segunda-feira, 24 de junho de 2013

As mais importantes sanjoaninas de Portugal


As festas em S. João da Ponte no ano de 1917
A procissão de S. João a atravessar a rua de S. Marcos em 1917
 As Festas de São João transformam Braga numa aldeia minhota em ponto grande. Este momento do calendário é a imagem de marca da cidade líder da região mais festiva de Portugal. Por isso mesmo, não admira a dimensão alcançada pela sua principal festa, que vai chegar a afirmar-se como a maior romaria de Portugal e um fenómeno turístico sem par, no derradeiro quartel do século XIX. Todavia, a valia e o sucesso das festas bracarenses em honra de São João esconde uma ancestralidade fundamental, que serviu de modelo a grande parte dos restantes festejos regionais.
Se podemos apontar uma data para o início de festejos significativos em honra de S. João em Braga, somos obrigados a apontar o ano de 1150, data em que foi fundada uma igreja dedicada a este santo. Desde esse ano, vai ser do crescimento e desenvolvimento da paróquia e da sua confraria, ambas devotadas a este orago, que irão evoluir os festejos sanjoaninos em Braga. Se é certo que, apenas a partir de 1489, surgem notícias que atestam que as festas já se realizavam com dimensão pública, é difícil não conjeturar que as mesmas já se realizavam desde a fundação deste templo e, com maior propriedade, desde a fundação da confraria que lhe é coeva.
Ao longo do século XVI, temos a convicção, a partir da análise de diversas atas municipais, que as festas de São João, para além de serem um dos sete festejos estatutários da cidade, seriam provavelmente um dos que mais contava adesão popular. A corrida do porco era, por esse tempo, o epicentro dos festejos, que passaram, mais tarde, a ter na procissão e nas exibições de cariz medieval, o seu principal evento. As informações que detemos, relativas à procissão nos finais do século XVII, indicam-nos que seria um momento relevante no calendário anual das celebrações que se realizavam na cidade. A confirmação dessa relevância vem em meados do século XVIII quando já se reconhece o São João como os maiores festejos citadinos a par do Corpo de Deus, que, por essa altura, já era demasiado religioso para a efusividade e excesso impostos pelos cânones sociais dos tempos barrocos. Apesar da depuração das exibições pagãs, exigidas durante o reinado de D. João V, o São João conservou detalhes festivos que entusiasmavam os bracarenses. Vão ser esses detalhes, conservados ao longo de décadas, nomeadamente entre os finais do século XVIII e meados do século XIX, que vão garantir o ressurgimento em força dos festejos.
Na segunda metade do século XIX, Braga, como qualquer localidade minhota, fervilhava de festas e romarias. Qualquer capelania, paróquia ou confraria queria destacar-se das demais pela qualidade dos seus festejos. Nesse âmbito, nas décadas de 1850 e 1860, a cidade de Braga registava cerca de 34 romarias, das quais se destacavam o Senhor da Saúde das Carvalheiras, o Espírito Santo no Bom Jesus, Santa Felicidade na Ponte e o São João, que detinha duas festas: São João do Souto e São João da Ponte. A primeira mantinha a procissão, na qual se inseriam as danças do Rei David e os cânticos dos pastores, quadros que vão sendo devidamente reformulados nesta época. Na capelania sediada na coutada dos arcebispos realizava-se uma feira no dia do santo, que era acompanhada de uma romaria mais popular, potenciada pelo vasto espaço exterior à capela dedicada a São João.  As exibições do Rei David e dos Pastores vão ser decisivas para que o São João mantivesse uma originalidade e um nível de atração de forasteiros, que lhe permitiu destacar-se dos demais festejos que abundavam na cidade. Por isso mesmo, em 1893 vai ser instituída a primeira comissão de festas, que vai unificar os dois festejos sanjoaninos e dar-lhes um impulso ainda maior no que ao número de visitantes diz respeito, número esse que já era significativo por estes tempos. A partir daí, jamais algum cronista ou jornal se atreveu a questionar se alguma outra romaria se teria sobreposto ao São João que, ainda assim, era sempre o termo de comparação, o que já deduz o reconhecimento da sua grandiosidade perante os restantes festejos anuais.
O percurso palmilhado até aos nossos dias confirma este evento como o maior do calendário anual dos bracarenses urbanos e rurais e a centralidade destes festejos na região em que se insere, porém, retira-lhe a importância mediática e turística que vigorou entre a segunda metade do século XIX e o primeiro quartel do século XX. O surgimento dos festejos portuenses, principalmente a partir da década de 30 do século passado, cidade com maior importância demográfica e mediática, acabou por relegar o São João de Braga para uma posição secundária no que à notoriedade diz respeito.
Apesar disso, os festejos bracarenses continuam a apresentar-se com uma originalidade identitária que os individualiza entre os demais festejos portugueses em honra de São João Batista. Por isso mesmo, a análise da história e desenvolvimento destas festas é um imperativo para iniciar um caminho de valorização desta essencial herança patrimonial, histórica e etnográfica da cidade de Braga. 

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