quarta-feira, 3 de julho de 2013

O primitivo hino da cidade de Braga



O Hino da Cidade de Braga, composição musical oferecida aos bracarenses em 1856 pelo afamado músico bracarense Joaquim José de Paiva, é, desde 1999, acompanhada por uma letra, numa versão contemporânea saída da inspiração de Amadeu Torres. 
Atualmente, durante as Festas de São João, altura em que são exaltados solenemente os símbolos da municipalidade, o hino é devidamente interpretado por um largo conjunto de filarmónicas e pelo Orfeão de Braga, na manhã do dia 23 de junho, em plena praça do Município.
Apesar de hoje em dia o Hino da Cidade de Braga se apresentar com melodia e letra, durante longas décadas só era interpretada a melodia, dado que não se sabia do rasto da primitiva letra, ou se esta haveria existido. 
Segundo nos relata João Duque, um dos responsáveis pela renovação desta melodia, é provável que tivesse existido uma letra primitiva escrita para o hino bracarense, porém não se lhe conhece o rasto. Os indícios para a existência da letra primitiva apareciam, desde logo, no facto das partituras encontradas deterem uma orquestração para coro. Outro dado relevante a apoiar esta tese provinha de uma referência de Álvaro Carneiro, integrada na obra "A Música em Braga", na qual, abordando a vida e obra de Joaquim José de Paiva, se diz que foi autor "do Hino Bracarense, oferecido à cidade em 1856, que foi muito popular e apreciado". Estes dados, por si só, bastariam para sublinhar a existência de uma letra do denominado "Hino Bracarense".
Em vésperas da comemoração do bimilenário de Braga, que se assinalou no ano 2000, querendo o Orfeão de Braga recuperar esta peça de grande simbolismo e significado para a comunidade bracarense, procurou aquela que seria a primitiva letra do hino, perdida algures nas vertigens do tempo. Não encontraram e, por isso, acabaram por encomendar uma nova letra para o hino, segundo a orquestração musical subsistente. Saída da inspiração de Amadeu Torres, a nova prosa, subdividida em 10 estrofes devidamente adaptadas ao ritmo da melodia, foi adotada como hino oficial da cidade de Braga desde o ano 2000. Desde aí se tem feito um notável esforço de divulgação, particularmente junto das escolas, sendo o hino interpretado na Abertura Oficial das Festas de São João, que decorre na manhã do dia 23 de junho, na praça do Município.
Dada como desaparecida, a primitiva letra do hino, parecia ter-se esfumado definitivamente. Eis senão quando, no meio de uma pesquisa sobre a história das festas de São João em Braga, publicado no periódico mais importante da Braga de então, "O Bracarense", surge a letra tão procurada e que se constituiu como memória indispensável do nosso percurso coletivo. 
O "Hymno Bracarense", da autoria do poeta, também ele bracarense, João Joaquim d'Almeida Braga, um poeta de inspiração cristã, falecido prematuramente em 1871, mas que legou uma vasta obra literária. Temos, portanto dois nomes muito relevantes associados à composição do hino da cidade.
A referência de Álvaro Carneiro à titulação do hino confirma ainda mais que estamos efetivamente diante da letra primitiva do Hino da cidade de Braga. O hino é constituído por seis quadras, acrescentada do refrão, que apelam à exaltação de Braga entre as cidades portuguesas. As referências declaradas à fé e a Deus, que se entendem no contexto histórico e comunitário de uma cidade que cresceu à sombra do poder arcebispal, são assumidas plenamente na letra e poderão ter sido o factor discriminatório que conduziu este hino ao anonimato. Sabemos que foi muito popular e bem acolhido nos primeiros anos, mas a ausência de momentos de interpretação e divulgação do mesmo, tê-lo-ão tornado obsoleto. 
Se ao tentarmos integrar a velha letra nos moldes em que atualmente se canta, nos parecer haver lugar a algumas dissonâncias, não nos esqueçamos que o arranjo musical entretanto feito, tal como refere João Duque, se realizou a partir de partituras para banda, de tom mais instrumental, o que não deixa entrever os ritmos inicialmente propostos para vozes e coro. Mesmo que não se substitua esta versão primeira, pela que atualmente vigora como oficial, até porque nos parece mais didática e atual, é importante não deixar cair no anonimato uma letra que também faz parte da história coletiva de Braga e que apela, inevitavelmente, ao orgulho bracarense. É também para isso que são compostos os hinos.


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