quarta-feira, 22 de maio de 2013

A porta e a paróquia de S. João do Souto



Como sabemos, a cidade de Braga, na segunda metade do século XIX, foi alvo de uma série de transformações urbanísticas que lhe tolheram a feição medieval.
As exigências das modernas habitações, bem como a necessidade de criar espaços de circulação mais largos, serviram de motivação para que fossem destruídas ou descaracterizadas muitas das artérias de origem medieval, bem como uma parte das habitações mais antigas. O centro histórico de Braga é hoje quase uma recriação oitocentista. No meio desse ímpeto reformista foram ainda destruídas as portas que restavam da cintura medieval.
Uma das mais importantes era a porta de S. João, que se localizava – como indica a gravura – na passagem do atual largo de S. João do Souto para o largo Carlos Amarante. Esta porta, demolida em 1867, terá sido reconstruída a mando de D. Diogo de Sousa (1505-32), aliás, segundo o testemunho de D. Rodrigo da Cunha, terá sido este mesmo prelado a mandar abri-la. Todavia esta porta, conhecida então como porta Orienta, já aparece mencionada documentalmente pelo menos desde 1210.
Esta porta terá sido construída no século XIII, mas deve a sua relevância à abertura da rua de S. João, que ligava a igreja paroquial de S. João do Souto à cabeceira da Sé e à urbanização extra-muros e posterior abertura do campo dos Remédios, onde em 1534 vai surgir o convento que lhe deu o nome. Estas iniciativas, promovidas pelo mesmo arcebispo D. Diogo, vão contribuir para transformar esta porta numa das principais passagens da muralha medieval, até porque dava acesso direto à estrada de Guimarães.
Quanto à porta, o que sabemos é o que esta gravura do século XIX deixa entrever. Era de pequena estatura, tendo um arco pouco desenvolvido, sobre o qual existia um nicho com a imagem de Nossa Senhora. Com o derrube desta porta, a Câmara Municipal de Braga pôde abrir a rua D. Afonso Henriques e o largo de S. João do Souto, o que obrigou à descaraterização da rua de S. João, de que falamos anteriormente, e a uma parte das ruas medievais do chamado bairro das Travessas.
Contudo, ainda não fizemos referência à designação da porta: São João. Este orago deve-se à proximidade com a paróquia homónima, que é a mais antiga da cidade de Braga.
A origem da paróquia de S. João do Souto recua ao ano de 1150, quando um casal devoto, Pedro Ourives e sua mulher Elvira Mides, doaram à Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém, na pessoa do arcebispo D. Paio Mendes, uma igreja por eles construída em honra de S. João Batista, orago motivado pela instituição donatária.
A Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém era uma ordem religioso-militar fundada em Jerusalém após a primeira cruzada. A sua fundação remonta à instituição de um hospital para peregrinos naquela cidade por volta de meados do século XI. Até meados do século XII, esta ordem dedicou-se essencialmente ao acolhimento e assistência a peregrinos, tendo depois desempenhado funções militares ao serviço dos reinos cristãos europeus. A sua estadia em Braga foi curta, mas serviu para legar à cidade uma devoção que vai acabar por marcar o quotidiano dos bracarenses para sempre.
Entretanto, no ano de 1161, já existem referências ao facto deste templo ter sido elevado à categoria de sede paroquial. O território desta paróquia, tão precocemente erigida numa urbe ainda a reerguer-se após o abandono parcial ocorrido durante a ocupação mudéjar no território acima do Douro, teria apenas quatro ruas, algumas das quais alcançaram posteriormente uma particular relevância, como é o caso da rua do Souto.
Segundo se supõe, a paróquia esteve sempre sediada no atual local, contudo existem referência dúbias a este respeito. Diz-nos Senna Freitas, citando uma “tradição mais constante”, que a confraria de S. João do Souto seria mais antiga que a própria paróquia e teria estado sediada em uma ermida que estava no castelo de Braga, da qual subsistiriam ainda vestígios no século XVIII. Estes dados são confirmados nas “Memórias Paroquiais de 1758”, onde se refere precisamente que foi apenas durante a prelazia de D. Diogo de Sousa, que a igreja mandada fundar por Pedro Ourives se transferiu para o atual local. Este dado, contudo, não é devidamente desenvolvido nos trabalhos do medievalista José Marques, e é contraditado pelo facto da porta da muralha medieval, localizada junto à sede da paróquia, deter precisamente o nome de São João, confirmando a proximidade com o templo homónimo, e também apoiada pelos dados documentais coevos que localizam a igreja junto à primitiva muralha medieval da cidade.
A atual igreja resulta de uma profunda reformulação ocorrida na segunda metade do século XVIII, destacando-se, por óbvias razões, a capela dos Coimbras, exemplar tardo-gótico que lhe foi adossado no início do século XVI.

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