quinta-feira, 11 de abril de 2013

A terceira cidade do país ultrapassou o mito

A cidade de Braga tem 124 836 habitantes enquanto Coimbra tem 96 062 (Censos 2011)
Para certa imprensa e algum senso comum, quando se fala da terceira cidade portuguesa ainda vem o nome de Coimbra à baila. Mesmo que já seja residual essa tendência, é incompreensível como é que podem subsistir dúvidas sobre a cidade detentora desse título. É Braga, sem qualquer dúvida! É e será certamente nas próximas décadas. Se muitos bracarenses, pouco dados a viagens, forem este sábado a Coimbra vão poder perceber os sinais dessa realidade.
Não é apenas em habitantes registados na área urbana - a diferença entre Braga e Coimbra já chega quase aos 30 mil habitantes - é também na quase totalidade dos restantes dados estatísticos.
Só quem nunca viveu em Coimbra nos últimos anos, ou lá foi apenas de passagem, pode afirmar que Braga lhe fica atrás em termos culturais ou económicos. Um passeio pelos arredores da cidade do Mondego indicia um cenário desolador. A montagem salazarista de transformar Coimbra no terceiro centro urbano nacional embateu na artificialidade da medida. Durante o Estado Novo, construíram-se bairros residenciais em torno desta cidade, concentraram-se indústrias de cereais e renovou-se a universidade. O impulso resultou e Coimbra ultrapassou Braga neste período. Estava alcançado o objectivo de Salazar, incrementado ainda pelo entroncamento de linhas férreas e pela centralidade nos eixos viários Lisboa-Porto. Todavia, como tudo o que é artificial foi um título efémero. As indústrias foram fechando. Outras universidades surgiram no panorama nacional. A falta de coesão social, num meio dividido entre os doutores e professores com elevado poder de compra e com residência na alta, e com a população operária que vive nos bairros da perferia, fez o resto. Uma cidade sem unidade e identidade tem sempre o futuro em risco. Apesar dos sucessivos acréscimos populacionais com gente de outras zonas geográficas, Braga consegue conservar a sua matriz minhota, festeira e espontânea, apresentando um nivel de coesão social muito significativo. Quanto a Coimbra está em nítida perda. O centro da cidade de Coimbra não detém a importância comercial do de Braga, e apresenta um elevado número de casas arruinadas. É certo que Coimbra tem rio e isso faz a diferença, mas Braga apresenta-se circundada de montanhas transformadas em aprazíveis lugares de lazer.
Mesmo em termos culturais, apenas a universidade, que reina nas áreas das letras e ciências humanas, consegue garantir alguma iniciativa. Coimbra não tem um Theatro Circo, mas apenas um Teatro Académico muito sujeito às flutuações do investimento universitário. Coimbra não tem um Bom Jesus do Monte, fenómeno barroco, ou um legado do período romano em constante descoberta. Coimbra tem alguns interessantes museus, mas já perde claramente para Braga em número de instituições culturais. Apenas na área da fotografia é, a par de Braga, a mais elevada referência nacional, com o Centro de Artes Visuais como valência fundamental.
De resto, o que vemos é uma cidade com poucos eventos, para além da Queima das Fitas. As festas da cidade não se comparam a um São João de Braga, e apenas se realizam de dois em dois anos. Lá não há fenómenos  como a Semana Santa, Rampa da Falperra, Agro, Mimarte ou algo da magnitude e mobilização local de uma Braga Romana. Braga passa-lhe a perna também no futebol, desporto que transporta consigo um mediatismo nacional e internacional incomum. O Sporting de Braga está anos-luz à frente da Briosa.
Tem efectivamente mais dormidas do que Braga, algo que se justifica na sua centralidade administrativas mais significativa que Braga - é sede de Direcções Regionais administrativas - e localiza-se no eixo Lisboa-Porto, onde mais circulam turistas. É efectivamente melhor que Braga na área da saúde e tem um maior número de estudantes universitários (cerca de mais 4 mil). Braga perde também no número de monumentos nacionais (11 contra os 25 de Coimbra), mas em compensação esmaga no número de Imóveis de Interesse Público (31 de Braga contra 14 de Coimbra).

É inquestionável, hoje, o lugar de Braga no contexto nacional. Destacou-se claramente em termos demográficos - ocupa o lugar n.º 7 e é o único município fora das áreas macrocefálicas de Lisboa ou Porto nos 14 maiores - e consegue ter vida económica própria, atraindo durante o dia pessoas dos municípios vizinhos. Não é dormitório de nenhuma cidade, ao contrário de Vila Nova de Gaia, Sintra, Loures ou Cascais, que estão à sua frente em termos demográficos.
Braga afirma-se sozinha, e deve aproveitar esta grande distância para Coimbra, Setúbal ou Funchal, para se afirmar definitivamente como o terceiro maior polo urbano nacional. Nunca a distância foi tão grande para as suas tradicionais rivais...

5 comentários:

  1. Não posso deixar de destacar alguma parcialidade na comparação entre as duas cidades, ainda que não sejam esquecidas alguns pontos em que Coimbra nos é superior.

    Eu destacaria só mais três pontos, 1 de opinião e outros 2 não:

    - Coimbra tem, apesar do "industrialismo", uma zona urbana pericentral mais bem organizada e mais airosa do que Braga, com vários pontos-chave da cidade (por exemplo o estádio, o hospital, etc) bem conectados entre si, ao contrário do que acontece em Braga onde conexão entre os pontos-chave está feita à imagem de uma cidade muito dependente de carro como transporte (pensemos no estádio, no hospital, etc) - esta é a minha opinião, vale por si.
    .
    - Coimbra tem, de longe, muito mais utilizadores de transportes públicos (26 milhões anuais da SMTUC contra os 11 milhões da TUB) - facto - o que poderá reflectir um melhor serviço e uma cidade mais funcional.
    - Coimbra tem ficado sempre à frente de Braga no que diz respeito aos estudos da DECO, e não só, sobre a qualidade de vida (estudos incluem uma série de pârametros) - facto.

    Realçando mais uma vez que se trata de uma opinião, penso que o único ponto onde Braga se destaca verdadeiramente em relação a Coimbra é no centro mais movimentado e dinâmico que tem, durante o dia (de noite Coimbra não fica nada atrás, muito pelo contrário).

    P.s. Não levem a mal, bracarenses, o que acabaram de ler. O meu objectivo é a perspectiva imparcial e não o rebaixamento insensato. Até porque sou bracarense e vou gostando e lutando por esta cidade...

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  2. Caro Vítor, agradeço o comentário "imparcial".
    Acrescento alguns aspectos.
    Se os critérios que apontou fossem determinantes para classificar qual a terceira cidade do país, então nem Lisboa, nem o Porto estariam - e seriam reconhecidas - como a primeira e a segunda.
    O maior critério é naturalmente o número de habitantes (não apenas os que lá dormem...) e o segundo maior será o tamanho da área urbana. Ora, Braga tem vida económica própria e tem muito mais população do que Coimbra e do que todas as cidades médias portuguesas. Nesse sentido, não restam quaisquer dúvidas. Podemos sempre arranjar argumentos para dizer o que nos convém e apontar as muitas fragilidades que, como sabemos, existem em Braga, essas sim frutos de falta de visão política. Quanto ao centro mais diNâmico de Coimbra, apenas ganha a Braga pelo facto de ter a Universidade instalada no centro, todavia o seu aspecto é uma lástima. Faltou ainda falar no índice de poder de compra per capita, onde também ficamos atrás de Coimbra...
    No fundo, recuperamos o título, não apenas devido à maneira de ser da gente do Minho, mas graças ao impulso dado pela Universidade do Minho e pelo crescimento urbanístico incomum,que possibilitou a existência de uma oferta habitacional extraordinária...fruto de uma questionável amizade com empreiteiros.

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  3. Mais uma coisa: Coimbra candidata a património mundial. Como historiador devia saber e interessar-se por isso.

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  4. Que raio de polémica é esta? Estar a lutar por esta vã glória serve para quê? O orgulho tonto e bairrista? Eu gosto bastante deste blogue quando trata a história da minha cidade, mas quando se mete nestas polémicas tontas não sei o que pensar. Julgo que o Rui Ferreira possui formação científica em história, julgo perceber que quer apostar na investigação na área e espero que perceba que para tal precisa de perder os tiques panfletários que o prejudicam, tal como o exacerbado clubismo. Há em si uma tendência natural para a polémica e exagero das qualidades das causas que escolhe que precisa de dominar. Espero que me perdoe e aceite a opinião.

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    1. Caro Filipe, aceito naturalmente críticas e sugestões, desde que sejam feitas com elevação. Quanto à polémica, limito-me a defender os meus pontos de vista, que naturalmente colidem com pontos de vista diferentes. É a vida. Este é um blogue pessoal, que naturalmente parte de uma mundividência própria.
      Jamais deixarei de defender que o Braga deve ser apoiado por todos os bracarenses, mesmo que sejam adeptos de outros emblemas ou de efectivamente atestar e justificar um dado, que ainda recentemente foi posto em causa numa reportagem questionável do JN, como é o facto de sermos a terceira cidade de Portugal. Estas opiniões incomodarão muita gente seguramente. Esse é o risco de aceitar dar a cara pelo que penso.
      Saudações bracarenses

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