domingo, 14 de abril de 2013

MAIOR AO DOMINGO: Ricardo Silva


De novo, chorar as pedras da calçada!

Há cerca de um mês, escrevi, no jornal Correio do Minho, um texto sobre a forma de valorizar uma cidade, a partir dos seus elementos históricos, arquitectónicos e/ou arqueológicos.
Ao mesmo tempo que induzia numa reflexão pessoal sobre a forma como foram desvalorizadas as calçada s e as guias de granítico rústico, que formavam passeios toscos, mas robustos, encarava o programa “A Regenerar Braga” como um engodo na sua materialização, dado que quase todas as intervenções rapidamente apresentaram falências, tendo, quase todas elas, lajes de granito partidas, devido:


  • à fragilidade do material;
  • à falta de estudos de engenharia que garantissem que aquele material estava preparado para suportar o peso dos automóveis (ligeiros e pesados- de transporte ou de mercadorias);
  • à sua má colocação, em suporte não rígido, o que criou uma falsa plataforma de assentamento;


Às primeiras pedras partidas, as empresas responsáveis pelas intervenções lá foram substituindo o material. Primeiro uma pedra, depois duas pedras e por aí adiante;

Às primeiras pedras partidas, dada a indignação dos transeuntes, as empresas reparavam o problema num tempo recorde, ora uma manhã, ora um dia!

Mas os cidadãos continuam admirados…como é que é possível locais que foram regenerados há 3 e 4 meses terem materiais tão frágeis e estarem constantemente a ser reparados?! Afinal, com financiamentos da Europa, ou com dinheiro dos cofres municipais, é verdade que estamos a falar de dinheiro, sobretudo numa altura de grande contenção.

Para cada voz que se erga a reclamar soluções definitivas nas obras do “Regenerar Braga”, há aquela famosa argumentação de que “ as obras estão em período de garantia, logo compete às empresas substituir o material”.

Mas, se a empresa construtora afirmar que somente está a colocar o material que havia sido especificado em caderno de encargos de obra, logo, se está a cumprir os pontos do contrato, a empresa não tem que proceder à substituição do material. Ora, se o problema não está na materialização, logo, deve estar na elaboração do projecto.

Se o projectista propôs um determinado tipo de material para colocar nas intervenções, olhando para a estética, e esquecendo o funcional e a prática quotidiana, então o erro da obra está, desde logo no dia em que começou a ser desenhada.

E se houve algum concurso externo, público, para projectar os desenhos dos locais do “Regenerar Braga”, então o Município deve pedir responsabilidades aos gabinetes de arquitectura; Mas se a solução foi caseira, recorrendo a recursos internos da Câmara Municipal de Braga, então, os técnicos têm de ser chamados à razão e voltar a rectificar o projecto.
Mas, em todo o caso, os locais das intervenções continuam com as pedras partidas, com fragmentos soltos e buracos enormes que criam perigo à segurança pública.

E quem paga estas reparações? O dinheiro dos contribuintes…

Mas, calamitosamente, as reparações começam, cada vez mais a tardar, demorando não uma manhã ou um dia, mas esperando a definição temporal.

As pedras partidas, já não são substituídas por lajes novas, mas sim por alcatrão.
Agora, em vez de termos passadeiras com lajes limpinhas e brilhantes, temos direito a um remendo em alcatrão negro que, juntamente com as lajes que ainda resistem, parecem formar um tabuleiro de xadrez.

E, afinal, será que era isto que estava contemplado no caderno de encargos, ou será que era isto que estava especificado no período de garantia de obra?

Será solução definitiva? Vamos ter de aguentar o alcatrão nas praças e largos da cidade?

E porque é que a CMB não apura responsabilidades ou assume erros? E a oposição, porque não se insurge contra esta forma de proceder nas intervenções em espaços públicos?

É porque esta situação já não é nova e é, aliás, repetida. Na intervenção na Rua D. Afonso Henriques, há 4 ou 5 anos atrás, também substituíram as pedras robustas e rústicas, por lajes todas “bonitinhas” e assim que o primeiro autocarro passou por ali, fracturou aquelas lajes “bonitinhas”. Solução da CMB…remendar com alcatrão que ainda hoje lá está.

Ou seja, há um padrão de execução nas obras públicas em Braga e eu, como cidadão, sinto-me defraudado. Ou bem que corrigem as situações com material e aprendem a projectar desenhos de obras e a assentar material, ou então assumem, de uma vez por todas, que os espaços públicos serão todos alcatroados, para dar coerência à ausência de espaços verdes.

E depois queixamo-nos que Braga é uma cidade quente…vamos ver como vai a cidade reagir este Verão, se vierem temperaturas altas. Além do mais, convém relembrar que Braga tem um imenso manancial de água e fontes públicas, as quais estão quase todas secas (inexplicavelmente). As poucas que brotam água têm placas a dizer “Não controlada” ou “Imprópria para consumo”!

Desejo que o espaço público possa ser um espaço para todos nós e não um campo de experiências individuais, ou delírios colectivos, que se sustentam a partir dos dinheiros públicos, irracionalmente geridos.

Porque se assim continuar, voltaremos a carpir mágoas, e voltaremos, de novo, a fazer chorar as pedras da calçada.

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