terça-feira, 2 de abril de 2013

D. Frei Agostinho de Jesus: o prelado que não merece o anonimato

A história de Braga, como sabemos, fica marcada pela ação dos sucessivos arcebispos que ocuparam o sólio bracarense entre o século XI e XVIII. O facto da nossa cidade ter sido, até 1792, um senhorio eclesiástico tornou os seus prelados verdadeiros governadores desta cidade. Por isso mesmo, muitos são recordados pelos seus méritos. Como não lembrar o nome de D. Diogo de Sousa,
D. Rodrigo de Moura Teles ou mesmo de D. Frei Caetano Brandão? Todavia, alguns, apesar da grandeza da sua ação, permanecem incompreensivelmente no quase total anonimato. É o caso de D. Frei Agostinho de Jesus, que foi arcebispo de Braga entre 1588 e 1609.
Oriundo da alta nobreza lisboeta, cidade onde nasceu em 1537, foi batizado como Pedro de Castro. Entrado, em Coimbra, para a ordem dos eremitas de Santo Agostinho, aos 17 anos, alterou o seu nome para Agostinho. Desde jovem se destacou dos demais membros da sua ordem, sendo nomeado superior de várias comunidades e assumindo, mais tarde, o mais elevado cargo da sua ordem em Portugal. Nomeado pelo Papa Gregório XIII para auxiliar os conventos alemães nas “batalhas” contra o luteranismo, veio a alcançar grande fama. Em 1588 foi nomeado Arcebispo de Braga, estando a sua ação relatada na “História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga” (1634), escrita por
D. Rodrigo da Cunha.
Recordemos que o arcebispo-historiador, descreve a ação de D. Frei Agostinho de Jesus pouco mais de duas décadas após o seu falecimento, facto que confere credibilidade ao relato.
Em Braga, para além da sua ação social e espiritual, pormenorizadamente descrita por D. Rodrigo da Cunha, D. Frei Agostinho vai ficar vinculado a alguns importantes monumentos da nossa cidade, bem como aos seus principais espaços públicos, como o campo dos Touros (praça do Município) que terá sido mandada abrir por sua iniciativa.
O campo da Vinha vai ser dotado de dois dos seus edifícios mais marcantes: o convento do Pópulo e o convento do Salvador.
O primeiro vai ser fundado de raiz, em 1596, dotando a cidade de um convento de frades da ordem religiosa à qual pertencia. O segundo resulta da transferência das freiras beneditinas do convento de Vitorino das Donas, em Ponte de Lima, para Braga, no ano de 1602.
Apesar do seu nome não ficar vinculado a nenhuma obra de relevo na catedral, a si se deve a segunda sagração da Sé Primaz, segundo se conta por se desconhecer a existência de uma primeira sagração do templo. Desta forma, no dia 28 de julho de 1592 se procedeu a uma solene sagração da Sé, tendo este facto ficado assinalado numa lápide que ainda hoje se vislumbra na galilé da catedral.
À imagem do seu antecessor D. Diogo de Sousa, vai fazer obras no paço, acrescentando uma nova ala à vertente deste palácio voltada para a rua do Souto, onde o seu brasão está bem gravado. Datada de 1593, esta nova ala é conhecida como galeria, pelo facto do seu piso térreo assentar sobre colunas. Apesar desta construção ter sido alterada aquando das intervenções de D. Rodrigo de Moura Teles, o essencial permaneceu inalterado.
A si se deve também a construção dos açougues da cidade e uma melhoria significativa dos aposentos destinados aos mercadores, que se situavam no local da atual arcada.
Este facto provavelmente é sinónimo da vitalidade económica de que a cidade gozava por esta altura, facto confirmado pelo desenho do mapa de Braga em 1594, atribuído a Braunio. Uma cidade sem importância comercial, jamais seria integrada numa obra em que eram representadas as principais cidades do mundo civilizado.
Sabe-se também que este prelado se preocupou com o abastecimento de água na cidade, tendo sido o responsável por cinco novos chafarizes. Um foi colocado na Porta do Souto (ver caixa inferior); outro no Campo das Hortas, de que se desconhece o rasto; outro em S. Vicente – talvez seja o que está colocado junto à igreja(?); um outro na coutada dos Arcebispos, que pode ser admirado no parque da Ponte; e mandou refazer a fonte da rua Nova, a partir de uma outra do tempo de D. Diogo de Sousa, observável hoje em forma de portada, no mesmo lugar.
D. Rodrigo da Cunha sintetiza a ação deste prelado dizendo que «fez tantas outras obras, que por elas mereceu dizer-se que D. Diogo de Sousa pudera fazer de Braga cidade, mas D. Frei Agostinho fizera dela corte». Não poderia ter-lhe feito maior elogio!

3 comentários:

  1. Sugiro um artigo muito interessante, que analisa a acção política de D. Agostinho e o projecto de propaganda que o mapa de Braun constitui:
    http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/5204/2/ULFBA_IMAGEM%20E%20IDENTIDADE%20URBANA.pdf

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  2. ESTA DE PARABÉNS O POIS FAZ UMA BELA SÍNTESE DA VIDA DESTE GRANDE ARCEBISPO DE BRAGA. TENHO BASTANTE INTERESSE EM CONHECER MELHOR A NOSSA HISTÓRIA, POIS ENTENDO QUE É UM BOM LENITIVO PARA OS TEMPOS QUE ATRAVESSAMOS. BEM SE DIZ QUE A HISTORIA É MESTRA DA VIDA.
    LUÍS MACEDO

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  3. Não será despropositado pensar que terá sido aquando das deambulações pela Alemanha que Frei Agostinho contactou com Georg Braun e o seu projecto. Lembre-se que Braun era um padre católico, cónego da igreja Sta. Maria ad Gradus, em Colónia.

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