domingo, 26 de maio de 2013

MAIOR AO DOMINGO: João Tinoco


Os Judeus do Bom Jesus
Por nascimento sinto o Bom-Jesus do Monte como parte de mim. É o local da minha vida o sítio onde estou bem e ao qual está ligado o meu sentido de pertença. Pertenço ao Bom-Jesus e ele faz parte de mim.
Por esse motivo sou um leitor compulsivo de tudo aquilo que muitos escreveram e escrevem sobre esta magnífica estância, que me chega às mãos ou que eu procuro que chegue.
Ora nessas saborosas leituras, mais que um autor faz menção a uma frase de Ramalho Ortigão, no seu Guia de Portugal, em que diz descrevendo as figuras das capelas: “Os grupos policómicos em barro, representando sucessivos passos da paixão no interior das capelas são indubitavelmente abomináveis.”
Esta frase intrigou-me, porque lidando eu desde muito novo com o figurado das capelas, criando com ele uma relação afetiva de amor e ódio conforme o papel que a imagem representa naquela magnífica via crúcis, que com os “judeus” chegou até a ser violenta ao ponto de com uma pedrada tirar um olho ao centurião que com uma corda puxa a cruz da capela do caminho do calvário, nunca achei as imagens assim tão feias que pudessem ter aquele epíteto de abomináveis.
Tirei-me aos meus cuidados e mais uma vez subi os escadórios com olhos de vêr. Vi e revi novamente as imagens uma a uma, desde a Última Ceia à Ascensão. Senti as mesmas emoções perdidas da meninice. O Centurião lá continua com o seu olhar altivo e sarcástico, já com olho novo. O Parolinha-o rapaz dos pregos- que tanto me irritou em menino por me compararem a ele, lá continua com o seu sorriso maldoso a entregar o prego para a Crucifixão, e mesmo não tendo formação artística que me permita aferir da qualidade dos figurantes e tendo a noção que algumas delas saíram das mãos de artistas populares, não vislumbrei o horrendo que Ortigão lhes atribui.
Pensei  que: ou o autor das Farpas compelido por algum anticlericalismo próprio da sua época, não quis dar relevância à via sacra do Bom-Jesus ou então as imagens por ele observadas não eram as que eu agora via.
Na arrumação que por vezes é necessário fazer às papeladas para manter alguma ordem, encontrei umas fotocópias de um texto da autoria de Luís Costa intitulado: “Documentos e Memórias para a História do Barroco Bracarense” que numa nota de rodapé trazia a resposta ao meu dilema.
Afinal os “Judeus” das capelas que hoje podemos observar não são mesmo, em grande parte, os que Ramalho Ortigão viu na visita que fez ao Bom-Jesus. Em meados do séc. XIX  as capelas foram remodeladas e algumas imagens retiradas e vendidas para o Calvário do Couto de Cambeses, no concelho de Barcelos.
Fui lá vê-las e devo confessar que aquele insulto popular de que: “És feio como os Judeus do Couto” faz todo o sentido. Afinal Ramalho Ortigão tinha razão.
São realmente indubitavelmente abomináveis.

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