domingo, 10 de fevereiro de 2013

MAIOR AO DOMINGO: Pedro Morgado


Braga Qu'Eu Gosto

Quem lê a Braga que Camilo Castelo Branco pinta nas suas Novelas do Minho depressa percebe que os condimentos do pior provincianismo político da época permanecem praticamente intocáveis. Os clãs, os pastores, os rebanhos e todo o atavismo que, da esquerda à direita, continua a corroer o progresso social. Enquanto isso, Braga, a cidade, cresceu de uma forma absolutamente extraordinária, consolidou-se como terceira cidade do país apesar da desvantagem geográfica relativamente a Coimbra, reconfigurou o seu tecido social, estruturou a sua massa pensante extra-partidária, promoveu a competitividade sustentada das suas empresas e instituições desportivas e incentivou a livre criação artística, projectando alguns trabalhos no panorama nacional e internacional. Podíamos ter feito mais? Com certeza que sim. Mas há motivos para termos orgulho no que fizemos e, sobretudo, no que somos. Estamos em ano de eleições, é certo, mas não deixa de ser particularmente triste que o debate político tenha chegado a um extremo em que até parece que vivemos na pior cidade do mundo. Mas não vivemos.
E é por isso que vou escrever sobre a Braga Qu'Eu Gosto. A Braga da Avenida Central cheia de verde que se enche de gente quando o sol brilha; a Braga da Avenida da Liberdade cheia de lojas e em que dá gosto comprar; a Braga das graníticas ruas fronteiras à Sé, com o seu grande brilho em dias de chuva; a Braga dos gelados da Spirito, dos cocktails da Champanheria de Janes, das frigideiras do centro e das francesinhas das tabernas; a Braga que foi a melhor Capital Europeia da Juventude de sempre e que, por causa disso, ganhou o estatuto de sede permanente das capitais europeias da juventude; a Braga que soube perceber os sinais dos tempos e reconfigurou o Mercado do Carandá num trabalho que viu reconhecido com o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2012; a Braga que apoia a sua maior associação pública, o Sporting Clube de Braga, naquele Estádio que é uma obra de arte reconhecida e premiada em todo o mundo; a Braga que protesta contra a imposição de uma reorganização de freguesias que prejudica severamente os municípios do Minho comparativamente com o restante país; a Braga que apostou na Universidade do Minho, uma instituição capaz de competir internacionalmente na investigação científica de ponta na área das NeurociênciasBiotecnologia e Física; a Braga que encontra na sociedade civil promotores da sua actividade cultural e artística como o Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, o Espaço Pedro Remy, a Livraria Centésima Página ou a Galeria Mário Sequeira; a Braga que também sabe mostrar (e vender) a originalidade da sua fé com os tradicionais farricocos, as solenidades da semana santa e a espectacularidade arquitectónica do Santuário do Bom Jesus e da Igreja de Santa Maria da Falperra; a Braga-cidade que, mesmo dizendo-se religiosa soube votar contra a criminalização da interrupção voluntária da gravidez; a Braga que aos domingos de manhã se passeia na Cerca do Mosteiro de Tibães; a Braga que vai ao teatro no Circo e à música na Ponte; a Braga que incuba bandas nas catacumbas de um Estádio-monumento; a Braga que vai de comboio ao Porto e que quer o comboio para ir para Guimarães; a Braga que festeja o São João no maior arraial popular do Minho; a Braga que se mobiliza pelo regresso dos transportes urbanos sobre carris; a Braga que sabe elogiar o que Guimarães faz bem; a Braga que protesta contra o fim da RTP no Norte; a Braga que integra os imigrantes como seus filhos; a Braga que é do Minho e quer ser do Minho conjuntamente com todos.
Dificilmente se fará uma Braga maior se não se partir daqui - da Braga que cada um gosta e é capaz de elogiar publicamente sem complexos.

20 comentários:

  1. "a Braga-cidade que, mesmo dizendo-se religiosa soube votar contra a criminalização da interrupção voluntária da gravidez".
    Por muito revisionismo histórico que o Pedro Morgado queira fazer, esta frase é falsa, não apenas num, mas em dois referendos!
    Há mais inverdades neste texto, mas cada um vende o peixe como quer.

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  2. "a Braga-cidade que, mesmo dizendo-se religiosa soube votar contra a criminalização da interrupção voluntária da gravidez".
    Por muito revisionismo histórico que o Pedro Morgado queira fazer, esta frase é falsa, não apenas num, mas em dois referendos!
    Há mais inverdades neste texto, mas cada um vende o peixe como quer.

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  3. A Braga que está descrita, de forma justa, também é a Braga que eu gosto, sem dúvida.

    É preciso orgulho nas coisas boas como as que descreve, claro, mas também o bom-senso de perceber o tanto que até hoje foi mal feito. Fujamos por onde quisermos, Braga é ainda a capital de distrito com menos espaços verdes por habitante. Braga tem uma universidade quase completamente desligada do resto da cidade. Braga tem, apesar de ter vindo a melhorar, uma animação nocturna muito fraca. O centro de Braga (freguesia de São João do Souto) é o mais envelhecido do país. O número de utilizadores dos transportes públicos é quase insignificante para uma cidade com mais de 110 mil habitantes (metade do número de Coimbra). Braga é mais do que isto, mas também é isto.
    Infelizmente talvez Braga me tenha perdido algures no meu crescimento nos últimos anos. No entanto, gostava, no caso de sair, de um dia voltar e ver a minha cidade evoluída e não só crescida.

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  4. Eu acho que este senhor que eu tanto gostava de ler no Avenida Central, saiu literalmente do armário e está convertido num grande socialista...

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  5. Gostei. Naturalmente que haverá uma Braga de que não gosta, mas houve uma intenção deliberada em não falar dela

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  6. Caro Nuno - quando toca a defender interesses que só interessam a minorias, ou que só a elas dizem respeito, um referendo é obviamente um falso instrumento de democracia.... nesses casos, democracia é os eleitos assumirem as suas responsabilidades e tomarem as decisões importantes... um referendo é uma mão cheia de terra atirada aos olhos dos poucos que querem ver.

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  7. Políticas à parte, não é vergonha nenhuma gostar do que é nosso nem tecer críticas construtivas...
    não se envergonhe, elogie, não se envergonhe, critique...

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  8. Caro Nuno,
    Em primeiro queria que notasse que este texto é um artigo de opinião que cita alguns factos. Em relação às informações factuais penso que nenhuma estará errada, nomeadamente aquela que refere no seu comentário. Penso que a sua confusão reside no facto de o SIM ter vencido na cidade e o NÃO no concelho, mas e verdade é que em Braga-cidade, o SIM venceu no último referendo.

    Caro Paulo Pimentel Torres,
    Estou completamente de acordo. A nossa democracia é, felizmente, representativa e não directa.

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  9. Braga concelho e Braga cidade? Mas será que a cidade não é concelho?Não saberá este senhor que um concelho é composto por freguesias?

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  10. O concelho é composto por freguesias mas também tem uma cidade que integra apenas algumas dessas freguesias. A cidade de Braga e o concelho de Braga são coisas bem distintas.

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  11. O texto é interessante. Obviamente será parcial, mas, não nos enganemos, todas as opiniões são parciais pelo que isso é natural. Julgo que o autor procurou ser positivo. Fazer julgamentos porque fez isso são processos de intenção complicados, próprios do provincianismo político atávico de que ainda não nos libertamos. Discordo de algumas das opiniões do autor e delas escolho duas. Julgo que qualquer Reitor da UM teria uma opinião contrária sobre a aposta de Braga na Universidade - a menos que a Braga do Pedro Morgado seja a dos cidadãos de Braga. A Braga oficial manteve até alguns conflitos com a UM. Usou-a, não a protegeu e criou o caos que conhecemos em torno do Campus de Gualtar. Também não sei que evidências existem sobre Braga ter sido a melhor capital da juventude de sempre. Será que são as afirmações dos promotores? Será que ser escolhida para sede de uma associação de cidades é evidência suficiente? Parece-me uma afirmação gratuita, ainda reconheça não saber como foram as outras capitais. Seria interessante ter indicadores, nº de visitantes, nº de dormidas na pousada da juventude, nº de horas de programação do programa oficial, etc. A sensação que tenho é que a CEJ foram umas reuniões, umas viagens, umas festas e dois brilharetes. O resto foi a programação normal de Braga e o amadorismo voluntário de associações. Convenhamos que uma CEJ que teve como parceiro na arqueologia a JovemCoop, quando tinha em Braga Unidade de Arqueologia da UM, um museu de arqueologia e uma associação como a ASPA, diz muito da seriedade do trabalho. Ainda que se deva louvar o trabalho da JovemCoop, é inegável que em termos científicos e pedagógicos as coisas teriam sido diferentes com outros parceiros. Só o facto de Ricardo Silva (JovemCoop) ser a melhor revelação da CEJ diz muito sobre o trabalho realizado pela Fundação Bracara Augusta e pela equipa de gestão da CEJ. Um voluntário terá sido melhor que todos eles. Quanto à polémica sobre Braga cidade e Braga concelho, julgo que é absurda e não fica bem ao autor. O concelho de Braga é uma realidade una. A separação é um puro artifício para justificar um argumento. Um exercício que não fica bem ao autor. Quanto ao resto, eu só tenho pena de não viver da Braga de que o Pedro Morgado gosta. Que este ano seja o ano de a tornar mais próxima.

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  12. Caro Filipe Martins,

    A divisão entre Braga cidade e Braga concelho não surgiu da minha cabeça e existe de forma oficial. Penso que será por desconhecimento da organização administrativa e urbana do país que lhe chama "puro artifício".

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  13. Meu caro Pedro, permita-me que lhe diga que o mais importante é concordamos que, como disse, "Dificilmente se fará uma Braga maior se não se partir daqui - da Braga que cada um gosta e é capaz de elogiar publicamente sem complexos." No "artifício" discordamos. Aliás "Braga que é do Minho e quer ser do Minho conjuntamente com todos", não pode começar por querer ser mais Braga que o restante concelho. Eu julgo ter percebido o seu texto. Eu também acho que não deve haver pudor em gostar de Braga, mesmo que queiramos mais e melhor do que temos. Desejar melhorar, desejar a mudança não precisa de nos transformar em azedos hipercríticos de olhos fechados para o positivo. Julgo que no seu exercício terá exagerado aqui a ali, mas o importante é desejar uma Braga maior!


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  14. A cidade é composta por freguesias que formam um concelho.

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  15. Sou "meio" bracarense, "meio" vimaranense.
    Mas tenho de reconhecer, que Guimarães tem algo de mítico em relação a Braga.
    Mais calma, mais arrumada, bem mais cristalina.
    Mais pequena é certo, mas a cultura fervilha na cidade.
    Ao contrário do Braga, o Vitória tem muito mais identidade.
    Possui um complexo com 6 campos, um pavilhão, uma sede, e claro um estádio, bem no centro da cidade. Tudo do clube, cada vez mais eclético.
    Braga é uma grande cidade, mas começa a "sofrer" na pele por isso mesmo.
    Por vezes sinto algum medo de passear em alguns sitios de Braga, coisa que não acontece em Guimarães.

    E.P. Bracarense de Guimarães

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  16. A verdade, infelizmente para mim que sou bracarense, é que Guimarães foi muito mais bem governada (pelo menos no que à cidade diz respeito), e é hoje uma cidade mais asseada, bonita, cultural e atractiva que Braga. Na minha opinião, a mudar-me do estrangeiro ou de Lisboa para o Minho, e mesmo considerando que amo a minha cidade de Braga, não tinha dúvidas em escolher entre Guimarães e Braga... Guimarães. Se Braga cresceu, Guimarães evoluiu (não sem defeitos como é óbvio).

    Peço desculpa aos bracarenses que por ventura leiam isto, mas é a (minha) verdade mais racional.

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  17. Nada como ler uma caixa de comentários para se perceber que a cidade de Braga afinal não existe...

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  18. Mudei-me recentemente para o centro histórico de Braga por ter exactamente a mesma paixão por esta cidade que o autor deste blogue demonstra neste post. A única diferença é que eu não sou político. Neste momento não posso deixar de estar arrependido pela minha decisão de escolher este sítio para viver. A verdade é que aqui, na maior parte dos dias do ano a cidade é um deserto. As mesquitices bacocas são um contra senso em todos os momentos. Esta cidade foi completamente saqueada. Os espaços públicos agora já quase não o são. Só falta o picoto e não será por muito tempo. Tenho que pagar para poder ir para casa, agora só posso estacionar numa rua que não tem lugares e mesmo assim tenho que pagar avença, também isto foi vendidos aos amigos do costume... Podia escrever 20 páginas de coisas que só agora me apercebi. Adoro esta cidade, mas é difícil não concordar que Guimarães nos está a dar 15 a 0 em qualidade de vida. Já se torna difícil falar bem da minha cidade de sempre e da qual nunca quis sair... Parabéns. Espero que o seu partido perca as eleições...

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  19. Mudei-me recentemente para o centro histórico de Braga por ter exactamente a mesma paixão por esta cidade que o autor deste blogue demonstra neste post. A única diferença é que eu não sou político. Neste momento não posso deixar de estar arrependido pela minha decisão de escolher este sítio para viver. A verdade é que aqui, na maior parte dos dias do ano a cidade é um deserto. As mesquitices bacocas são um contra senso em todos os momentos. Esta cidade foi completamente saqueada. Os espaços públicos agora já quase não o são. Só falta o picoto e não será por muito tempo. Tenho que pagar para poder ir para casa, agora só posso estacionar numa rua que não tem lugares e mesmo assim tenho que pagar avença, também isto foi vendidos aos amigos do costume... Podia escrever 20 páginas de coisas que só agora me apercebi. Adoro esta cidade, mas é difícil não concordar que Guimarães nos está a dar 15 a 0 em qualidade de vida. Já se torna difícil falar bem da minha cidade de sempre e da qual nunca quis sair... Parabéns. Espero que o seu partido perca as eleições...

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