segunda-feira, 29 de abril de 2013

Cabeceira da Sé Primaz: o legado dos biscainhos

Gravura de Charles Legrande (1839-47)


Nenhum bracarense ou visitante desta augusta urbe consegue ficar indiferente perante a monumentalidade da cabeceira da Sé de Braga. Se é certo que a catedral bracarense possui inúmeros motivos para um panegírico, este será porventura um dos principais.
Proclamada entre as muitas iniciativas levadas a cabo por D. Diogo de Sousa (1505-1532), arcebispo que refundou a cidade de Braga e que deixou a sua marca bem vincada em diversos espaços da catedral, a cabeceira da Sé localiza-se na antiga rua de Trás das Oussias (ou Oucias), cujo significado provém precisamente de “ábside”, que designa as plantas arqueadas que marcava a zona anterior das catedrais românicas. A hoje denominada rua de Nossa Senhora do Leite, de traçado irregular ao sabor medieval, é também lugar provável de um templo romano dedicado à deusa Isis, cuja ancestralidade fez nascer a catedral. Estamos, portanto, num lugar da história!
A ideia de recriar a estrutura da capela-mor terá surgido logo na primeira visita que D. Diogo de Sousa efetuou à sua Sé. Diz-nos o arcebispo e historiador, D. Rodrigo da Cunha, que este achou a capela-mor “piquena” para tão grande corpo e para os tão solenes Pontificais que nela se celebravam. Por isso mesmo, uma das primeiras obras do arcebispo D. Diogo vai ser precisamente a reformulação da capela-mor da Sé, empreitada que vai entregar ao mestre João de Castilho e cuja execução vai caber a artistas provenientes da Biscaia, que o povo vai batizar de biscainhos.
Terminada em 1509, como assinala uma lápide voltada à rua de Nossa Senhora do Leite, a cabeceira da catedral bracarense trouxe consigo uma particular inovação: a primeira cobertura pétrea de nervuras curvas que se fez em Portugal. Para além do que ainda hoje é possível observar no interior da capela-mor, fora elaborada um grande retábulo em pedra de ançã, do qual só resta hoje o frontal de altar, devido à destruição de que foi alvo durante a prelazia de D. Gaspar de Bragança (1758-1789).
Mas voltando ao exterior, cuja temática hoje nos ocupa, destaca-se com particular relevo a decoração rendilhada que coroa a estrutura da capela-mor. No coroamento da platibanda, encobrindo o telhado, observa-se o rendilhado tardo-gótico, quebrado pela existência de gárgulas, que servem para escoar a água dos algerozes. Entre outros artísticos pormenores, decorados ainda ao modo plateresco, destaca-se um monumental janelão emoldurado entre correntes e floreados de pedra, que serve de luminária à capela-mor. Um pouco abaixo está colocada, por entre um interessante nicho, a imagem de Nossa Senhora do Leite, escultura renascença em pedra de ançã, saída do génio do francês Nicolau de Chanterene. Esta imagem mariana, particularmente cara às gentes de Braga, encontra-se ladeada pelos brasões em grande escala do arcebispo D. Diogo de Sousa e do monarca que reinava à época, D. Manuel I.
Para quem pensar que a rua de S. João, que desemboca precisamente na cabeceira catedralícia, já lá estava quando os biscainhos arrancaram esta notável obra do granito, sentir-se-á defraudado ao deparar-se com o facto de a rua ter sido aberta precisamente para dar ênfase à obra concretizada em 1509. A rua foi mandada abrir pelo mesmo arcebispo em 1512, tal como nos informa D. Rodrigo da Cunha, para ligar a catedral à porta de São João, que fazia o trânsito para a estrada de Guimarães. De forma que os viajantes, ao entrarem na urbe arquiepiscopal através desta porta, pudessem vislumbrar a grandiosidade da Sé Primaz, a rua de S. João foi delineada para ficar devidamente enquadrada com a cabeceira da catedral.  
Nesta rua haveriam de fixar-se duas das mais importantes figuras da cidade: o Deão do Cabido, D. João da Guarda, e o Provisor do Arcebispos, D. João de Coimbra. O primeiro habitava na casa que atualmente designamos de Passadiço, e o segundo na manuelina casa dos Coimbras, entretanto colocada no lado oposto à posição originária. A casa da Roda, de traça aparentemente florentina é outro dos testemunhos dessa época. Esta artéria tornou-se tão relevante na vida da cidade que ajudou a conferir nova utilidade à porta de São João, ou porta Orienta, mencionada pelo menos desde 1210 e que terá sido reconstruída por D. Diogo de Sousa. Até à abertura da rua D. Afonso Henriques e do largo de São João do Souto que, no último quartel do século XIX, reduziu a rua de S. João a metade da sua extensão, por aqui passavam todas as procissões e demais celebrações realizadas no perímetro da cidade, tendo existido até um dos passos da Semana Santa na parede traseira da catedral, como a alvura da pedra não deixa enganar.

2 comentários:

  1. E daqui se depreende o íntimo diálogo e conexão entre a cabeceira da Sé e a capela dos Coimbras.

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