segunda-feira, 6 de maio de 2013

Braga, a segunda Paris de Camilo Castelo Branco



Camilo Castelo Branco fez de Braga inspiração para os seus irónicos romances
A cidade santa de nossos pais e dos cónegos, a esposa de Fr. Bartolomeu dos Mártires, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamou segunda Paris. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando ali me vejo no Café Faria , a sentir-me arquejar em uma das arté­rias do grande corpo da civilização chamada Europa, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua Guia do Viajante em Braga, por seis vinténs. Tudo me leva à persuasão de que me acho na segunda Paris, quando a Guia me assevera com exactidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de causas, e que aí (pág. 28) os barbeiros superabundam. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Paris com a super­fluidade dos barbeiros!
A categoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Aí, é aí onde o viajante se sente saturado de Paris, a ponto de, cuidando que acorda alvoroçado pelas campainhas eléctricas do Grande Hotel no Boulevard des Capucines, achar-se em Braga, no hotel Aveirense, largo dos Penedos. Avantajam-se ainda às hospedarias parisienses, no ponto de vista zoológico, os hotéis da princesa do Minho. Os forasteiros dados a pesquisas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação razoável, passar as suas noites em vigílias úteis estudando insectos sem queixos e sem asas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes oferecem exemplares em barda da pulga braguês ( Pulex bracharensis ). Convencer-se-á que as seis pernas deste parasita são desiguais, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que ele tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na base de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que têm asas, que realmente não têm as do Hotel Leão d'ouro nem as do Hotel transmontano . Encontram-se nestes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cilíndricas e sem pernas.

In: "O Comendador", Camilo Castelo Branco (1875)

Sem comentários:

Enviar um comentário