terça-feira, 11 de junho de 2013

Museu de Etnografia: sonho bracarense eternamente adiado

Braga, a histórica capital do Minho, foi uma das primeiras cidades portuguesas a debruçar-se sobre a necessidade de promover e valorizar a sua etnografia.
Como não recordar as sanjoaninas de 1955, nas quais teve lugar uma das mais espetaculares concentrações etnográficas de Portugal. Na sequência do I Congresso de Etnografia e Folclore, realizado em Braga, decorreu um grande festival folclórico, confirmando o protagonismo da cidade
como capital da província que, por esse tempo, foi pioneira na constituição de grupos folclóricos e etnográficos, que visavam conservar usos e tradições. As festas de São João funcionavam como o palco privilegiado para o folclore minhoto. Esse protagonismo é hoje desempenhado por Viana do Castelo, não se entrevendo razões plausíveis para Braga ter deixado claudicar esse estatuto.
Para além deste dado, há um outro que convém destacar.
Foi há cerca de 73 anos que foi instalado na ala esquerda do largo do Paço, o efémero Museu Etnográfico de Braga, cuja inauguração decorreu no dia 24 de junho de 1940, feriado municipal, ano em que se celebraram as comemorações centenárias da fundação de Portugal.
A organização do espaço expositivo coube a Jerónimo Louro, Moura Coutinho e Casal Pelayo.
De acordo com o testemunho de Alberto Menezes, colaborador do jornal “Correio do Minho”, podemos percecionar um pouco do que seria a exposição permanente do museu.
A exposição iniciava-se com três figuras em gesso, uma das quais correspondia a uma réplica da estátua de D. Afonso Henriques que se pode admirar em Guimarães, representando as outras dois guerreiros. Junto a este conjunto estava ainda uma réplica do Castelo de Guimarães. Em outro mostruário encontrava-se um capacete de cobre encontrado no castro da Póvoa de Lanhoso. Seguia-se uma exposição de placas com escudos dos vários municípios do distrito e, sobre o chão da sala, exibia-se um mapa orográfico, hidrográfico e iterográfico deste território.
Nas dependências seguintes encontrava-se a reprodução de uma casa minhota, começando pela cozinha de cariz rural, com a sua marcante chaminé, os tachos pendurados e a borralheira. Nestes conjuntos encontravam-se representadas personagens encenando o quotidiano minhoto.
O conteúdo expositivo seguinte era dedicado às atividades marítimas. Numa sala com paredes forradas a redes de pesca podiamse admirar réplicas de navios e, ao centro, uma jangada de cortiça a boiar sobre uma maresia artificial, com seu marinheiro ao comando.
Seguidamente, o museu expunha algumas das figuras tipicamente bracarenses, particularmente aquelas que estavam vinculadas ao seu maior evento anual, as Festas de São João, como o Zé Pereira a tocar o seu bombo ou o Rei David em pose de dança. A decoração deste espaço do museu foi efetuada com recurso a ornamentações típicas da romaria minhota e canas de foguetes e fogo de artifício.
A exposição prosseguia com amostras de chapelaria, a indústria que mais marcava a atividade económica da Braga desta época. Seguiam-se réplicas das “cadeirinhas” barrocas, que serviam para o transporte dos “senhores” da nobreza brácara. Supomos que sejam as mesmas que hoje se exibem no museu dos Biscainhos.
Seguiam-se depois diversas figuras em tamanho natural, envergando as diferentes variações do traje
típico do Minho. Após esta fase, o museu etnográfico exibia uma interessante coleção de arte sacra,
com obras que iam desde o século XVI ao XIX. Supomos também que muitas destas obras tenham transitado para o espólio do museu dos Biscainhos.
As três últimas alas do museu eram dedicadas às artes e ofícios. Na primeira eram expostos bordados e tecidos de linho, entre os quais sobressaía as rendas de bilros e os engenhos que serviam para tecer o linho.
Na segunda observavam-se quadros com diversos ofícios, entre os quais o torneiro, o oleiro e respetivas amostras em barro e cerâmica, o ourives trabalhando a filigrana à moda da Póvoa de Lanhoso, e ainda “condeças, cestas, cestinhos, cestinhas de varas e chapéus de trança de colmo”.
Na última sala exibiam-se relógios de caixa alta, denominados de “bragueses”, mobiliário em talha e ainda algumas armas de fogo. Entretanto, este museu foi enriquecido pelo esforço do diretor da Biblioteca Pública e do museu, Alberto Feio, tendo coexistido com o Museu D. Diogo de Sousa, que estava instalado no mesmo edifício.
A existência do Museu Etnográfico terá sido muito efémera, pois duas décadas mais tarde já se pensava na constituição de um Museu de Etnografia, História e Artes Populares, que também não se chegou a concretizar. Em 1962, a Junta Distrital de Braga movia esforços para a fundação deste museu, a instalar num edifício de raiz que seria construído na rua Gabriel Pereira de Castro, por detrás da igreja de S. Vicente. Entendia-se que sairia mais caro adaptar um edifício já existente do que construir um museu que se queria grande e completo. Os mentores pretendiam que o museu
tivesse espaços para conferências, uma biblioteca especializada e ainda oficinas de consolidação de objetos.
Quanto ao conteúdo expositivo, o intuito era representar as artes e ofícios de todos os municípios do distrito, nomeadamente alfaias agrícolas, meios de transportes, o cultivo e tecelagem do linho e a indústria da cestaria. Há ainda referências à olaria, cortumes, chapelaria e ainda uma abordagem às peças de artesanato e bordados. O que aconteceu posteriormente não o sabemos, todavia a solução encontrada acabou por ser o palácio dos Biscainhos, posteriormente transformado num museu temático do período barroco.
Dada a valia da sua história e da sua cultura popular, não justificará Braga a constituição de um grande museu da cidade que contemple todas as dimensões da sua identidade?

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