terça-feira, 22 de janeiro de 2013

S. Vicente em Braga: um templo

© Rui Ferreira


A igreja de S. Vicente, ao que se supõe, tem origem visigótica como no-lo comprova uma lápide existente na sacristia datada do ano de 656. Todavia se queremos estabelecer uma data concreta para a fundação desta igreja temos de avançar ao século XVI, mais precisamente ao ano de 1565. Deste período não resta quase nada, uma vez que o edifício sofreu sérias remodelações nos finais do século XVII e inícios do seguinte. 
A fachada, ainda com elementos maneiristas, é o primeiro ensaio do barroco bracarense. Fazendo lembrar um retábulo a fachada levanta-se, harmoniosa, ornamentada com elementos de cariz claramente barroco, tem sido atribuída a Frei Luís de S. José, o mesmo que projectou a frontaria da Igreja do Mosteiro de Alcobaça, grande nome portanto. A encimar a frontaria podemos observar a imagem do patrono, S. Vicente, aconchegada num elegante nicho. A coroar a fachada deparamo-nos com um facto inédito em Braga: a cruz papal, ou seja, o crucifixo com três travessas. A esta circunstância não estarão alheios os privilégios e indulgências que o Papa Clemente VIII concedeu a esta igreja por volta do ano de 1598. Nesta frontaria, apenas concluída em 1717, trabalhou o grande mestre de obras bracarense Manuel Fernandes da Silva. 
O culto a S. Vicente neste local da cidade deve ser muito antigo, remontando talvez ao presumível templo visigótico que aqui terá existido. A torre sineira, como é típico da arquitectura bracarense encontra-se na extremidade oposta à fachada. Os arquitectos bracarenses desta época respeitavam religiosamente a simetria do barroco, colocando as torres sineiras na zona oposta à frontaria na tentativa de não colidir com a harmonia da fachada. Assim, desta mesma época, temos vários exemplos como este da Igreja de S. Vicente, basta lembrar a igreja dos Terceiros, a igreja de S. Vítor ou a igreja do Pópulo, sendo que todos estes templos têm em comum a origem maneirista das fachadas e o facto de terem a torre sineira colocada no extremo oposto à frontaria. Apenas registe-se que a torre sineira que hoje se observa no templo vicentino não é a mesma que foi construída no século XVII, uma vez que por duas vezes sofreu, esta torre, descargas eléctricas, provocadas por trovoadas, que a danificaram sobremaneira, chegando mesmo à quase destruição da mesma. 
O interior do templo deslumbra pela grandiosidade imprimida pela boa qualidade da talha dos retábulos, típicos do barroco nacional praticado em Portugal na primeira metade do século XVIII. O retábulo-mor é atribuído a Miguel Coelho, e os dois altares laterais, obedecendo ao mesmo estilo, foram concebidos nos anos 20 e 30 do século XVIII. A talha dourada não é contudo o factor de maior destaque deste templo, mas sim os interessantes conjuntos azulejares relativos à vida e morte de S. Vicente, sendo que os da capela-mor são de origem bem diferente dos azulejos que se observam no corpo da igreja. Os primeiros são de 1728 e de autor presumivelmente lisboeta, e as gravuras do corpo da igreja são já dos finais do século XIX da autoria de Santos Simões. Destaque maior vai para a obra dos dois maiores artistas bracarenses- André Soares e Carlos Amarante- que trabalharam neste templo. O primeiro foi o autor do desenho da grande sanefa do arco cruzeiro, caixilhos e outros pequenos trabalhos em talha, tudo realizado em 1751. Já Carlos Amarante apenas se lhe atribui a caixa de um pequeno órgão que remonta os terceiro quartel do século XVIII.  Este templo passou, a partir do ano de 1926, a servir a recém criada paróquia e freguesia dedicada a S. Vicente, que se deve ao facto desta igreja ser já, naquele tempo, centro de um núcleo urbano significativo.

2 comentários:

  1. Atenção: a lápide é datada do ano de 618.
    É preciso ter em linha de conta a diferença de calendários.

    ResponderEliminar
  2. As armas papais, também testemunhadas no interior da igreja (sanefa do arco cruzeiro) e em alguns objectos da liturgia, devem-se certamente ao facto da igreja ter sido constituída filial da basílica de Latrão. As indulgências são concedidas a esse título.

    ResponderEliminar