quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A capela de São João da Ponte


Postal de Manoel Carneiro e Irmão, cerca de 1900

A capela de São João da Ponte, mais conhecida por ser o epicentro das festas da cidade de Braga, é um dos monumentos mais “queridos” dos bracarenses. Espaço de memória e de memórias, muitas delas associadas inevitavelmente aos festejos sanjoaninos, a valia desta capela não se mede pela sua qualidade artística – que é reduzida – mas pela importância comunitária de que se reveste para os bracarenses.
Ao contrário do que alguma historiografia do século XIX e XX quis fazer crer, a capela de São João da Ponte não está na lista daquelas que o arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532) mandou edificar nos seus ímpetos reformistas. A maior prova desta afirmação encontramo-la no famoso mapa de Braga datado de 1594. Nesse documento, que se constitui como a mais antiga cartografia da cidade augusta, não há qualquer referência a uma ermida neste recinto, mas já se fala da existência de uma fonte, a mesma que ainda hoje subsiste no parque interior, com as armas de fé do arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus. Por mais imprecisões que o mapa possa deter, não deixa nunca de representar os espaços de culto, as fontes ou os cruzeiros, pelo que é difícil afirmar que se possa ter esquecido de representar a capela de S. João da Ponte. Na verga da porta principal do templo é observável a data da sua construção:“ANNO DE 1616”.
Localizada junto a uma das principais saídas da cidade, a estrada para Guimarães, a capela adquiriu o nome em referência à ponte que servia de passagem sobre o rio Este. O orago é dedicado a São João Batista, um dos santos mais populares da Igreja Católica, que detinha em Braga uma paróquia, desde o século XII, e uma das festas estatutárias municipais mais citadas desde o século XV. O orago bem poderá ter tido origem na antiga porta de São João, situada entre os largos de S. João do Souto e Carlos Amarante, que dava partida à estrada que por aqui passava.
A localização da capela neste lugar poderá estar vinculada à fixação crescente de populações junto ao rio Este, nomeadamente os moleiros. Dado que se situava ainda fora do perímetro urbano no século XVII, esta zona necessitaria de um espaço de culto para servir estas populações.
A capela tem uma arquitectura singela, com dois campanários e um alpendre, tendo sido reformada provavelmente nos finais do século XVIII e início do seguinte. A este facto não estará alheio a confirmação deste recinto como um dos palcos das festas de São João. O interior é bem mais agradável que a fachada e saltam logo à vista os belos azulejos setecentistas que revestem as paredes do templo, colocados aqui, em 1919, pelo Cónego Manuel Aguiar Barreiros. Tanto estes azulejos como os que se encontram a adornar o alpendre são provenientes da antiga igreja do convento dos Remédios, demolida em 1911 e cujo espólio enriqueceu sobremaneira este templo.
Os altares laterais, o altar-mor, o púlpito e os sanefões são em estilo neoclássico e contêm imagens religiosas de boa execução. No retábulo do altar-mor encontra-se, ao centro, a imagem do patrono, S. João Baptista, encimando a tribuna; do lado esquerdo está a imagem de Nossa Senhora do Parto que foi reencarnada em 1905; do lado direito observa-se a gigantesca imagem de S. Cristóvão, uma das que mais devoção popular atrai. Adossada ao altar-mor está uma urna envidraçada onde se encontra a imagem de Santa Felicidade Mártir, cuja devoção estava na origem da segunda maior romaria anual a esta capela.
No corpo da ermida encontram-se três retábulos neoclássicos onde se veneram as imagens de Santo António; da Imaculada Conceição, esta concebida nas oficinas do famoso escultor bracarense João Evangelista Vieira e para cá trazida em dezembro de 1916; e a imagem do Senhor da Saúde, que provém do cruzeiro que D. Diogo de Sousa mandou construir e que esteve colocado nas Carvalheiras até ser desmantelado em 1911. Este último altar é o mais recente e foi oferecido em outubro de 1912, por um industrial de Arcos de Valdevez. Destaque-se ainda nicho com a imagem do Menino Deus, em tamanho natural, com origem numa oferta devota dos finais do século XIX.
Ao fundo observa-se o coro alto que contém um interessante órgão, que dizem ter sido concebido pelo mesmo autor do órgão do Mosteiro de Tibães, para aqui trazido em 1916 depois de ter sofrido uma reconstrução.
A capela de S. João da Ponte, centro do único parque da cidade, continua a ser um dos locais de maior devoção popular dos bracarenses, confirmando-se inevitavelmente como o monumento mais “pitoresco” de Braga.

1 comentário:

  1. No mapa, a inscrição que acompanha a representação da fonte: Fons amcenissimus in medio luci (fonte deliciosa no meio do bosque).

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