algum estudo a sério deste mapa?...

      Eliminar
  2. O "Alfarrábios" tinha um post bem interessante sobre as peripécias da fundação do Convento dos Remédios.

    ResponderEliminar
  3. Relativamente à igreja de Santa Cruz, uma sugestão de chave­ de ­leitura da iconografia das cartelas:
    A central está directamente ligada ao texto (de um hino) inserido na cartela que lhe subjaz — os estandartes do Rei avançam, refulge o mistério da Cruz —. Assim, aparecem duas bandeiras cruzadas sobre o pé de uma cruz com o seu resplendor, e presas a ela por uma coroa.
    À esquerda, uma frase retirada de um outro hino, de uma estrofe em que se faz referência à árvore do Paraíso, sendo esta contraposta à da cruz. A cruz é, então, a nova árvore da vida.
    À direita, uma frase retirada do mesmo hino da cartela central, cuja estrofe faz menção às profecias de David, e cuja casa real era representada por uma palmeira. A cruz é, pois, a nova árvore da realeza.
    As cartelas laterais figuram o antigo, que remete para o novo, figurado ao centro. O tal mistério que brilha...

    ResponderEliminar
  4. A frase por cima das portas é tirada do evangelho de Mateus (capítulo 20); trata­-se do terceiro anúncio da Paixão. É possível que tenha sido escolhida também pela referência à acção de subir (entenda­-se: as escadas); e, talvez, pela menção de Jerusalém, que teria que ver com a igreja­-mãe, em Roma.

    ResponderEliminar