terça-feira, 23 de julho de 2013

O Passeio Público da "segunda Paris"



Se era moda, já antiga, se Paris e Lisboa já gozavam de tal empreendimento, Braga, já tarde, também haveria de construir o seu jardim público. No espaço urbano mais importante da cidade, o campo de Santana, haveria de nascer em 1863 o jardim público bracarense, que perdurou até outras modas entrarem em vigor. Em 1914 foi este espaço urbano transformado numa longa avenida com faixas de rodagem intervaladas por faixas ajardinadas, à imagem do que sucedera duas décadas antes na avenida da Liberdade lisboeta. Nascia assim a hoje denominada avenida Central.

Local de convívio social e de deleite, o Jardim Público nunca deixou de ser elitista, também ele absorvendo os tiques parisienses. Aqui se realizou ao longo de mais de cinco décadas um festival privado frequentado pelas elites que, isoladas do povo, viviam a sua festa de S. João, principal evento do calendário anual da Braga oitocentista. Porém, aqui dominava o mundo da aparência e do faz de conta que irritava a pena de Camilo. A hipocrisia dominante nas classes superiores da sociedade foram um dos alvos preferenciais do descritor da alma minhota, particularmente numa província submersa em capital brasileiro, onde o novo riquismo e os títulos nobiliárquicos alcançados à custa de portentosas obras sociais aumentava significativamente o génio maldizente camiliano. Trata-se, aliás, de um novo Gil Vicente, tal é a denúncia impressa nas suas múltiplas ironias, muitas delas subjugadas ao ridículo dos seus personagens, como outrora tão eficazmente realizava o pai do teatro português.

Na sua descrição do Jardim Público, uma vez mais, Camilo não deixa de lado os espasmos literários de Vaz de Freitas, autor do Guia do Viajante em Braga, cujos exageros discricionários não deixaram o escritor indiferente.

Por fora das estalagens ainda há proeminentíssimas feições de Paris em Braga. O Jardim , por exemplo. V. Ex. a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora sufocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Também a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquele confuso borborinho? Nem eu. Quem explica o fenómeno, trivial nos Champs-Elysées e no parc de Monceau , é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua Guia do viajante em Braga, por seis vin­téns, pág. 41. A coisa é isto: O chilrear das crianças, o devanear das poetisas, o quei­xume sonolento dos poetas, a conversação pesada e metálica dos proprietários, todos estes murmúrios vagos ou alegres, sufocados ou estrepitosos (hic) infundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam atraente ou deleitoso. Théophile Gautier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, não rendilharia com tão subtis filigranas de frase a explicação dos ruídos babilónicos do Luxemburg . Donde se colhe que Braga tem poetisas que exibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam sonolentos. Paris, tal qual. Note V. Ex. a o contraste no sexo destas pessoas que bebem na Castália: elas devaneiam , apostrofando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; eles, cabeceando marasmados pelo ópio do narguilé , queixam-se sonolentos, porque não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados, roués. Saíram do café Faria intoxicados do absinto de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Musset. Entraram no jardim com o cérebro anestesiado, querem dormir; e elas, à imitação do femeaço da Trácia, projectam escalavrar aqueles Orfeus dormi­nhocos, Márcias que elas, filhas de Apolo, querem esfolar. Segun­da Paris. 

Camilo Castelo Branco, "O Comendador"

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