terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Estádio 1.º de Maio: o palco jamais esquecido

O estádio no dia da sua inauguração (© alfarrabiosdebraga.blogspot.com)


O estádio 1.º de Maio terá sido, porventura, a obra mais destacada do quase meio século de ditadura em Portugal. Dir-se-ia que uma cidade apelidada de ‘cidade-santa da revolução’ seria, pelo regime político então vigente, beneficiada e privilegiada no que toca a investimentos públicos. Contudo, a história demonstra que assim não foi. Se no ano de 1926 Braga era ainda reconhecidíssima como terceira urbe portuguesa, vê reduzir-se esse estatuto pelo desejo salazarista de criar um terceiro pólo urbano e industrial em Coimbra. Este facto terá canalizado investimentos e atenções sobre esta cidade, considerada mais central geograficamente em detrimento da capital minhota. Dois bairros habitacionais, um mercado e um estádio: a isto se resume a herança legada pelo Estado Novo a Braga. Isto, se não considerarmos o encerramento do Banco do Minho como responsabilidade do regime...
A ideia da construção de um estádio em Braga nasce com o crescimento desportivo do Sporting Clube de Braga, que se assumia, à época, como a principal colectividade desportiva da cidade. Até esta altura o clube utilizava como palco o Campo da Ponte com bancadas em madeira e desprovido de capacidade para receber a imensa massa humana que aderia ao clube. Desde 1921 (data da fundação do clube), foram surgindo campos improvisados onde o Sporting de Braga chegou a jogar, tais como o campo dos Peões, o campo da Rua do Raio e ainda no Campo da Vinha, que foi o primeiro palco de futebol em Braga.
Por tudo isto, e porque uma cidade com a dimensão populacional de Braga justificava um recinto desportivo de referência, depois da ideia ter sido lançada numa sessão camarária, logo o Estado se interessou pelo projecto e no dia 28 de Maio de 1946 foi lançada a primeira pedra do novo estádio. O local escolhido foi a encosta do monte Picoto junto ao Parque da Ponte, nos terrenos afectos à quinta da Mitra. O projecto inicial não assumiu de imediato a grandiosidade que entretanto viria a tomar. Um estádio totalmente em granito inspirado no Estádio Nacional que havia poucos anos tinha sido erigido no vale do Jamor em Oeiras. O projecto foi entregue ao conceituado arquitecto João Simões que foi o autor de obras arquitectónicas importantes na época tais como o edifício do antigo Café Avenida (actual Mc Donald’s) na Avenida Central e o edifício ocupado durante décadas pela Ranhada e Teixeira, situado no Largo 1.º de Dezembro, no extremo sul da Avenida da Liberdade.
Passados quatro anos, da cerimónia de lançamento das obras, em 1950, o estádio estava pronto e a data escolhida foi a mesma: 28 de Maio, a data da revolução em que Gomes da Costa, partindo de Braga, implantou a ditadura militar em Portugal. A festa foi grandiosa e nela participaram o Chefe do Governo, Oliveira Salazar e o Presidente da República, Óscar Carmona, que oficialmente inauguraram o Estádio 28 de Maio (hoje o Estádio denomina-se 1.º de Maio como impunha a mudança de regime que o 25 de Abril de 1974 trouxe a Portugal). As bancadas estavam repletas de gente para assistir ao evento. Braga foi inundada por visitantes que encheram a cidade como nunca havia sido visto. Para a festa contribuíram vários grupos desportivos e culturais da região, que serviram de aperitivo para as duas taças que se disputaram: uma entre o Sporting de Braga e o Futebol Clube do Porto, que terminou empatado e outra entre o Sporting e o Benfica que terminou com a vitória dos últimos.
O estádio é constituído por bancadas unidas em forma oval, com a mesma estatura, recortadas apenas no lado Norte onde surge um monumental pilar paralelepipédico onde se identifica em bronze o nome do estádio, com a heráldica da cidade a coroar, estando da parte de fora o escudo nacional. Na bancada Poente uma elegante construção quebra a harmonia do recinto: é a tribuna de honra onde se sentava a elite. Na zona frontal do recinto vemos dois conjuntos escultóricos de baixo-relevo, em bronze. No painel da esquerda observam-se seis figuras segurando elementos olímpicos como os louros, as taças, a chama olímpica e até um astrolábio, podendo-se ler, na parte superior do conjunto, as inscrições: TEMOS DE DAR AOS PORTUGUESES PELA DISCIPLINA DA CULTURA FÍSICA O SEGREDO DE FAZER DURADOURA A SUA MOCIDADE EM BENEFÍCIO DE PORTUGAL, e um pouco mais abaixo: O PODER AO SERVIÇO DO DESPORTO. No painel do lado direito observam-se outras seis figuras, cada uma representando várias modalidades olímpicas tais como o lançamento do dardo, estafeta, andebol, etc.; encimando o conjunto escultórico, podem-se ler as seguintes inscrições da autoria de Luís de Camões: OH GENTE FORTE E DE ALTOS PENSAMENTOS. As influências gregas neste anfiteatro minhoto não se ficam por aqui, pois junto ao pilar principal do estádio encontra-se uma pedra de tons alvos, possivelmente em mármore, que provém de ruínas da antiga civilização clássica e que foi trazida da Grécia para Braga, e colocada aqui para estabelecer um paralelo entre este recinto e os belos anfiteatros gregos onde nasceu o espírito olímpico. No início dos anos 90 foi acrescentado ao recinto desportivo uma pista de tartan, o que aumentou a funcionalidade do estádio.
O Estádio 1.º de Maio domina a extremidade Sul da cidade e vai continuar a ser uma referência monumental de Braga, permanecendo como testemunho de uma época, de um povo e de uma cidade que continua hoje a construir a sua história. Todos os bracarenses devem estar gratos a João Simões, pois concebeu um dos mais belos estádios de futebol do país. Apesar das opiniões que lamentam a recente opção da autarquia por um novo recinto de futebol, votando o estádio 1.º de Maio a um aparente esquecimento, é importante salientar que uma remodelação deste recinto implicaria a destruição da sua matriz original. Em boa hora se optou pela construção de um novo estádio, também ele uma referência arquitectónica de vulto. Braga ficou seguramente a ganhar. Todavia, a utilização do 1.º de Maio deverá ser promovida e incrementada, de forma a não permitir a sua degradação e a apatia da parte dos bracarenses.  Já sabemos que um equipamento que não seja utilizado estará, em pouco tempo, condenado a desaparecer… Esperemos que a autarquia esteja atenta a este facto e conceda sempre nova vida a este verdadeiro monumento de Braga.  

Rui Ferreira 2004

4 comentários:

  1. "O poder ao serviço do desporto"
    http://www.flickr.com/photos/anarina/6930079503/in/photostream

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  2. Não querendo entrar em defesa do regime salazarista, ficava por bem referir que a construção da Rodovia e o alargamento da Avenida da Liberdade também se deram no tempo do Estado Novo. No que diz respeito ao estádio 1º de Maio e a uma possível remodelação do mesmo em alternativa à construção do AXA, sou acérrimo defensor de que deveria ter optado pela primeira hipótese. 1º Seria menos onerosa; 2º Penso que, apesar de tudo, era possível salvaguardar alguns traços arquitectónicos; 3º Está mais bem localizado do que o AXA. Sei de gente que deixou de assistir a jogos do Braga por o estádio se ter deslocado para fora da cidade e por fazer um frio de rachar no AXA, derivado do lado Norte ser totalmente aberto.

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  3. Será bom refletir nas contas que o DM apresenta hoje sobre o AXA. A somar aos muitos milhões da sua construção a CMB vai gastar mais 12 milhões nos primeiros 30 anos. Tudo para quê? Será que 2 ou 3 jogos durante o campeonato da europa justificam este gasto? Espero que o fato de ser assumidamente adepto do SCB não o condicione a fazer a sua reflexão deste tema por aqui. É que são mais 12 milhões. Já pensaram quanto é que se poderia fazer com os milhões do AXA? Reconstruir oteatro romano, a casa das Carvalheiras, etc.... seria tanto e trocamos por tão pouco.

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  4. Muito se tem falado de estádios neste blog e muitos têm sempre as 'facas' afiadas para falar de obras públicas concluidas ou em curso. Ainda as afiam mais para falar de obras estruturantes e vitais para a cidade que ainda não foram feitas. Mas quando se toca nas contas do estádio municipal de Braga (só se chama AXA quando o sc braga lá joga) a opção que tomam é o silêncio, porque muitas obras podiam ser feitas com o dinheiro que continua a enterrado naquele estádio.
    Mais do que discutir a opção tomada pela construção ou não do estádio, o que eu realmente critico é a gestão feita do espaço. A CMB entrega o estádio a um clube profissinal de futebol sem que este pague uma renda minimamente justa pelas instalações e sem que este assuma as despesas de manuentenção de espaço.
    A CMB "arrenda" o estádio por completo durante 30 anos sem que possa gerir e dinamizar o espaço com outros eventos, de modo a que outros Bracarences que não vão ao futebol possam utilizar este equipamento público, e de modo a trazer outro tipo de público e de pessoas à cidade, ajudando assim à rentabilização financeira do investimento.
    Quem perde com isto? A Cidade.
    E quem ganha ? Os do costume.

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