terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O mapa que é mesmo de André Soares



Braga é uma cidade de sorte no que à história urbana diz respeito. Detém alguns importantes documentos cartográficos que nos permitem visualizar a cidade de outras eras, sendo uma grande base de estudo para os investigadores. A mais conhecida representação é o mapa atribuído a Braunnio, datado de 1594. Porém, detemos ainda uma outra representação da cidade nos finais do século XVII, o Mapa das Ruas de Braga, datado do ano de 1750, e o “Mappa da Cidade de Braga Primas” que tem sido atribuído a André Soares, embora alguns investigadores façam gala em persistir na dúvida.
Este mapa, que está na posse da Biblioteca Nacional da Ajuda, em Lisboa, cujos desenhos dos edifícios e a cartela onde está o título, apontam para o traço do artista do rococó, está devidamente assinado numa das extremidades. Por vicissitudes várias, já perdeu algumas partes, mas o essencial está visível. Tendo acesso a uma digitalização com qualidade razoável, dissipamos qualquer dúvida.
Sabendo nós que o arquitecto do rococó se chamava realmente André Ribeiro Soares da Silva, apesar de ter ficado conhecido pelo nome André Soares, percebemos que estamos diante de um documento da sua autoria, pois este encontra-se devidamente assinado, como a gravura da assinatura (em baixo) permite atestar. Falta o “Soares”, dado que o mapa apresenta uma falha de papel, mas o resto do nome está lá, inclusive a curva superior do “S”.
Se ainda assim subsistissem dúvidas, ao observarmos a exuberante moldura onde se insere o título do mapa, percebemos claramente os concheados assimétricos bem presentes em outras obras de André Soares, a começar pela sua primeira obra conhecida – a folha de rosto dos Estatutos de 1747 da Irmandade de Santa Cruz – e análoga às cartelas que decoram o escadório dos Cinco Sentidos, no Bom Jesus.
A outra questão que subsistia era a data em que o mapa havia sido desenhado. As hipóteses variavam entre os anos de 1755 e de 1757, prevalecendo o ano de 1756 como o mais consensual entre os bracarólogos. Um primeiro dado relevante era o facto da torre de Santiago já deter a atual configuração. Recorde-se que a  reformulação desta torre medieval, com o acrescentamento do oratório de Nossa Senhora da Torre, deu-se apenas após o terramoto de Lisboa, que aconteceu a 1 de novembro de 1755. Esta edificação religiosa, desenhada por André Soares, nasceu precisamente para agradecer o facto da cidade de Braga ter sido poupada à devastação pelo terramoto, facto associado a uma proteção divina. A outra referência que nos permite datar com maior exactidão o mapa é o convento das Teresinhas, que só terá sido construído a partir de 1756, e ainda não aparece no mapa.
O “Mappa da Cidade de Braga Primas”, que foi desenhado numa escala aproximada de 1/2000, permite perceber com alguma exatidão os principais edifícios da cidade. Em grande destaque estão as igrejas e conventos da cidade, mas também se observam com nitidez de execução os cruzeiros, a fontes e alguns edifícios civis de singular valia, como é o caso do palácio dos Biscainhos.
Quanto às edificações religiosas, o mapa fornece informações preciosas, dado que lhes dá o maior destaque no desenho das áreas e do próprio edificado. Veja-se o desenho do convento dos Remédios, localizado entre o atual largo Carlos Amarante e a antiga rua das Águas, ou do convento da Conceição, na rua dos Pelames. Uma destacada legenda com 30 números, intitulada “Templos”, completa o destaque dado às igrejas e conventos da cidade. Nesta legenda ainda figura a velha igreja de S. Pedro de Maximinos (28) e as desaparecidas capelas de Santa Ana (20), de S. Miguel-o-Anjo (27) ou de S. Lázaro (10), permitindo ainda entrever a anterior edificação do hospital de S. Marcos (9). O mapa possui uma falha de papel significativa na área nordeste da cidade, tendo-se perdido a representação de Guadalupe, Infias, Senhora-a-Branca e S. Victor, cuja referência aparece na legenda.
Entre os dados toponímicos apontados pelo mapa, é curioso verificar o nome original de Guadalupe, que era “N. S. Dagoa de Lupe”, o que faz diferenciar a origem desta devoção mariana, daquela que hoje se conhece no México. Esta denominação provém nitidamente do vocábulo “água” associado ao nome do detentor da antiga quinta do Tanque, onde hoje se localiza o Paço do Arcebispo, que se chamava Lopo de Vasconcelos Abreu Lima.
André Soares aplica ainda um particular rigor no desenho dos espaços urbanos, salientando-se a imagem que dá da Praça do Município, que estaria marginada de arcadas nos pisos inferiores dos edifícios. O mapa permite ainda, devido ao extraordinário rigor no desenho das edificações, identificar a localização de alguns fontanários, entretanto deslocados, e cuja anterior origem era constantemente posta em dúvida. Um exemplo é a fonte de D. José de Bragança, hoje colocada num jardim lateral ao campo das Hortas e cujo perfil se vislumbra à entrada da rua das Palhotas. Também a extraordinária casa de frescos rococó, hoje exposta no parque do Bom Jesus, aparece em destaque ao fundo dos jardins do Paço dos Arcebispos, localizada na fronteira com a atual rua do Castelo.
Segundo Eduardo Pires Oliveira, o mapa de André Soares pertenceu ao espólio do arcebispo D. José de Bragança, que governou a cidade entre 1741 e 1756. Algures no século XIX, esta importante cartografia da cidade de Braga foi parar a Lisboa, estando hoje à guarda da Biblioteca Nacional da Ajuda. Há conhecimento documental de um restauro do mapa, levado a cabo em 1819, que atesta que nessa altura já se encontraria deteriorado. Ocultado durante longas e penosas décadas, o “Mappa da cidade de Braga Primas” foi revelado à comunidade há alguns anos atrás, afirmando-se como documento fundamental para perceber a evolução urbana da capital minhota.
Com um menor rigor e organização que o documento coevo do Mapa das Ruas de Braga, a cartografia desenhada por André Soares permite complementar as áreas que não estavam nas mãos do Cabido e, por isso, estão ocultas do outro mapa, delineado em 1750, como o Campo da Vinha, por exemplo.
Em outros aspectos, nomeadamente no rigor cartográfico, este mapa denota algumas falhas. A igreja de S. Vicente aparece com uma orientação quase perpendicular à igreja do Carmo, algo que não se verifica na realidade. Este facto complicou o desenho da antiga cangosta da Escoura (atual rua Gabriel Pereira de Castro), que obedeceria a um traçado mais linear que o representado no mapa.
Apesar de estar devidamente tratado e catalogado, o “Mappa da Cidade de Braga Primas” é um documento fundamental para percebermos a história de Braga, por isso mesmo não se percebe porque está em Lisboa. Não deveria estar em Braga e na posse legítima dos bracarenses? Esta cartografia não deveria figurar num futuro Museu da Cidade? Não teremos nós história e espólio que baste para concretizar uma unidade cultural deste género (com centro de investigação da história de Braga, sede da revista Bracara Augusta e gabinete da autarquia para o património e história)?


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