segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A porta de Nossa Senhora da Ajuda

Hoje admiramos com particular ênfase as cidades históricas que conservaram as suas fortificações medievais. Em Portugal temos alguns bons exemplos. Braga, como uma das mais importantes cidades portuguesas, detinha também um importante circuito muralhado com cerca de 1680 metros de perímetro, nove torreões e uma cidadela. Este antigo circuito medieval, do qual subsistem ainda diversos vestígios - a torre de menagem do castelo e três torreões - detinha oito portas, a última das quais, como já referimos, era a Porta Nova, mandada abrir por D. Diogo de Sousa em 1512.
Todas estas portas estavam tradicionalmente associadas a um orago, que servia de proteção a quem entrava ou saía da cidade. Geralmente existia um nicho “encaixado” na porta com a imagem da devoção à qual era dedicada, porém chegava a existir capelas incorporadas na edificação ou nas suas imediações.
A porta de Nossa Senhora da Ajuda, localizada na extremidade poente da rua D. Paio Mendes, no enfiamento com a rua da Violinha, era uma das mais importantes aberturas da cintura medieval bracarense, dado que dava acesso à rua que confinava com a fachada da Sé. Esta artéria, por sua vez, foi até ao século XVI a principal rua comercial da cidade, denominada de rua dos burgueses. Como o nome indicia, esta seria uma artéria dedicada ao comércio, onde residiam as famílias mais ricas de Braga. Por outro lado, a porta fazia a ligação direta com uma das paróquias mais antigas de Braga, localizada extra-muros: S. Pedro de Maximinos. Esta paróquia, que era servida por um dos templos mais antigos de Braga, demolido durante a prelazia de D. Gaspar de Bragança (1759-1788), tinha acesso ao centro urbano através da rua da Cruz de Pedra. Este facto ficou patenteado na designação inicial da porta. No famoso mapa de Braga em 1594, esta porta é ainda denominada de “Porta de Maximinos”, dando sequência sequência à nova designação da rua dos burgueses, entretanto rebatizada. Inserida numa espécie de torreão, a porta da Ajuda detinha, no andar superior à passagem, uma pequena ermida com uma devoção mariana, que hoje sabemos corresponder a Nossa Senhora do Bom Despacho. É bem provável que esta devoção, e respetiva capela, sejam originárias no início do século XVII, época da qual data a imagem mariana que lá se venerava, e o livro de registos mais antigo da confraria lá sediada.
Sobre esta confraria sabemos, através do seu arquivo, guardado na capela de S. Sebastião das Carvalheiras, que se uniu, na segunda década do século XVIII, à confraria de Nossa Senhora das Graças, que estava sediada outrora nos claustros da Sé. Tratando-se de uma devoção vinculada a diversas causas, entre as quais o parto e a salvação das almas, deveria registar uma popularidade significativa entre as gentes de Braga, daí o facto de ser ter edificado uma capela inserida na própria torre.
Quando, nos finais do século XVIII, se iniciou o alargamento da atual rua D. Paio Mendes (defronte da Sé), levado a cabo essencialmente através do recuo da sua vertente meridional, a utilidade desta porta começou a ser questionada. As reformulações urbanísticas do centro histórico, levadas cabo ao longo do século XIX, não pouparam as ruas de traçado medieval e quase todas as portas que davam acesso ao espaço intramuros de Braga. À exceção da Porta Nova, entretanto substituída por um arco triunfal, e da porta de Santiago, que também não correspondente à original, todas as outras seis portas foram demolidas.
Quando se procedia ao projeto de alargamento da atual rua D. Paio Mendes, a Câmara entendeu ser necessário derrubar a porta da Ajuda, de forma a possibilitar o trânsito para o campo das Carvalheiras. A confraria, então sediada nesta porta, foi transferida, em 1826, para a vizinha capela de S. Sebastião das Carvalheiras. Poucos anos após, em 1831, a porta foi demolida, sobrando apenas vestígios do pano de muralha ao qual estava ligada, à entrada da rua da Violinha.

1 comentário:

  1. Albano Belino referia que a imagem da Senhora da Ajuda ficou guardada na capela de S. Sebastião, onde era venerada.
    E que da porta restava o escudo real de D. Fernando, embebido no primeiro paredão das Carvalheiras, ao lado do de D. João I que pertenceu à porta de S. Francisco.

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