terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Património: conversão e arrependimento


O desaparecimento da praia das Sapatas foi o caso "arqueológico" que mais deu brado

Esta domus romana ficou sepultada no prédio que preenche o lado oeste do largo de S. Paulo
O Património vai ser um dos temas marcantes da próxima campanha autárquica. Os bracarenses lentamente foram despertando para a sua história e para o vasto legado patrimonial do seu passado. Por tudo isso, há um coro que reprova em uníssono a acção dos executivos liderados por Mesquita Machado neste âmbito.
Curiosamente foi com a ascenção de um governo socialista, liderado por António Guterres, que a cultura e o património passaram a estar na ordem do dia, mas nem por isso essa paixão passou para os socialistas bracarenses. Agora, pelos vistos, há uma conversão, como no-lo comprovam os recentes discursos e o debate promovido numa iniciativa partidária recente. Todavia, para existir conversão há um pressuposto fundamental: o arrependimento.
Se a tentativa de conversão tem uma assumpção pública, então o arrependimento também deverá deter esse âmbito. Embora acreditando no desejo sincero de muitos socialistas bracarenses em face das questões ligadas à promoção e defesa do património, que garantias tenho, como cidadão de que as coisas serão diferentes com um novo líder socialista na autarquia? Como posso saber se não irão promover a destruição das poucas casas de brasileiros oitocentistas que restam em Braga, depois de terem fechado os olhos à valia de tantos exemplares patrimoniais? Como posso saber se vai ser feito algo para salvar o palacete Domingos Afonso ou o salão egípcio do sindicato do comércio? Como posso ter a garantia de que nenhum empreiteiro vai distraídamente destruir os achados arqueológicos encontrados num qualquer recanto do centro histórico? Como posso ter a certeza de que sempre que se remodelar um espaço urbano, a autarquia vai estar aberta a valorizar efectivamente o património lá encontrado e a dialogar com as associações cívicas? Como vou saber tudo isto se não existir um efectivo reconhecimento público dos erros cometidos?
Das duas uma: ou há uma demarcação clara da sombra de Mesquita Machado, e se afirma claramente onde há pretensões para agir de forma diferente; ou se afirma de vez que há uma intenção de continuidade e, então, não há legitimidade para vir defender o património, a cultura, o urbanismo ou os espaços verdes.
Não deixa de causar também estranheza esta aproximação entre a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e a Câmara Municipal de Braga, depois de décadas de divergências. Primeiro, foi a harmonia aparentada no caso do largo Carlos Amarante, em que a autarquia e o arqueólogo responsável lutaram do mesmo lado contra os cidadãos e as associações que defendem o património. Segundo, foi a condecoração municipal atribuída no Dia de S. Geraldo, em iniciativa inédita após tantos anos de meritosos serviços prestados à arqueologia em Braga, que a UAUM surpreendentemente aceitou. Terceiro, a participação de um dos arqueólogos da UAUM num debate promovido pela candidatura de Vítor Sousa.
Depois dos atrasos na ambicionada musealização do teatro romano e da insula das Carvalheiras, para além do historial de vestígios que sucumbiram em face de novas urbanizações na colina da Cividade, não se entende esta relação amistosa.

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