quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Uma cidade em torno da sua história


© Rui Pinheiro

Frequentes vezes se veicula a ideia de que Braga não estava preparada para ser Capital Europeia da Cultura, porque os bracarenses não estão suficientemente sensibilizados para estes âmbitos mais lúdicos da existência. Outra das ideias afirmadas, por quem sabe, é que falta bairrismo e amor à terra entre os nativos da capital do Minho.
O crescente interesse manifestado pelos bracarenses em iniciativas que visam conhecer e decifrar um pouco mais da sua história e identidade atestam que essa asserção não passa de um mito. Os bracarenses amam a sua cidade, são barristas quanto baste, mas foram mal habituados nas últimas décadas.
Se surgirem oportunidades de encontro com a história, os bracarenses não faltam, afinal vivem na cidade mais antiga de Portugal e num dos lugares onde há maior e melhor concentração de património, com cronologias que variam ao longo de mais de dois milénios. E não fosse a triste e recente incúria na defesa do património arqueológico e na salvaguarda das edificações oitocentistas, ou a sede progressista que grassou na classe política dos finais do século XIX e inícios do XX, e esta Braga seria hoje uma cidade ainda mais rica e valiosa no contexto nacional.
Apesar de todos os vestígios romanos já musealizados, apesar dos múltiplos templos religiosos que atravessam a história portuguesa, apesar de ter sido musa inspiradora de uma tipologia própria do rococó e apresentar monumentos singulares, Braga continua a não saber afirmar inequivocamente a sua valia. Porquê?
Não devido ao desinteresse e apatia dos seus cidadãos, nem pelo facto de uma parte da população ser oriunda de outros lugares. O problema é a ausência de uma estratégia concertada que dinamize associações e autarquias em torno da sua história. O problema é que os interesses económicos de alguns se sobrepuseram quase sempre ao interesse público. O problema é desconhecer que a história, o património e as tradições são o verdadeiro garante de uma comunidade com futuro. Se perdermos as raízes que nos unem, corremos o risco de dispersar e delapidar uma construção que demorou séculos a erguer.
Por isso, urge promover a nossa história local e criar uma cultura de defesa e promoção do legado do passado e construir sobre ele os alicerces do futuro.
Agora que a tutela das Escolas básicas passou a ser competência das autarquias, há alguma autonomia para implementar projectos educativos que visem a promoção e divulgação da história e cultura local. Penso que, dado o volume historiográfico de Braga, se justificava utilizar alguns tempos lectivos da denominada disciplina de Formação Cívica para leccionar aquilo a que gosto de chamar Bracarografia. Tratar-se-ia de cultura geral sobre a história da nossa cidade, passando pela abordagem de algumas datas, figuras e monumentos. É inadmissível ser bracarense sem saber quem foi e o que fez D. Diogo de Sousa, ou não perceber o papel de Braga na fundação do nosso país, perceber quem foi André Soares ou Carlos Amarante, porque somos apelidados de Roma Portuguesa, Cidade dos Arcebispos ou do Barroco... Também poder-se-ia aproveitar para ensinar a letra do hino da cidade de Braga, bem como promover a visita a alguns museus da cidade. 
A Universidade do Minho em conjunto com a autarquia, poderia promover uma pós-graduação em História de Braga para docentes que, vindos de outras áreas, poderiam ter aqui uma possibilidade de beneficiar de novas oportunidades.
Isto, sim, seria cultura e serviço público. 
Isto seria continuar esta história de amor – que tenho o privilégio de experimentar -entre Braga e os bracarenses!

1 comentário:

  1. Eu sugeria que, no próximo "Percursos do Barroco", se fizesse uma inquérito informal entre os participantes, para perceber quem participa por razões académicas e por motivos profissionais. Sobretudo interessaria perceber se alguém estará a participar com o intuito claro de fazer dinheiro a partir do que for aprendendo com a iniciativa.
    Porque me parece que esse "espírito empreendedor" não está a ser tão bem explorado quanto poderia.

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