sexta-feira, 12 de julho de 2013

A acefalia política que compromete a democracia

A acefalia política é um problema cada vez maior na sociedade portuguesa. Longe vão os tempos em que os partidos políticos eram um agregado de gente que tinha um sonho para a sua comunidade, sonho esse partilhado com uma ideologia concreta e definida, distante de meros interesses pessoais.
Hoje, muitos dos que frequentam o seio partidário, acabam por vender os seus ideais a troco de manter o seu tacho numa qualquer empresa pública, autarquia ou ministério. Se se diz o que se pensa a respeito de determinada pessoa ou projecto, o mais natural é ser excluído de uma qualquer lista ou de um cargo para o qual já se fora antes designado.
Infelizmente conheço muitos casos assim. Gente aparentemente inteligente, com ideias interessantes, mas que acabam por desiludir pela forma como aplaudem certas medidas e protagonistas que aparentemente contradizem os seus ideais. É a chamada acefalia política, que deixa muito mal na fotografia aqueles que a experimentam... Para estes a independência é sinónimo de silêncio e cumplicidade.
Ora, se há decisões e interesses que se movem na política e que são efectivamente maus para o interesse público, não é atitude coerente criticar abertamente o que está efectivamente mal?
Obviamente que sim, mas não para todos. Por isso mesmo, verifica-se uma tendência assinalável de convites a independentes partidários para ocuparem cargos reservados habitualmente ao carreirismo partidário. Trata-se de um efectivo reconhecimento de que algo vai mal nas estruturas internas dos partidos, algo que deveria ser mote para reflexão profunda.
A independência não é cumplicidade e isso é uma virtude. Um independente não está sujeito ao cacique partidário e pode abertamente colocar a sua visão ao serviço da comunidade, mantendo o sentido crítico quando assim se justificar.
Os acéfalos, que vendem os seus ideais para ficarem bem vistos e que batem palmas a pessoas de cuja seriedade desconfiam, não só se bastam com o seu silêncio cúmplice, como querem impô-lo aos demais "independentes" para que se calem perante negócios que comprometem o interesse público, a ética e a honestidade.
Estes casos, que não são exclusivos de nenhum partido, devem fazer repensar-nos o funcionamento das instituições democráticas. Se na base das contratações para certos cargos estiver o mérito e a competência, com regras muito claras quanto ao desempenho, e não propriamente o cartão partidário, penso que esta lógica poderá ser invertida.
Por isso mesmo, parece-me incompreensível que indivíduos que recebem um salário para prestar um serviço público, estejam a ocupar o seu tempo em actividades de campanha eleitoral, a gerir perfis facebook de candidatos e a vigiar o que se escreve em blogues e fóruns...
Já se perdeu a decência na nossa democracia?

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