domingo, 24 de fevereiro de 2013

MAIOR AO DOMINGO: João Marques

Regressar ao futuro é uma prioridade de que Braga não pode prescindir.
Ao longo de quase quatro décadas o concelho assistiu a um crescimento de monta, nem sempre acompanhado da devida preocupação no campo do desenvolvimento.
Ao longo de 36 anos, foram dadas todas as condições para que qualquer governante feito pintor pudesse pegar na tela em branco que era o concelho de Braga e a pintasse de forma competente, ordeira e transparente.
O que se supunha com a instituição do sistema democrático de Abril era a possibilidade de todas as muitas telas em branco, que eram as regiões e os concelhos do país, poderem ser pintadas da diversidade de que se compunha o espectro democrático então criado. O famoso sistema de "checks and balances" que regula as democracias liberais deveria operar, desde logo, a nível local, sendo a alternância democrática uma decorrência lógica da operacionalidade de todo o sistema.
Ora em Braga não foi assim. Não estando em causa a democraticidade dos actos que repetidamente elegeram o mesmo partido e a mesma pessoa para a liderança dos destinos do concelho, julgo que ninguém disputará que mais de três décadas de exercício ininterrupto de funções desgastam psicológica, física e sobretudo intelectualmente a capacidade de quem quer que seja. Ninguém de boa-fé pode achar que há alguém no mundo que se aguente em funções por tanto tempo, com a mesma qualidade, criatividade e dinamismo com que, eventualmente, iniciou o primeiro mandato.
A prova desta realidade está à vista de todos. Neste que é o último mandato do dinossauro autárquico Mesquita Machado, a míngua de recursos (sempre negada, aliás) tem provado à saciedade e à sociedade que a política do betão, única onde o autarca socialista cumpriu e ultrapassou os objectivos que teria traçado nos idos da sua primeira eleição, faliu, como se apressa a falir boa parte dos seus interlocutores privados.
Baga cresceu pelo betão e pelo betão apressa-se para o ocaso.
Não foi por falta de aviso que a gestão autárquica mesquitista se enfaixou neste caminho (aparentemente) sem retorno.
É de há muitos anos o aviso da oposição, a tal que, é certo e reconheço a minha responsabilidade, também podia e devia ter feito mais para merecer mais cedo a confiança dos bracarenses, é desde há muitos anos, dizia, que soa o aviso sonoro e pungente da falência do "modelo de desenvolvimento" (?!) que o Partido Socialista local sempre subscreveu sem reparos.
São vários os exemplos do que aqui escrevo, mas nenhum tão cristalino como o das infernais obras das piscinas olímpicas, junto à miragem do Parque Norte, ele próprio reflexo do falhanço total da capacidade financeira do município e da capacidade de gestão a médio e longo prazo.
O que se pede agora para Braga é, por isso, um corte radical com esta política de betão e o reatar dos laços afectivos, económicos e institucionais entre os bracarenses e a sua autarquia.
Braga tem necessariamente de ter alguém à frente da sua gestão que represente, não só a tal necessária e bem-vinda concretização da alternância democrática, mas sobretudo a visão e estratégia devida para que todos possamos regressar ao futuro.
Regressar ao futuro na ligação à ciência e ao pensamento crítico, representado por excelência pelas instituições de ensino superior e profissional.
Regressar ao futuro no aproveitamento pleno do potencial turístico de um concelho verdadeiramente mágico na história, nas tradições, nas gentes e nas vivências.
Regressar ao futuro sem parolismos de circunstância, mas com uma aposta clara no riquíssimo património histórico e cultural que albergamos.
Regressar ao futuro, finalmente, na valorização do produto Braga. Um produto que começa no Bom Jesus, passa pela Brasileira, lancha nas Frigideiras, compra na Rua do Souto, respira nas margens do Cávado, bebe nas Sete Fontes e adormece no Mosteiro de Tibães. Um produto que é tudo isto e muito mais.
Cabe a todos operar este regresso, cabe-nos a todos velar pela Braga do futuro, já hoje, no presente.

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