segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A antiga "parochial" de Maximinos

O antigo templo (28) e o actual (29) assinalados no mapa de André Soares
Maximinos é uma das primitivas paróquias de Braga. Situa-se fora dos limites da cidade medieval, mas ocupa uma área significativa da antiga cidade romana de Bracara Augusta. Para além dos vestígios da ocupação romana, descobertos nas últimas décadas, esta freguesia detinha um dos mais antigos templos da cidade de Braga, demolido no último quartel do século XVIII. A atual
localização da igreja é relativamente recente, tendo sido construída a partir de uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição, chamada do Monte de Penas, dado que existia um outro templo muito mais antigo, situado umas dezenas de metros a norte.
A antiga igreja localizava-se sensivelmente no espaço hoje marginado por garagens de mecânica, localizado entre a travessa das Laranjeiras e a rua do Caires, na continuação do largo do Beco. Recorde-se que o atual largo do Beco, outrora chamado de Beco de S. Pedro, tinha continua-
ção na vertente ocidental da rua do Caires, culminando precisamente junto à antiga igreja paroquial de Maximinos. Este traçado curiosamente ainda subsiste, dissimulado numa artéria trasversal à rua do Caires, cujo acesso se faz pelo interior de um prédio. Esta rua seria o epicentro da paróquia, que se localizava, tal como S. Victor, fora dos limites medievais da cidade. O traçado da rua Direita, que hoje confina diretamente na fachada da igreja, confundia-se com a antiga via romana XX, que se dirigia a Lugo e Astorga “per loca maritima” (passando pela costa) e com a via romana XVI que fazia o trânsito para Olissipo (Lisboa) e para Cale (Porto), sendo obviamente uma das estradas mais movimentadas de Braga durante vários séculos. Maximinos era, por isso, um dos locais mais importantes da área urbana extramuros de Braga.
À imagem do que sucedeu com S. Victor, S. Vicente e, até, S. Lázaro, o templo cristão de Maximinos terá surgido sobre um antigo templo pagão romano, localizado junto a um importante edifício público de Bracara Augusta: o anfiteatro. O mapa de André Soares (ver gravura) dá algumas indicações da localização deste templo, demolido durante a prelazia de D. Gaspar de Bragança, que foi Arcebispo entre 1758 e 1789.
O cronista Inácio José Peixoto, nas suas “Memórias Particulares”, descreve o processo de demolição da antiga “parochial” de S. Pedro de Maximinos com lamentos, deixando-
-nos algumas pistas sobre este templo:
«Esta igreja estava no sitio quase fronteiro a uma quelha, chamada o beco, que sai do meio da Rua da Cruz da Pedra e defronte de umas casas que estão em outra quelha que vai ter à fonte de S. Pedro. Aí havia adro e casas de residência e hoje tudo se acha reduzido a passal. Era na verdade a igreja antiga e baixa. O abbade Manoel Jose Leite querendo fazer, como fez, casas de residência face da entrada da cidade, de fronte da capela de Nossa Senhora da Conceição, pediu a Sua Alteza esta capela que não era dele, mas do Conservatório. Ele deu-lha, porque nada dava seu. Mudou para aí a paróquia com algua repugnância dos fregueses. Privou-os do caminho da fonte pelo adro e ficou com a capela intitulada da Conceição, mas freguesia de S. Pedro de Maximinos. E acabou assim a mais antiga igreja dedicada a S. Pedro que existia desde o tempo dos romanos e escapou no tempo dos mouros». 
Diz o cronista, citando as obras realizadas por este arcebispo, que esta demolição foi uma “manobra”, expressando uma crítica veemente à ação de D. Gaspar de Bragança, que, recorde--se, esteve ligado à demolição de muitos outros edifícios em Braga.
Segundo este memorialista, a decisão do Arcebispo não deixou todos os “fregueses” contentes, tendo provocado tumultos e manifestações junto do paço. Como o prelado se recusara a escutar as manifestações de desagrado dos fregueses de Maximinos, estes terão endurecido a sua luta, acabando  «presos pela polícia» e deixando «aborrecido» o pároco de Maximinos.
Renovamos hoje, com legitimade, a crítica de Inácio José Peixoto. Não fosse a infeliz ideia de um arcebispo e de um pároco e Braga ainda hoje teria um dos mais antigos vestígios do Cristianismo na região, à semelhança da capela de S. Frutuoso em Montélios, quiçá com pedras reaproveitadas das antigas edificações romanas.
Com a demolição da antiga igreja, a paróquia de Maximinos passou a estar sediada no atual local, numa capela outrora pertença de um conservatório religioso, que foi entretanto alargada, conservando no nicho da fachada a imagem mariana da sua primitiva invocação.

2 comentários:

  1. Aproveito para sugerir um post sobre a igreja de S. Domingos, do recolhimento da Tamanca, cuja fachada (lateral/principal) foi demolida em 1967-68. Era mais um exemplo típico da arquitectura dos conventos femininos...

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  2. Olá Rui Ferreira! Foi um feliz acontecimento ter encontrado este teu artigo numa altura em que estou a iniciar um trabalho para a faculdade sobre a Igreja de S. Pedro de Maximinos. Tem algumas fontes que me possa sugerir? Ou então informação que disponibilize para consultar? Ficaria muito agradecido

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