quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lembrar D. Frei Bartolomeu dos Mártires

A estátua de D. Frei Bartolomeu dos Mártires em Viana do Castelo, onde está sepultado
O cruzeiro do parque da Ponte é uma das marcas deste arcebispo
Hoje, a Igreja de Braga recorda uma das suas figuras mais notáveis e, por conseguinte, a cidade de Braga tem a oportunidade de fazer memória de um dos seus admirados governadores. D. Frei Bartolomeu dos Mártires nasceu em 1514, na freguesia dos Mártires em Lisboa, numa época de muitos conflitos na Europa devido à Reforma Protestante protagonizada por Martinho Lutero. Aos 15 anos recebeu o hábito de S. Domingos e pouco depois foi chamado a Évora, onde ensinou teologia. Mais tarde foi eleito Prior do convento de Benfica. 
Nesta altura o humanismo era a corrente ideológica que marcava as sociedades ocidentais. Frei Bartolomeu era um homem de boa índole, simplicidade e humildade – segundo é citado - o perfil perfeito para ocupar a cadeira de Arcebispo Primaz. E assim foi em 1559, sendo D. Catarina regente, D. Frei Bartolomeu tornou-se Arcebispo de Braga. Em Braga preocupou-se com a instrução religiosa e dedicou-se a visitar o Arcebispado, tomando pulso aos problemas dos seus ‘rebanhos’. 
Deve-se a este prelado a memorável participação no Concílio de Trento onde D. Frei Bartolomeu interveio com brilhantismo. Este Concílio foi um dos momentos mais importantes na história do cristianismo, dado que deu início a uma grande reforma na Igreja, que D. Frei Bartolomeu dos Mártires fez questão pôr em prática, mandando abrir o primeiro seminário da Península Ibérica (situava-se no Campo da Vinha, e tinha como orago S. Pedro). Em 1582 pediu a renúncia do cargo de Arcebispo, muito afectado pela morte de D. Sebastião e consequente perda da independência do reino. Retirou-se para o Convento de S. Domingos em Viana do Castelo onde veio a falecer, com fama de santo, em 1590. Foi beatificado pela Igreja Católica em 2001, reconhecendo-se desta forma as suas qualidades humanas e morais.
Mas o que fez de mais notável este arcebispo? Como sabemos, Braga era um feudo dos arcebispos, que detinham o poder municipal e, por isso, exerciam as funções administrativas da cidade. Sendo a peste uma doença contagiosa, era necessário isolar os doentes para tentar a sua reabilitação, evitando contaminar a restante população. 
Aquando deste acontecimento, D. Frei Bartolomeu dos Mártires recebeu diversas missivas do próprio rei para abandonar Braga e evitar ser contaminado, todavia rejeitou. Como relata D. Rodrigo da Cunha poucos anos após, em 1635, D. Frei Bartolomeu dos Mártires “proveu no remédio dos feridos, mandando-os curar na casa da saúde que ordenou se fizesse na devesa dos Arcebispos. (…) Deixou-se ficar na cidade, e por sua boa diligência, ou o que é mais certo, por seus grandes merecimentos, o mal cessou em breve e durou muito menos tempo do que em outras povoações de menos consideração (…) Há desta peste memória na pedra do cruzeiro da ponte de Guimarães”. Para além do hospital que mandou construir na sua devesa, onde actualmente está o Parque da Ponte, ele próprio tratava os doentes “administrando-lhes os sacramentos, visitando-os e curando-os…”. Graças à insistente acção de D. Frei Bartolomeu dos Mártires a peste não se prolongou por muito tempo nem fez, em Braga, um número elevado de óbitos. Em homenagem e gratidão da cidade ao seu prelado, a Câmara mandou erguer um cruzeiro, poucos anos depois, no preciso local onde foi erigido o hospital dos pestíferos. Até hoje o cruzeiro está junto à Capela de São João da Ponte, embora o local que ocupa no presente não seja o primitivo. Assenta sobre um pequeno pedestal, de forma cúbica, em que se podem ler, nitidamente, as seguintes inscrições:                         
SENDO ARCEBPO DE BRAGA DO. F. BERTOLAMEV DOS MARTIRES OVVE PESTE NESTA CIDADE NO ANO DE 1570 E OS EMPEDIDOS FORA TRAZIDOS A ESTA DEVEZA
A tradução é simples: «Sendo Arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, houve peste nesta cidade, no ano de 1570, os “impedidos” foram trazidos a esta devesa». Estas inscrições explicam, claramente, a origem e a função evocativa deste monumento. Este cruzeiro atesta também a santidade, recentemente reconhecida pelo Vaticano, de D. Frei Bartolomeu dos Mártires.

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