sábado, 19 de outubro de 2013

Capela de São Frutuoso: um mistério por desvendar



O processo dfe reconstrução da capela na década de 1930, despertou muitas discussões

A Capela de São Frutuoso é um monumento de grande valia no contexto da arte paleocristã, prevalecendo uma série de questões sobre a sua origem e enquadramento artístico. O grande e único elemento definitivo é a sua origem pré-românica, não sendo possível datar com maior pormenor a época da sua construção. Acresce a este facto, os poucos dados históricos disponíveis acerca da sua existência, recuando ao século XVI a primeira referência directa encontrada.
Supõe-se que este monumento seja o primitivo mausoléu de São Frutuoso, bispo de Braga entre os anos 656 e 665 da era cristã. Dada a dedicação deste prelado à fundação de comunidades cenobíticas, muitos investigadores têm atribuído a S. Frutuoso a fundação de um mosteiro dedicado a S. Salvador, no qual terá sido sepultado.
Construída em granito de tonalidade acastanhada, composto em blocos paralelepipédicos similares, a capela de S. Frutuoso impressiona pela simetria e geometria das formas. A planta em cruz, de braços aparentemente idênticos, leva-nos a identificar a denominada cruz grega como matriz arquitectónica. As três fachadas disponíveis, bastante refeitas no restauro do século passado, apresentam um frontão triangular muito similar na dimensão aos usados nos templos romanos. Nas paredes encontram-se arcaturas cegas pouco profundas, umas em círculo e outras triangulares. Uma porta completa o tramo meridional da capela. O lanternim central, mais poupado às mudanças barrocas, apresenta arcatura sobre a cornija alternando entre a ferradura e o triângulo. Sobre esta arcatura salienta-se uma curiosa decoração em pedra de ançã, apresentando uma corda ininterrupta e elementos que têm sido identificados com a flor-de-lis. Ainda no exterior saliente-se um arco sólio no braço norte, contendo um sarcófago.

 A área da capela é relativamente reduzida, atestando talvez a sua origem funerária. A porta principal abre-se para poente, como pediam os cânones da época, e dá acesso ao templo do antigo convento dos franciscanos (hoje igreja paroquial de S. Jerónimo de Real). Esta igreja, cuja edificação terá mutilado severamente o monumento, é de uma beleza admirável, apresentando-se, todavia, fundida ao pequeno templo de S. Frutuoso. Adaptado ao novo gosto da época, o barroco, o monumento terá sido mutilado e abafado no interior do edifício conventual, do qual apenas se libertaria no ano de 1897, quando foi descoberto por Ernesto Korrodi. Devido às inúmeras transformações de que foi alvo no século XVIII, muitas e delicadas foram as intervenções efectuadas para devolver ao monumento a sua pureza original. As polémicas e divergências surgidas durante o processo de restauração estão registadas e constituem um espólio notável para o estudo deste monumento.
Uma grande questão subsiste na investigação hodierna ao monumento de Montélios. A Capela de S. Frutuoso tem sido frequentemente associada a monumentos presumivelmente de origem visigótica, tais como a igreja da Idanha-a-Nova ou S. Pedro de Balsemão. Todavia, nunca houve um consenso entre os investigadores interessados. A tese moçárabe apresenta-se bastante mais razoável que a visigótica e esse facto faz gerar a polémica. Afinal trata-se de um monumento de origem e feitura visigótica ou moçárabe?
 Miguel Carrilho da Silva Pinto é um entusiasta da tese moçárabe e fornece um forte argumento contra a origem visigótica do monumento. O facto da estrada romana passar junto a Montélios dificilmente a tornaria um alvo esquecido pelos mouros. Como poderia ter escapado à destruição? Acresce a este dado, o facto de ser provavelmente um lugar de culto acentuado, dada a proximidade temporal com a morte de S. Frutuoso. Este prelado bracarense faleceu em 665 e os mouros terão atingido Braga por volta do ano 717. 
Silva Pinto justifica os elementos visigóticos como reflexo de uma arte que deixou fortes raízes na região. Todavia, é inegável o aspecto classicizante da estrutura da capela, quer pela sua volumetria exterior, muito semelhante a Galla Placídia (Ravena, Itália) e a outros monumentos da mesma época, quer pelos elementos decorativos ainda vinculados intimamente aos valores artísticos romanos. Os seus frisos de palmetas, ou de ramos geometrizados, estariam conforme o gosto decorativo dessa época. Terá sido apenas material reutilizado tardiamente na construção? É uma tese a verificar. O facto é que todos estes elementos, bem como a tradição, fortalecida pelas crónicas já citadas, favorecem a tese visigótica e informam-nos que esta terá sido a capela funerária mandada fazer pelo próprio São Frutuoso.
Foi Manuel Monteiro, grande investigador bracarense, um dos que mais lutou para que a tese moçárabe prevalecesse. O facto deste monumento ter sido seguramente o lugar onde se veneraram as relíquias de S. Frutuoso durante quase três séculos (até serem roubadas em 1102 pelo arcebispo de Santiago de Compostela), é justificado na devoção subtil que as gentes, que continuaram a viver nesta região, mantiveram ao santo prelado, erigindo a capela em plena época de ocupação sarracena – que como sabemos nunca foi efectivada nesta região. Poderemos aceitar este argumento? Se aceitamos a presumível sobrevivência da capela à passagem dos mouros – mesmo sabendo que a cidade de Braga havia sido totalmente arrasada – teremos que aceitar necessariamente este argumento.
Este último raciocínio é certamente mais razoável que aquele que suporta a tese visigótica. Contudo, continuaria por explicar a presença de pedras nobres na construção – tais como calcário ou pedra de ançã e de mármore – bem como dos elementos profusamente trabalhados da sua decoração. Seria possível uma construção assim, num tempo de forte perseguição aos cristãos, em que os meios económicos e os artistas não estariam propriamente tão disponíveis? Como construir um edifício destes para albergar o túmulo de um santo falecido um século antes?
Subsiste, portanto, a dúvida.

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