quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Porque não classificar a Arcada?

© Rui Ferreira 2012


Trata-se do edifício mais conhecido de Braga, ponto de encontro dos bracarenses, berço das tradicionais tertúlias. Aqui vive Braga. Se as cidades fossem como os nossos corpos, a Arcada seria, certamente, o coração de Braga. E esta construção até nem tem, aparentemente, grande valia em termos arquitectónicos, todavia foi sendo, desde o século XVI, local de grande movimento comercial e viu surgir à sua volta os edifícios mais relevantes da cidade durante o século XIX. 
Foi D. Diogo de Sousa que transformou esta zona da cidade em ponto de encontro comercial, ao mandar construir o mercado do Pão junto da Porta do Souto, sensivelmente no local onde se localiza hoje o Largo do Barão de S. Martinho. E, já no tempo do arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus(1588-1609), é colocada, defronte do local onde se situa a Arcada, um elegante fontanário (hoje no Campo das Hortas) que, além de atestar a importância que o local já granjeava, demonstra a importância populacional do Campo de Santana nesta época, uma vez que a necessidade de abastecimento de água era sinónimo da elevada fixação de populações na zona abrangente. Hoje observamos um conjunto de edificações apoiadas sobre um piso térreo onde surgem as famosas arcadas, encontrando-se ao centro uma pequena igreja neoclássica, tendo ainda no cimo um conjunto de habitações extremamente peculiar. 
A Arcada pode não ser uma grande obra artística é, contudo, uma obra de cariz romântico que leva todos os bracarenses a esboçarem um sorriso de cada vez que a contemplam. E a origem deste conjunto de edifícios está precisamente relacionada com os seus 19 arcos, mandados erigir no ano de 1715 para compor um pequeno edifício coberto onde os mercadores, que se dirigiam à cidade, pudessem negociar os seus produtos. Relembre-se que então, o castelo de Braga encontrava-se neste local, ou seja, a Arcada foi inicialmente construída apoiada nas muralhas medievais. Nesta altura Braga sofria grande crescimento urbanístico, ainda tendo como epicentro a obra notável do Arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532). O Campo de Santana, actual Avenida Central, transformava-se cada vez mais no ponto mais central da cidade. No terceiro quartel do século XVIII um facto vem atestar a crescente importância da Arcada na vida da cidade, uma escultura, granítica, de uma figura feminina que segura numa das mãos uma réplica da Sé Primaz e na outra agarra um cajado, simbolizando Braga, vai ser colocada no cimo do edifício. Esta figura está hoje no Arco da Porta Nova (1778), a encimar este monumento. Um pouco mais tarde, em 1757, aparece em Braga um padre, Angelo Siqueira, que se reúne regularmente junto da Arcada para fazer pregações em devoção a Nossa Senhora da Lapa. O imenso povo de devotos que ali se reuniam provocaram o desejo crescente de fazer nascer ali uma capela em honra de Nossa Senhora. O Arcebispo vigente na época, D. Gaspar de Bragança, entusiasmado com a ideia, patrocinou as obras pelo que foi iniciado o seu processo de construção em 1761. O pequeno templo foi levantado ao centro das arcadas, não pudendo ter grandes dimensões uma vez que a Arcada estava encostada às muralhas do castelo. Em 1764 já a igreja estava concluída, tendo a fachada traços claramente neoclássicos, havendo um certo paralelo entre o seu frontão e o da Igreja dos Congregados o que levou alguns críticos de arte a atribuírem o desenho da Igreja da Lapa a André Soares. Os retábulos do interior do templo são dos finais do século XVIII, em estilo neoclássico. É precisamente neste período que aparece um ambicioso projecto que contemplava a construção de mais dois pisos na Arcada, bem delineados e segundo o gosto da época. Todavia este empreendimento não chegou a ir avante. Foi apenas em 1867 que foi apresentado o projecto da actual Arcada, acrescentando mais um piso ao edifício, da autoria do engenheiro Joaquim Pereira da Cruz. Nos finais do século XIX já a Arcada apresentava a feição actual. No piso térreo, em 1857 é fundado o mais antigo café da cidade, o Café Viana, sendo mais tarde fundado outro café no polo oposto. Todos estes factos associados à construção do Teatro de S. Geraldo, em meados do século XIX e do Banco do Minho junto da Arcada contribuíram para o assumir definitivo deste local como o ponto de maior importância da cidade augusta. Todos os acontecimentos passavam por aqui, todas as conversas citadinas se desenvolviam à volta da Arcada da Lapa, a sociedade bracarense vivia à sombra da arcaria setecentista. Hoje o cenário não é muito diferente e qualquer imagem de Braga tem de passar pela Arcada. Se a isto associarmos a peculiaridade do cenário que envolve esta edificação, como por exemplo a Torre de Menagem, a Torre Sineira da Lapa, os contornos das casas construídas sobre o seu terraço, e ainda as casas circulares que a ladeiam, concluímos que realmente a Arcada é o elemento que mais enche a alma bracarense e constituí um dos mais encantadores panoramas que se podem admirar em Braga.
Durante as festas da cidade, em honra de S. João, a Arcada ganha novo protagonismo ao surgir completamente iluminada de luzes coloridas dando enorme brilhantismo às festividades, assumindo, uma vez mais, o papel de autêntico e paradigmático ex-libris da cidade. Um em cada dois postais alusivos à cidade dos Arcebispos congregam na sua imagem certamente a figura da Arcada da Lapa... Hoje posso afirmar sem erro que, se não se pode ir a Roma sem ver o Papa, também já ninguém passa por Braga sem ver a Arcada.

Porque não classificar este conjunto de edicações como monumento de interesse público?

3 comentários:

  1. Sem dúvida. Em Braga é importante classificar os monumentos para que não sejam alterados, descaracterizados, destruídos!
    Se o presidente da CMB e vereadores que o apoiam percebessem a importância do património numa cidade, não teriam permitido a destruição de vários edifícios como a Casa da Orge, o Palacete Matos Graça, a Casa Castelo de Gudalupe, o interior do antigo "Nosso Café", etc, etc, etc.
    A café Astória não teria provavelmente sido sujeito a tantas alterações, algumas ocupando mesmo a zona das arcadas, se o monumento ARCADA estivesse classificado.
    Classificar para quê? PARA PROTEGER O PATRIMÓNIO!

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  2. Classificar um monumento deverá significar que a autarquia e o governo irão zelar por esse bem.
    Em Braga temos o Complexo das Sete Fontes, classificado como Monumento Nacional, mas abandonado pela câmara e pelo Governo.
    Triste cidade esta com tanto património e tão desprezado.

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  3. Classificar um monumento deverá significar que a autarquia e o governo irão zelar por esse bem.
    Em Braga temos o Complexo das Sete Fontes, classificado como Monumento Nacional, mas abandonado pela câmara e pelo Governo.
    Triste cidade esta com tanto património e tão desprezado.

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