terça-feira, 16 de abril de 2013

Praça Municipal: o antigo campo dos Touros


A praça Municipal, mais conhecida como praça do Município, é um dos mais nobres espaços urbanos de Braga. Deve o seu nome ao facto de aqui se localizar, sensivelmente desde 1754, o edifício do Senado Municipal, outrora sediado defronte da Sé, num edifício tardo gótico, demolido em 1769.
Esta praça, que nasce nos antigos terrenos do paço dos Arcebispos, foi mandada abrir pelo arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus, no final do século XVI. Aliás, no famoso mapa de Braga referente ao ano de 1594, a praça Municipal já aparece definida com a atual área. Na mesma cartografia está gravada a inscrição latina “Campus Archiepiscopi ubi ludi equestres exercentur”, que quer dizer “Campo do Arcebispo, onde se realizam jogos equestres”. Este dado indicia, não apenas a sua primeira denominação – Campo dos Arcebispos – como também a sua funcionalidade: a realização de jogos equestres. Teria, portanto, nos seus limites, cavalariças, conforme nos confirma o cronista bracarense Inácio José Peixoto século e meio depois, e também um forno destinado ao fabrico do “pão dos pobres” e para os “oficiais da fornaria”.
A partir do momento em que passa a ser utilizado como espaço público, esta praça permitia o acesso direto ao Campo da Vinha, a partir do postigo de Santo António, que se situava a limitar a rua homónima hoje existente. Esta passagem das muralhas fernandinas, demolida na primeira metade do século XIX, foi construída presumivelmente para permitir uma ligação direta entre o antigo Seminário de S. Pedro, localizado no Campo da Vinha, e o interior da cidade.
Vai ser, todavia, com a chegada de D. José de Bragança, arcebispo entre 1741 e 1756, que este espaço vai ganhar importância, tornando-se, por esse tempo, na mais importante praça da cidade, por nele serem instalados os dois edifícios referência do poder: o Palácio do Arcebispo (1751) e a Câmara Municipal (1753-55). Estes dois exemplares barrocos saíram do génio de André Soares, o arquiteto do Minho que vai marcar, para sempre, a fisionomia desta praça. Era uma praça barroca por excelência!
Ao contrário do que se costuma dizer, não foi este prelado quem trouxe de Lisboa a tradição das touradas. Inácio José Peixoto, seu contemporâneo, desfaz este mito.  A designação desta praça como Campo dos Touros é anterior à chegada deste prelado. As corridas de touros já se efetuavam em Braga, pelo menos desde o século XVI, sendo um evento obrigatório na maioria dos festejos estatutários da cidade. Isso mesmo confirmam as atas do Senado, referentes ao último quartel do século XVI. Por tradição sabemos que era nesta praça que se realizam as mesmas corridas, e daí o nome popularmente corrente de “campo de touros” ou “campo dos touros”, como vem referido no Mapa de Braga Primaz, do ano de 1755.
Neste mapa, importante documento para percebermos a fisionomia deste espaço urbano, podemos percecionar com nitidez os edifícios que compunham o seu lado norte, apresentando-se com uma interessante configuração completada com galerias nos pisos térreos. Estes espaços, curiosamente, foram mandados fechar pela autarquia no século XIX. Segundo nos informa Inácio José Peixoto, durante a prelazia de D. José de Bragança estes edifícios foram construídos para acolher familiares do arcebispo, que terão permanecido na cidade após a sua morte. Mais tarde, D. Frei Caetano Brandão vai ocupar uma das habitações para instalar aquela que foi a primeira versão do colégio dos órfãos de S. Caetano, hoje em Maximinos. Infelizmente das construções do lado sul da praça pouco se sabe, apesar de ainda hoje apresentar algumas marcas setecentistas.
Nos anos seguintes um outro dado vai marcar decisivamente o futuro deste espaço urbano. Segundo se supõe, por intermédio do arcebispo D. Gaspar de Bragança (1758-1789), que mandou demolir os alpendres onde se efetuava o comércio na cidade, decidiu reunir na praça Municipal os vários mercados existentes pela cidade. À exceção do peixe, que vai ficar instalado junto à fonte da Cárcova (largo de S. Francisco), os restantes géneros vão passar progressivamente a ser comercializados nesta praça, que se transforma num grande mercado ao ar livre, confirmando a sua importância no quotidiano dos bracarenses. Nesta sequência, em 1878 vai ser-lhe acrescentada uma cerca e um pavilhão, e, a partir de 1915, vai entrar em funcionamento um mercado coberto, que perdura até 1955.
Em 1866 um terrível incêndio vai consumir a quase totalidade do antigo palácio mandado edificar por D. José de Bragança, onde estava instalado, à época, o Governo Civil. Desde aí a ala norte e central deste edifício barroco vão apresentar-se arruinados, até que o Estado Novo vai empreender a reconstrução total do antigo paço arquiepiscopal. A praça era ainda marcada por um espaço de culto, dedicado a Santo António e que era muito frequentado. A capela de Santo António da Praça, que se localizava no topo oriental desta praça, vai ser desmantelada em 1949, para permitir a abertura da atual rua Eça de Queirós. Esta devoção foi entretanto transferida para uma capela lateral da igreja do Pópulo.
A praça teve, ao centro, durante mais de dois séculos, uma fonte barroca, que hoje está colocada na praça do Comércio, no interior do atual mercado municipal.

Em 1915, sendo presidente da câmara Lopes Gonçalves, após a demolição do antigo pavilhão, foi construído um grande mercado coberto em ferro, da autoria de João Moura Coutinho, o “arquiteto” que projetou o Theatro-Circo, o Banco de Portugal, o Turismo ou a fachada da igreja do Carmo. Apesar de ser um exemplar arquitetónico muito interessante, o mercado não se enquadrava na praça, dado que reduziu um espaço urbano de particular beleza, a quatro ruas, definidas pelos limites do mercado. Este facto, talvez, tenha precipitado a sua demolição e posterior transferência para um novo edifício na praça do Comércio, inaugurado em 1955. Após esta data, foi devolvida a dignidade à praça Municipal. O espaço ajardinado atual data dessa data, sendo que a atual configuração deriva da colocação da fonte do Pelicano em 1967, chafariz joanino que pertenceu ao antigo paço arquiepiscopal e que chegou a estar no parque da Ponte, colocado ao centro em substituição do mastro onde era colocada a bandeira da cidade.

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