sábado, 8 de março de 2014

Lausperene Quaresmal: a tradição bracarense



Igrejas de Braga ficam particularmente belas durante a Quaresma

O Lausperene Quaresmal constitui uma das tradições mais importantes da preparação pascal na cidade de Braga. Foi o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, quando fez o relatório para a primeira visita “Ad Limina”, quem pediu ao Papa Clemente XI a instituição do lausperene quaresmal nas igrejas da cidade de Braga, começando na quarta-feira de cinzas e terminando no Domingo de Ramos. Esta celebração deveria ter as mesmas indulgências que haviam sido concedidas anteriormente às igrejas de Lisboa, no ano de 1682, por intermédio do Papa Inocêncio XI. 
Passados mais de três séculos, esta tradição continua viva e enraizada na vivência quaresmal dos bracarenses. São, no total, 23 os templos que acolhem o lausperene quaresmal, que decorre ao longo de dois dias em cada igreja, tempo durante o qual a Sagrada Eucaristia está exposta em adoração permanente desde o princípio da manhã até ao fim da tarde.
As igrejas surgem transfiguradas. Trata-se do momento mais elevado do ano, altura única em que os fiéis bracarenses se deslocam em massa a estes lugares sagrados. Os templos, que acolhem durante dois dias a adoração eucarística, são decorados primorosamente com flores, velas e monumentais cortinas, contrastando com a austeridade que os cânones litúrgicos aconselham por estes tempos quaresmais. As tribunas, habitualmente localizadas ao centro do altar-mor em forma de escada, continuam a ser o lugar por excelência da adoração eucarística, sobre a qual se exibe, muitas vezes, a custódia ostentando as sagradas partículas do Corpo de Cristo.
Apesar de os recentes preceitos do Concílio Vaticano II recomendarem que os tronos não estejam demasiado distantes dos fiéis, continua a cumprir-se a tradição bracarense de os pompear, mesmo nos casos em que a custódia é colocada já sobre a mesa do altar.
A porta principal da igreja é vedada com uma enorme cortina púrpura, de forma a assinalar o “Louvor Perene” (lausperene) que é vivenciado no seu interior. Junto à entrada, acolhem-se também as habituais “rebuçadeiras”, que expõem os tradicionais “rebuçados do Senhor” embrulhados em papéis multicolores, tentando os crentes com promessas mélicas que possam quebrar o seu jejum quaresmal.
Em tempos não muito recuados, as igrejas competiam entre si pelo título de mais bela do lausperene quaresmal. Daí o esmero nas decorações dos templos, que as zeladoras adstritas a cada lugar sagrado faziam questão de confirmar. Ainda se ouve dizer que o Senhor «esteve bem mais bonito na minha igreja», em conversas entre vizinhas. Uma rivalidade ”sagrada” que o tempo acabou por desgastar. Hoje, a maioria dos fiéis que frequenta as igrejas durante o sagrado lausperene busca a oração e o recolhimento, o sentimento de que a proximidade com o Corpo de Cristo se torna realidade mais efetiva neste tempo favorável que é a Quaresma.