segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma homenagem de Braga a "nuestros hermanos"

Trata-se de um pormenor existente na cabeceira da Sé de Braga, visível aos olhos mais perspicazes na rua de Nossa Senhora do Leite, mas traseiras da catedral. Os artistas biscainhos contratados pelo Arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-32) para refazerem a capela-mor da catedral, deixaram aos vindouros uma obra notável, onde surge destacadamente a imagem de Nossa Senhora do Leite. No coroamento da platibanda, encobrindo o telhado, observa-se o rendilhado tardo-gótico, quebrado pela existência de gárgulas, que servem para escoar a água dos algerozes. Ora, sendo típico deste tipo de esculturas o escoamento da água pela boca, há uma das gárgulas que surpreende por fazer brotar a água, não pela boca, mas pelo ânus.
Trata-se de uma figura infernal, a fazer lembrar um diabrete, que se aponta a Castela (quando digo Castela, refiro-me mesmo a Espanha...). Uma gracinha quinhentista para com nuestros hermanos, que passa incólume à maior parte dos trausentes.

2 comentários:

  1. Conviria assinalar que é republicação:
    http://bragamaior.blogspot.pt/2011/11/braga-homenageiaespanhois.html

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  2. Diz Catarina Barreira:
    «No que concerne aos “rabo-ao-léu” temos sete gárgulas: Matriz de Caminha, Sé de Braga, Matriz de Azurara, Matriz de Escalhão, Sé da Guarda, Alcobaça e no Castelo de Pinhel. Em termos geográficos, esta temática só aparece no litoral Norte e no interior Centro. Invertem por completo toda uma tradição figurativa, pois a fronte da figura humana está virada para dentro, (Guarda) ou para baixo (outros núcleos) e exibem a traseira nua, de cócoras ou a fazer o pino, expondo bem o ânus (embora
    também sejam visíveis os órgãos genitais masculinos). E é pelo ânus que as águas pluviais são escoadas. A representação do sujeito passa agora pelo inverso do rosto, pelo seu contrário, ou seja, por um aspecto comum ao ser humano, ao invés de o individualizar.
    Este aspecto grotesco também pode ter uma interpretação bélica, pois a gárgula da Sé da Guarda, de Pinhel e de Escalhão estão viradas para Espanha e articulada com gárgulas – canhão. A exposição anal teria, muito provavelmente e neste contexto em particular, um carácter de desprezo e sublinha bem a importância do gesto na sociedade medieval e, como diz o
    ditado: “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento.” Nos outros núcleos, tendo em conta a distância geográfica e a nacionalidade dos imaginários, não cremos que a sua colocação tenha sido motivada por esta noção, mas muito mais ligadas à noção de mundo-às-avessas».

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